O Sol nosso de cada dia nos dai hoje

O Sol nosso de cada dia nos dai hoje

Seu dotô os nordestino

Têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista

Nessa seca do sertão

Mas dotô uma esmola

A um home qui é são

Ou lhe mata de vergonha

Ou vicia o cidadão

(Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em Vozes da Seca)


Alguém já ouviu falar de algum lugar no mundo onde existe um Departamento Nacional de Combate à Neve? Existe no Japão um Departamento Nacional de Combate aos Terremotos? E por que existe no Brasil um gigantesco Departamento para combater a seca? Um Departamento? Não, na verdade existe uma mentalidade de combate à seca, solidamente instalada na cultura brasileira. Seca não se combate, existirá indefinidamente, da mesma forma que não se pensa em uma solução para a questão amazônica que passe pela luta contra a floresta ou pelo combate ao meio líquido. Até mesmo como contribuição à Paz, é preciso remover o tom bélico desse esforço, desmilitarizando seu vocabulário. Há, no Brasil, suficiência de tons mais amenos, mais alegres, mais sugestivos: tom jobim, tom zé, tom cavalcante e outros mil tons de nascimento e não de mortes. Convém lembrar que há expressas recomendações do poeta desta terra para que se louve o que bem merece e deixe-se o ruim de lado.

O esquimó dá tanto valor à neve que tem centenas de nomes para denominá-la, e uma sensibilidade aguçada a ponto de nela perceber diferentes tonalidades. Por sua vez, os japoneses desenvolvem, o tempo todo, sofisticadas tecnologias de convivência com os atritos das placas tectônicas (partes menores da litosfera, a camada mais superficial da Terra) e nem pensam em deixar o Japão por conta deles. O caatingueiro, de maneira igual, tem sensibilidade para compreender as sutilezas da caatinga (mandacuru, quando fulora na serra...), mas ninguém o ouve quando se trata de soluções para as regiões secas.

Fala-se hoje, amiúde, em convivência com a seca. Convivência significa caminhos possibilitadores da presença humana nas regiões beneficiadas por um bem - o sol - indispensável para a vida, e que devido à abundância acabou por valorizar a escassez de outro bem essencial, que é a água. Uma valorização indutora da cegueira total, que não deixa perspectivas para se contemplar mais nada. Essa supervalorização da seca, ao ser estimulada a migrar da caatinga para os gabinetes refrigerados, mostrou-se de uma eficácia nociva surpreendente, quando usada por seres humanos inescrupulosos como arma política. Pode-se dizer que a apropriação maléfica de um bem natural para promover a desgraça humana enquadra-se na mesma categoria de comportamentos que levam os seres humanos a traficar drogas, a contrabandear armas, a fraudar as contas públicas, a corromper ativa e/ou passivamente outros seres humanos. Travestir o sol de flagelo é uma afronta à vida.

Não é menos hediondo o crime, quando se neutraliza esforços voltados à busca de espécies animais e vegetais suscetíveis de adaptação ou ao incremento da população daqueles já adaptados, ou à execução de obras públicas apropriadas para regiões ensolaradas, como estradas e meios de transporte, sistemas de conservação de água e de fornecimento de energia, escolas, postos de saúde, moradias, propostas de organização da atividade produtiva valorizando o patrimônio representado pelos modos de fazer já existentes...

O turismo seria uma boa iniciativa para as regiões onde os mares são de puro sol? Como despertar interesse para esse privilegiado ecossistema? O que ele tem de singular? A dialética da paisagem? Um ser humano talentoso, forjado por um monumental e irremovível ambiente rude, hostil, mas transparente para seus personagens? Um ambiente estimulador da firmeza de caráter, do sentido da honra, do jeito de ser...?

Que tipo de evento (inclusive no plano dos desportos) poderia ser sistematizado? Que festivais? Que festejos? Que feiras? Que exposições? Que histórias poderiam ser contadas? Possivelmente mil e uma noites seriam poucas, diante de tão poderoso imaginário... Não levaria muito tempo para surgir o nosso Abominável Homem do Sol.

O que poderia ser produzido no campo da fotografia, do cinema, da literatura, das artes plásticas, da culinária, da criação de revistas e jornais (especializados e de informações), da produção de artigos que atendam outras necessidades (ensaios, dissertações, teses...), da planetária capilaridade da internet, da realização de estudos e pesquisas, da moda, do marketing, da música, do teatro, da dança, do folclore, do artesanato?

Resultados poderiam tomar a forma de cooperativas, cultura de frutas sem agrotóxicos, de plantas (inclusive para fins estéticos, decorativos) e de animais adaptados, de alberques simplificados (até mesmo a céu aberto, com muitas redes), trilhas, carnaval fora de época, cafés da manhã e refeições especiais, editores, agências de viagem, grifes e desfiles, shows, galerias de arte, cartões-postais, selos, marcas e patentes, ensaios fotográficos temáticos (tipos humanos e paisagem), parques nacionais, centros de divulgação no Brasil e no exterior (usando inicialmente as próprias embaixadas brasileiras), Institutos de Estudos e Pesquisas, Bancos de Dados, homepages na internet, grupos folclóricos, centrais de artesanato, romarias, fomentando uma economia de comunhão, beneficiada por estratégias como o fair trade (comércio justo). Nenhum lugar do Brasil teria, o ano inteiro, um calendário com tantas opções...

De repente, não seria uma sorte grande poder contar com elementos geográficos tão especiais? Um capital renovado, integralmente reposto todo dia, uma aplicação garantida pelo Banco da Natureza, sem interferência das agências financeiras internacionais, indiferente às armadilhas da globalização, não controlável por nenhum grupo fundamentalista. Um verdadeiro tesouro...

Não se poderia organizar uma estrutura de visitação permanente às regiões secas, com pacotes individuais e coletivos... com variadíssima programação capaz de agradar a todos os sentidos? Uma experiência enriquecedora, incomum, instigante, desafiadora... Sem sombras de dúvidas, o sol transformado em benção... ter-se-ía um eterno Festival do Sol, especialmente para os povos da Terra que vivem em regiões frias ou temperadas. Existe vantagem competitiva maior do que essa? Na verdade, tudo já está pronto, é só inverter a concepção de mundo, tornando-a capaz de incorporar a dádiva de um céu de sol, uma lua de sol, luares, um anoitecer de sol, pores-do-sol, um amanhecer de sol, auroras, um generoso sol de sol... A América do Sol.

Não mais o sol da morte, o sol da inclemência, o sol do desespero, o sol da aflição, o sol do castigo, mas o sol do sonho, o sol da esperança, o sol da vida... Um sol indulgente e não de purgatório. Em nenhum tempo, nenhuma ação nas regiões secas que deixe de considerar este patrimônio, este bem gratuito e incomensuravelmente farto que é o sol, será capaz de reorientar rumos e perenizar iniciativas... Nenhuma. Nada mais comprova isso melhor do que a estratégia das eficazes e eficientes formas de vida que medram, com sucesso e sem expressão de lamento ou sentimento de flagelo, nesse mundo tão cheio encantos. O ser humano, numa postura de luta contra, jamais diminuirá o tamanho desse gigante e, por sua vez, nunca engrandecerá a si mesmo. É um combate inconseqüente. Uma luta inócua. Um desperdício de proporções inigualáveis. Coisa de gente que tem na cabeça aquilo que Rui Barbosa tinha na barriga.

A questão, portanto, não é a escassez de água, e sim a fartura de sol sem proveito. É preciso instalar a Era da Energia Solar, luminosa e iluminada, de uma só estação e nela, reinando absoluto, um sol bem-vindo, benfazejo, jogando luzes em novos conceitos, novas grifes, novos aproaches, novas cadeias produtivas, novos horizontes. Infinito potencial para novos mercados de trabalho, novas crenças, novas utopias. A humanidade, mais do que nunca, precisa se fartar de sol... e banir, para sempre, as trevas que insistem em se firmar no horizonte, enchendo de temor o nosso olhar e apequenando as nossas vidas. (Erasmo Celestino. Núcleo de Estudos do Piauí do Instituto Dom Barreto)


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