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Erva daninha ameaça hegemonia da soja transgênica

Erva daninha ameaça hegemonia da soja transgênica

Ervas daninhas resistentes ao glifosato ameaçam jogar por terra as duas principais vantagens da soja transgênica: facilidade de manejo e redução do uso de herbicidas. Nas lavouras do Meio-Oeste americano, as maiores infestações são de amaranto e buva. No Brasil, a buva é o principal inimigo. A planta resistente ao glifosato se espalhou pelas lavouras do Norte do Rio Grande Sul e Oeste do Paraná e já chegou aos campos de Maringá, no Norte parananese.

"O problema é sério", diz o pesquisador Dionísio Luiz Piza Gazziero, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que retornou há 15 dias dos Estados Unidos, onde foi observar lavouras de soja infestadas por buva e amaranto. "No Brasil, nas lavouras mais infestadas, a queda da produtividade pode chegar a 40%, isto sem contar o aumento dos custos com herbicidas e a perda da qualidade da soja, devido a maior umidade e impureza dos grãos", acrescenta o pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, de Londrina (PR).

Segundo Gazziero, o uso continuado do mesmo herbicida, no caso o glifosato, acabou selecionando plantas tolerantes e resistentes. Por enquanto, a maior ameaça à soja é a buva, mas outras plantas daninhas começam a ganhar expressão como o amargoso, no Paraná, e o azevém no Paraná e no Rio Grande do Sul.

"É aquela história da seleção natural de Darwin: você tem 10 plantas, uma delas resistente. Quando você aplica o herbicida, consegue matar nove, mas fica uma. No ano seguinte, tem duas ou três que resistem, depois seis ou sete, até que as ervas se espalham por toda a lavoura", diz Gazziero.

Entre as soluções para controlar a buva, Gazziero cita a sucessão da soja com trigo ou aveia, em vez de milho safrinha, e o uso de outros herbicidas, com mecanismo diferente ao do glifosato. Estas práticas acabam anulando as vantagens da soja transgênica, a facilidade de manejo e o menor uso de herbicidas, o que traz também menor impacto ambiental.

"O produtor tem que administrar muito bem o controle das ervas daninhas para evitar prejuízos", diz Gazziero. A tendência, segundo ele, é deste problema aumentar, caso medidas de manejo não sejam adotadas. Além da troca de herbicidas, o pesquisador recomenda a rotação de culturas, inclusive entre a soja transgênica e a convencional.

"Esta aliás é a grande vantagem do Brasil, que ao contrário dos EUA, não abandonou o cultivo da soja convencional e manteve seu programa de melhoramento genético. "Na soja convencional, o produtor pode voltar utilizar herbicidas mais antigos para controlar plantas resistentes", diz Gazziero.

Infestação

É justamente agora, durante o inverno, que a buva começa a germinar nos campos. Como se trata de uma semente leve, ela acaba se espalhando facilmente pelo vento. "É uma erva de difícil controle, e o ideal é não deixá-la crescer além de 10 centimetros. Para o caso de buva resistente, é necessário utilizar outro produto além do glifosato.

Nos EUA, segundo o pesquisador, os agricultores voltaram a utilizar herbicidas antigos para controlar as plantas daninhas na soja. "Embora o problema seja preocupante, há solução, desde que se faça o manejo adequado. Muitos agricultores já conseguiram controlar a buva com a adoção das técnicas indicadas. O problema é de todos nós: do governo, da indústria, dos agrônomos, dos pesquisadores e dos agricultores", diz o pesquisador.

Ele lembra que doenças como a ferrugem da soja costumam apavorar mais os agricultores do que ervas daninhas. "Mas elas são uma espécie de come quieto da agricultura. Silenciosamente, elas infestam os campos e reduzem o rendimento das lavouras", brinca Gazziero.

Na safra 2009/2010, a expectativa é de que as sementes transgênicas ocupem 55% da área plantada com soja no Brasil. Em Estados como o Rio Grande do Sul, a soja transgênica já representa 80% da produção, mas em algumas áreas do Centro-Oeste, como Campos Novos de Parecis, Primavera do Leste e Sorrizo, a soja convencional ainda ocupa 80% da área destinada à cultura.

Um dos motivos da resistência dos produtores do Centro-Oeste à tecnologia dos transgênicos é o custo. Dados do Instituto Matogrossense de Economia Agrícola (Imea), relativos a abril de 2009, mostram que em Mato Grosso o custo da produção da soja transgênica (R$ 1.973/ha) é cerca de R$ 96 superior o da convencional (R$ 1.877/ha).

Nota da Monsanto

Comunicado que nos foi enviado pela Monsanto afirma que no Brasil existem quatro casos de resistência de biótipos de plantas daninhas ao glifosato: o Lolium multiflorum (azevém), a Digitaria insularis (Capim Amargoso) a Conyza bonariensis e a C. canadensis (buva). "Não existe comprovação de uma correlação direta entre o uso da tecnologia Roundup Ready e a seleção de biótipos resistentes ao glifosato, pois a ocorrência de espécies resistentes ocorre também em locais onde a tecnologia não é utilizada, como, por exemplo, em culturas perenes", afirma o comunicado da empresa.

"O azevém, por exemplo, ocorre basicamente no inverno e não é considerada uma planta daninha que infesta a cultura da soja, que é cultivada no verão. Quanto à buva, os primeiros relatos de biótipos resistentes ocorreram inicialmente na região de Toledo, Paraná, onde ainda não se plantava soja Roundup Ready e também em algumas áreas de citros no Estado de São Paulo, posteriormente também sendo relatada no Rio Grande do Sul. Nesse caso da buva, é importante citar que a infestação predominante ocorre logo após o período de inverno e antes do plantio de soja e que, quando bem controlada antes do plantio da soja, não chega a ser problema dentro da cultura", diz a Monsanto.

Para a Monsanto, "a resistência de plantas daninhas a produtos herbicidas não pode ser atribuída a uma só razão, pois é um fenômeno natural e ocorre devido à pressão de seleção sobre a variabilidade genética das populações destas plantas. Deve-se ter muita atenção para que falhas no desempenho dos produtos não sejam confundidas com resistência de plantas daninhas, pois estas falhas podem ocorrer devido a fatores como: momento da aplicação, forma de aplicação, dose utilizada, características biológicas das plantas daninhas, além da interferência de fatores climáticos como seca, chuva, frio, geada etc."

Fonte: Canal Rural em 16 de julho de 2009

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