Britânicos defendem 'transgênico de pobre'
Conselho do Reino Unido lança texto para discussão pública
que defende pesquisa com OGMs como uma obrigação
Marcelo Leite escreve para a 'Folha de SP':
Não é bem lenha nem gasolina na fogueira, mas pode gerar alguma luz no acalorado debate sobre transgênicos: o Conselho Nuffield de Bioética, respeitada organização independente do Reino Unido, lançou relatório dizendo que pesquisar organismos geneticamente modificados (OGMs) para países pobres representa, antes de mais nada, uma obrigação ética.
O trabalho, preliminar, foi divulgado pelo Nuffield (http://www.nuf fieldbioethics.org) como contribuição para a discussão pública da biotecnologia deflagrada pelo governo britânico.
Ficará aberto a observações do público até 8 de agosto, quando o conselho iniciará a produção do relatório final.
Antes que os adversários dos transgênicos se apressem a ver no texto provisório mera propaganda das empresas de biotecnologia, é bom dizer que ele também ataca argumentos a favor dos transgênicos.
Diz, por exemplo, que países pobres receptores de ajuda alimentar humanitária têm, sim, direito a escolher se querem OGMs ou não.
Os autores do trabalho partem da premissa de que não estaria provado que a agricultura transgênica vá necessariamente ser prejudicial a camponeses pobres.
Dá como contra-exemplo o algodão Bt resistente a insetos (como a lagarta curuquerê), que já representou metade da colheita chinesa em 2002. Segundo o Nuffield, isso permitiu reduzir em 60% a 80% a aplicação de pesticidas.
David Hathaway, economista e consultor da Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos, contra-argumenta que o algodão Bt é ele mesmo 'um pesticida em embalagem vegetal' e que o relatório parte do falso pressuposto de que existam 'transgênicos do bem', sem ver que as variedades no mercado não se enquadram nessa categoria.
'Nada disso realmente acaba beneficiando o pobre.' Para ele, o relatório não diz de onde sairão os recursos para pesquisar 'transgênicos de pobre'.
Para o geneticista Fernando Reinach, presidente da empresa de biotecnologia Alellyx, as conclusões do relatório não se aplicam ao Brasil.
'Quando falam em países em desenvolvimento, o que vai na cabeça
é a África', diz. 'A soja gera parte grande de nosso PIB. No caso
da soja, o Brasil é país desenvolvido.'
(Folha de SP, 11/6)
fonte:Jornal da Ciência 2297, de 11 de Junho de 2003.
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