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Estudo amplia capacidade de bioinseticida para combater lagarta-do-cartucho, praga que ataca produção agrícola no Brasil

Mercado de defensivos naturais já movimenta mais de R$ 400 milhões no país, e traz alternativa contra crescente problema da resistência aos produtos químicos

 

Nos últimos anos, um visitante incômodo tem marcado presença nas lavouras brasileiras com frequência cada vez maior: a Spodoptera frugiperda, conhecida como lagarta-do-cartucho. Embora conhecida pelo seu impacto nas plantações de milho, esta praga se alimenta de mais de cem espécies de plantas, e registros de sua resistência a pesticidas tradicionais têm sido cada vez mais comuns.

 

Um grupo de pesquisadores da Unesp no câmpus de Jaboticabal testou com sucesso uma estratégia de controle biológico para a praga, que incluiu o uso de micro-organismos capazes de eliminar a lagarta sem causar impactos significativos à lavoura ou ao meio ambiente.

 

De forma geral, a ideia principal que orienta as estratégias de controle biológico é que as pragas agrícolas sejam combatidas com o uso de outros organismos vivos, sejam eles macro-organismos, como insetos ou ácaros, ou micro-organismos, como bactérias, fungos ou vírus.

 

No trabalho realizado pelos pesquisadores da Unesp, a estratégia envolveu o uso de micro-organismos, mais precisamente a bactéria Bacillus thuringiensis, uma velha conhecida na formulação de biopesticidas capaz de produzir proteínas que são tóxicas para essa lagarta e outras espécies de insetos. O foco do artigo publicado pelo grupo no periódico Scientific Reports foi o estudo da compatibilidade da bactéria com diversos tipos de adjuvantes para o controle da Spodoptera frugiperda.

 

Adjuvantes são substâncias adicionadas à fórmula do biopesticida com o intuito de aumentar a sua eficiência ou melhorar algum aspecto da sua aplicação. Eles podem, por exemplo, colaborar na aderência da substância à folha da planta. A relação do adjuvante com a bactéria, entretanto, deve ser “harmônica”, e não atrapalhar sua atuação.

 

O trabalho dos pesquisadores de Jaboticabal testou oito tipos de adjuvantes e em apenas um deles (o adjuvante Li-700) identificou uma relação que permitia o crescimento da colônia de bactérias e a produção de esporos, indicando compatibilidade com os biopesticidas à base de Bacillus thuringiensis com ação eficaz contra a lagarta Spodoptera frugiperda.

 

“O resultado do nosso trabalho despertou interesse de uma importante empresa norte-americana que produz biodefensivos. Eles recomendavam um adjuvante que não tinha um resultado tão bom. Por conta do nosso artigo, vão revisar essa recomendação”, explica o professor Ricardo Polanczyk, um dos autores do artigo.

 

O biopesticida atua da seguinte forma: ao se alimentar da folha da planta, a lagarta acaba ingerindo a bactéria, a qual, uma vez dentro do seu organismo, encontra um ambiente propício para liberação de esporos e cristais tóxicos que terminam por matar o hospedeiro em poucos dias.

 

As vantagens do produto são as mesmas da aplicação de qualquer controle biológico: não polui o meio ambiente, evita que ocorra alguma intoxicação nas pessoas que o aplicam e preserva os predadores naturais da praga. “Esses micro-organismos geralmente são muito sensíveis à temperatura ultravioleta. Então, depois que o bioinseticida é aplicado no campo, ele morre em cerca de três dias”, afirma Polanczyk.

 

Mercado em crescimento


O docente do Departamento de Ciências da Produção Agrícola chama a atenção para o crescimento do mercado de controle biológico no Brasil. Embora produtos deste tipo representem hoje apenas 3% das vendas totais de defensivos, o setor tem um potencial de crescer 20% ao ano, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio).


Em relatório publicado em 2019, a entidade mostra que, de 2017 para 2018, a indústria brasileira registrou 77% de expansão na comercialização dos insumos biológicos, enquanto o volume de vendas saltou de R$ 262,4 milhões para R$ 464,5 milhões.

 

Além da tendência de uma produção agrícola menos agressiva ao meio ambiente, Polanczyk credita boa parte desse crescimento dos bioinseticidas ao aumento da resistência das pragas aos produtos químicos tradicionais e à dificuldade das empresas em desenvolver novas moléculas, colaborando para o encarecimento do produto.

“O aparecimento da resistência não ocorre na mesma intensidade no controle biológico porque a sua eficiência é em torno de 80%. Esse valor é plenamente capaz de baixar a população de uma praga, e os 20% de indivíduos suscetíveis que sobram não causam impacto econômico e acasalam com os resistentes. Isso termina por gerar um retardo no processo de desenvolvimento da resistência”, explica o professor, lembrando que os 20% da população de lagartas que sobrevivem também servem de alimento aos predadores naturais do local.

 

Risco de efeitos ambientais adversos é mínimo, diz pesquisador


Outro ponto favorável ao uso dos bioinseticidas está nos fatores que contribuem para sua segurança. Para começar, os organismos utilizados para combater as pragas já existem naturalmente no ambiente. Basicamente, o que os pesquisadores fazem é aumentar sua quantidade e aplicá-los na lavoura, sem que isso resulte em alguma alteração mais profunda em suas características naturais.

 

E o uso da Bacillus thuringiensis como ferramenta de combate a pragas foi iniciado ainda na década de 1970. Desde então, nenhum problema de segurança biológica foi registrado. Também é importante a sensibilidade do microrganismo a fatores como umidade, temperatura e radiação UV.

 

Devido a estes fatores, em geral ele tende a desaparecer da lavoura decorridos três ou quatro dias de sua aplicação. Além disso, o efeito danoso da BT sobre o inseto só é desencadeado quando ela entra em contato com o intestino do inseto, o qual possui um PH alcalino.

 

No caso do organismo humano, que possui um PH mais ácido, nenhuma reação é suscitada. No caso do experimento relatado no artigo em Scientific Reports, Polanczyk explica que o material é centrifugado por três vezes, a fim de se assegurar que se possa descartar subprodutos metabólitos e trabalhar apenas com as células onde estão as proteínas críticas.

 

Também vale destacar que os biodefensivos comerciais passam por um processo de registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, nos mesmos moldes exigidos para os produtos químicos, onde as condições de segurança são questionadas. Isso inclusive implica em demora no processo de aprovação de novos produtos. “Não se pode dizer que o risco de efeitos ambientais seja inexistente, mas é bem reduzido. Até hoje, não foram observados”, diz Polanczyk.

Manejo integrado


Mesmo com o cenário positivo para os biopesticidas, e a tendência de aumento no seu uso, ainda não é possível ainda abandonar completamente o uso dos defensivos tradicionais. O que os especialistas recomendam é o que se chama de Manejo Integrado de Pragas (MIP), um conceito que combina diferentes estratégias que incluem o uso de produtos químicos, mas também a aplicação de boas práticas agronômicas, o uso de variedades de plantas resistentes, o emprego de biodefensivos e outras medidas.

 

“No caso de um surto de pragas na lavoura, por exemplo, pode ser preciso uma estratégia de choque para evitar a perda da produção. Este é um caso em que a aplicação de um pesticida tradicional é recomendada, mas obedecendo-se a orientação quanto à dosagem ou frequência fornecida pelo fabricante”, afirma Polanczyk.

Conforme cresce o interesse pelo controle biológico e o mercado se aquece, as pesquisas atacam problemas que devem surgir em um futuro próximo. Em Jaboticabal, a equipe do professor Polanczyk trabalha com pesquisadores escoceses da Universidade de Stirling em um projeto financiado pela Fapesp que estuda formas de minimizar a resistência de pragas aos bioinseticidas. “Essa resistência é menor no controle biológico, mas ela ocorre. E nós estamos nos preparando para isso”, diz.

 

 

Fonte: Marcos do Amaral Jorge para Jornal da Unesp em 16-12-2021

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