Animais vivem a campo e passam a receber cereais, no cocho, para terminação
BETH MELO
Nos últimos anos, algumas expressões entraram no dia-a-dia do pecuarista brasileiro que teve de se familizar não apenas com novas palavras, mas, principalmente, adotar um jeito diferente de produzir gado para atender as exigências do mercado internacional. Dentro dessa nova ordem, surgiram os conceitos de boi natural, boi verde e boi orgânico. "Não importa a raça nem o grau de sangue - pode ser zebuíno, taurino ou cruzamentos de raças -, o que vale é o conceito", observa um dos diretores do Sindicato Rural de Uberlândia, o pecuarista Carlos Augusto Ribeiro Franco, que defende o boi verde, o boi produzido à base de capim.
Boa genética, bom manejo, mineralização e tratos sanitários
- vermifugação, vacinas e controle de parasitas - completam os
requisitos, conforme explica o criador. "Esse conjunto de fatores vai caracterizar
um novo padrão de boi, para atender o mercado externo, que busca produtos
mais naturais", comenta. O boi verde pode ser um novilho superprecoce,
abatido entre 13 e 16 meses, pode ser um novilho precoce, pronto para ao abate
com 17 a 21 meses, ou um boi mais erado.
Segundo o pecuarista, que é dono das fazendas Água Limpa, em Uberlândia
(MG), e Jussara, em Vila Rica (MT), e participa do Programa Boi Verde, o produtor
do boi verde não usa ração. O rebanho, explica, é
alimentado com pastagens da região, em geral braquiárias e panicuns,
de acordo com a realidade de cada fazenda e com as condições do
solo. Apenas quando está próximo do abate, o gado recebe alimentação
no cocho à base de grãos ou silagem com caroço de cereais
ou farelo de soja como fontes de proteína. "Essa alimentação
dá ao boi a capa de gordura ideal, ajuda conservar a
carne, dando-lhe maciez."
O criador afirma que a maioria das propriedades brasileiras de corte se baseia nesse modelo de criação. "Nossos avós já criavam um boi desse tipo, porém, eles só conseguiam abater animais de 18 arrobas com 36 a 42 meses de idade; hoje, alcançamos esse peso com 24 meses, em média." Franco, porém, diz que não tem idéia do tamanho do rebanho criado nessas condições. "A grande maioria utiliza esse sistema, que pode e precisa ser melhorado, e é essa a proposta do boi verde: estabelecer um padrão."
Rastreabilidade - Desde segunda-feira, apenas carne bovina rastreada e com certificação de origem pode ser embarcada para a União Européia, um mercado que absorve 50% das exportações brasileiras de carne bovina in natura. O tema rastreabilidade e outros assuntos de interesse do setor, foram discutidos no 4.º Encontro do Boi Verde, em Uberlândia, de 29 a 31 de agosto. O evento, que, reuniu 800 criadores de 18 estados brasileiros, foi promovido pelo Sindicato Rural de Uberlândia, a Embrapa Gado de Corte e Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC).
Segundo Franco, que foi o coordenador do evento, rastreabilidade foi um dos
principais assuntos da pauta de discussões. "Comparamos a rastreabilidade
proposta pelo governo com o sistema no qual acreditamos que seja o modelo ideal",
conta.
O tema foi apresentado pelo secretário da Defesa Sanitária do
Ministério de
Agricultura e Pecuária (Mapa), Luis Carlos Martins, que deu a visão
do
governo, e pelo selecionador de nelore, Nelson Piñeda, da Fazenda Paredão,
em Oriente (SP), na região de Marília. "Ele deu a visão
do produtor e o
presidente da Federação da Agricultura de Minas Gerais, Gilma
Viana
Rodrigues, fechou o tema", diz Franco.
"Sabemos da necessidade de implantar o sistema de rastreabilidade, por
isso discutimos questões ligadas ao tempo e à velocidade. Queremos
saber quem vai pagar essa conta", questiona. "Ao que tudo indica,
vai sobrar para os produtores e isso custa caro. Estamos num momento de baixa
remumeração na pecuária de corte e qualquer custo adicional
vem onerar ainda mais o custo de produção", reclama.
Bola da vez - Na quarta edição do Encontro do Boi Verde, os produtores
começaram a discutir um tema novo, o bem-estar do animal e a preservação
do ambiente. "É a bola da vez", acredita Franco. Hoje, prossegue,
a preocupação é com identificação, o RG do
boi. Ele diz que daqui em diante as discussões tomarão outro rumo,
frente às exigências dos mercados consumidores, principalmente
o europeu, que se preocupam com o jeito de criar os animais. "O País
tem todas as condições naturais de produzir o boi verde, ecologicamente
correto, tão almejado pelo mercado externo."
Franco diz que o Programa do Boi Verde tem chamado a atenção dos
pecuaristas para a preservação ambiental. "Sabemos que é
preciso criar o boi sem agredir a natureza. É a pecuária sustentável,
que prega a sintonia entre a produção e o meio ambiente",
explica.
Integração - O pecuarista baiano Almor Antoniolli, da Fazenda
Prata Nova, Correntina (BA), região de Barreira, apresentou no Encontro
do Boi Verde a sua experiência com integração lavoura pecuária.
"O que me trouxe ao evento foi a possibilidade de mostrar os resultados
da integração lavoura pecuária, fazendo terminação
de animais no cocho utilizando resíduos de lavoura da pré-limpeza
de soja e milho e silagem de milho", informa. "Todo o gado é
criado a pasto, com suplementação apenas para abate."
Antoniolli é dono de um rebanho de 7 mil cabeças, sendo as fêmeas
1.000 nelore, 400 devon PO e 1.600 cruzadas (bravon),"Cerca de 60% dos
cruzados devon com nelore, os bravon atingem 12,5 arrobas entre 11 e 12 meses
e vão
para o abate", conta. Os 40% que não alcançam o padrão
são reinvernados (vão para o pasto no inverno) e, depois, vão
para confinamento, durante 90 dias, para terminação, chegando
a 15 a 16,5 arrobas aos 22 meses. Outra vantagem
do sistema usado por Antoniolli é a precocidade sexual das fêmeas
cruzadas. Elas entram em reprodução entre 12 e 13 meses, parindo
antes de dois anos. E mais: o índice de prenhez do rebanho fica entre
86% e 87%. "No caso das primíperas, o índice é de
90%."
"O diferencial do meu rebanho é a idade de abate e de reprodução",
admite o criador, que adotou esse manejo há oito anos.
"Durante três anos, planto soja e milho e nos três anos seguintes
pasto", explica. Para isso, ele utiliza os capins tanzânia, tofton
e coast cross, que são fertilizadas via lavoura. "As áreas
bem fertilizadas me possibilitam lotação bem acima da média",
diz.
fonte: Jornal o O estado de São Paulo de 04/09/02
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