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Soluções baseadas em natureza podem representar 37% no combate às mudanças climáticas


E esta é uma boa notícia para a segurança hídrica. Atualmente, mais de 3,6 bilhões de pessoas no mundo sofrem com problemas de escassez de água


 

Embora tenha tido poucos resultados concretos para o enfrentamento dos riscos hídricos crescentes mundo afora, a temática da água foi um dos assuntos mais discutidos durante o ano, incluindo na 26ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP 26), que ocorreu entre os meses de outubro e novembro na cidade de Glasgow, na Escócia. Afinal, mais de 3,6 bilhões de pessoas no mundo já sofrem com os problemas da escassez da água.

 

Os impactos humanos, como as mudanças no uso do solo e uso insustentável da água, estão degradando o ecossistema e as funções de captação de água, levando a uma capacidade reduzida de sequestrar carbono, reter água, manter a biodiversidade e cursos d’água saudáveis, promover o bem-estar social e sustentar a produtividade agrícola e outras atividades econômicas. E as mudanças climáticas estão exacerbando esses impactos, alterando os regimes hidrológicos e aumentando a recorrência e a gravidade dos desastres naturais.

 

Esses efeitos impactarão tanto a oferta quanto a demanda de água pelo aumento da frequência e da magnitude de eventos extremos, como ondas de calor, secas intensas, chuvas e tempestades sem precedentes, furacões e ciclones. Um exemplo foi o ocorrido no sul da Bahia há algumas semanas, em que choveu cerca de 500 milímetros em apenas 4 dias. A previsão elaborada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) para o sul da Bahia indicava para o período de 08 à 25 de novembro uma precipitação entre 80 e 150 milímetros. Segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) historicamente as chuvas mais volumosas ocorrem no mês de janeiro e ficam em torno dos 200 milímetros.

 

Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (IPCC) quantificaram na apresentação do seu último relatório análises com modelos mais precisos, em que se atribuiu o grau de influência das mudanças climáticas nesses eventos extremos. Apresentaram, inclusive, uma estimativa de quantas vezes esses eventos devem ficar mais frequentes e mais intensos à medida que o aquecimento global aumenta: eles podem se tornar 39 vezes mais frequentes em cenários extremos de crise climática.

 

O Professor Paulo Artaxo, físico da USP e membro do IPCC, aponta que variações extremas de temperatura que ocorriam uma vez por década podem ocorrer agora até 3 vezes no mesmo período. E podem se tornar anuais em um cenário de aquecimento global em torno de 4°C.

 

Neste contexto, a água é um dos principais meios de expressão pela qual as mudanças climáticas influenciam os ecossistemas, o sustento e o bem-estar das sociedades.


Com a alteração dos regimes hidrológicos haverá consequências na quantidade e na qualidade da água disponível para o meio ambiente e para as diferentes necessidades humanas. Num cenário de aumento na intensidade das chuvas em bacias hidrográficas degradadas, por exemplo, haverá um maior pico de inundação com maior escoamento superficial e menor infiltração de água para a recarga dos aquíferos.

 

Já nos períodos de longa estiagem, a recarga dos aquíferos poderá ser afetada, impactando as vazões mínimas dos rios e os usos múltiplos da água para consumo humano, para a produção agropecuária, a produção de energia e industrial, navegação, entre outros. É o que se observa em áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil nesse exato momento com uma seca severa, com usinas hidrelétricas (UHEs) do Sistema Interligado Nacional (SIN) com cerca de 23% de capacidade em 22 de dezembro.

 

Não é nada animador lidar com essa verdade inconveniente, mas precisamos lidar com ela. Para reverter esse cenário complexo e desafiador teremos que agir rápido, em escala e ainda superar a lentidão e a vontade no mundo político. Existem diversos caminhos e mecanismos para isso. Entre eles estão os instrumentos financeiros, que permitem aos países combater e se adaptar às mudanças climáticas ao mesmo tempo em que geram oportunidades de emprego, equidade social, justiça climática e desenvolvimento econômico. Aliados às técnicas que já estão promovendo a transição para uma economia de baixo carbono, como, por exemplo, as fontes de energia renovável eólica e solar.

 

Não podemos, entretanto, renunciar às soluções baseadas em natureza (SbN). Estudos liderados por Bronson mostram que as SbN podem fornecer 37% da resposta no combate às mudanças climáticas para manter o aquecimento abaixo de 2°C. No caso brasileiro é preciso ressaltar que a maioria das nossas emissões de gases de efeito estufa vêm do desmatamento e da produção agropecuária, seguido da poluição energética com base no petróleo.

 

Além disso, as SbN oferecem um mecanismo para melhorar os ecossistemas degradados, incluindo os sistemas de água doce, levando à melhoria da qualidade e quantidade da água, sequestro de carbono e biodiversidade, entre muitos outros benefícios. As SbN também podem ser usadas para gerenciar inundações, secas e eventos climáticos extremos de maneiras mais flexíveis e resilientes do que muitas soluções da engenharia tradicional.

 

Atualmente, a definição de SbN mais amplamente aceita e utilizada é a descrita pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) como “ações para proteger, gerenciar de forma sustentável e restaurar ecossistemas naturais ou modificados, que abordem os desafios sociais de forma eficaz e adaptativa, proporcionando simultaneamente benefícios ao bem-estar humano e à biodiversidade”

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As medidas de SbN podem, e devem, ser incorporadas ao gerenciamento dos recursos hídricos, que bem conduzidos afetarão positivamente toda a sociedade e praticamente quase todos os setores da economia. A gestão sustentável da água tem, assim, um papel essencial em preparar as habilidades da sociedade para o enfrentamento às mudanças climáticas e aos riscos hídricos. Isso acontece à medida em que compreendemos e promovemos a recuperação da saúde e da resiliência das bacias hidrográficas, mantendo e recuperando suas funções ecológicas prioritárias, de forma a proporcionar os benefícios mencionados na descrição da IUCN, além do desenvolvimento econômico.

 

O Brasil ainda tem uma boa Lei das Águas, a Lei 9.433 de 1997, que precisa ser compreendida e defendida pela sociedade brasileira. Ela traz fundamentos e princípios importantes, como a água sendo um bem de domínio público, o que significa que ela não pode ser privatizada. Cria os Comitês de Bacias Hidrográficas, que é uma forma participativa, integrada e descentralizada que reúne governos, usuários de água e sociedade civil organizada para a gestão coletiva da água. Traz importantes e inovadores instrumentos de gestão, como os Planos de Bacia, a Outorga, o Enquadramento dos Corpos d’Água (que define as classes de água dos rios), a Cobrança pelo Uso da Água, entre outros. Este é um direito que não pode ser perdido, ainda mais em tempos de mudanças climáticas.

 

* Samuel Barrêto é ambientalista e gerente nacional de Água da TNC Brasil, integra a Aliança Latino-americana de Fundos de Água, a Seção Brasil do Fórum Mundial de Água, é membro do Comitê Gestor do Observatório de Governança das Águas (OGA) e do Grupo de Trabalho de Água da Rede Brasileira do Pacto Global da ONU.

 

Fonte:Um Só Planeta em 27/12/2021

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