S.O.S. SÃO FRANCISCO*

Velho Chico, hoje quase um lamento

A partir deste domingo, o Jornal do Commercio passa a publicar, por oito dias. uma série de reportagens sobre o Vale do São Francisco, região onde vivem 14 milhões de habitantes. Com textos do repórter especial Jamildo Melo e fotos de Hans V. Manteuffel, as matérias tratarão do uso múltiplo das águas rio para energia, abastecimento e irrigação, objeto de polêmica entre os Estados da Bahia e Minas Gerais, contrários ao projeto, e Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, favoráveis à iniciativa. Além do projeto de transposição das águas, discutido desde o tempo do Império, a série vai retratar o País do São Francisco, sob aspectos econômicos e sociais. Os artigos apresentarão a penúria das comunidades ribeirinhas, em contraste com o sucesso dos projetos de irrigação, a questão da pesca e meio ambiente, além do dilema do setor elétrico, espremido entre a decisão de continuar produzindo energia barata ou abrir mão da água para o abastecimento humano, partindo para fontes mais caras de produção.

Diz a lenda que o São Francisco nasceu das lágrimas derramadas pela índia Irati. Com saudade do bravo companheiro que foi lutar pela posse da terra contra o homem branco e não voltou mais, Irati sentou em um pedra e chorou dias. De tão grande, sua tristeza deu origem ao Opará, que significa rio-mar, na linguagem indígena.

Passados 499 anos do descobrimento do rio pelo navegador italiano Américo Vespúcio, o São Francisco nunca se pareceu tanto com um lamento. O Velho Chico, apesar de continuar belo, jamais esteve tão maltratado. Mesmo assim, continua fertilizando terras de cinco Estados, dando de beber aos barranqueiros, povoando de sonhos e lendas dos lugares por onde passa, encantando seus navegantes.
Nas últimas décadas, o São Francisco já perdeu três dos 16 afluentes perenes. Os rios Verde Grande, Salitre e Ipanema tornaram-se temporários, reduzindo o volume de água disponível para navegação, irrigação, pesca e geração de energia. Os três rios deixaram de ser permanentes por causa da ação devastadora de siderúrgicas de Minas Gerais e mineradoras baianas – que utilizavam a mata ciliar na produção de carvão. Além disso, há a poluição provocada pelas cidades. A metrópole de Belo Horizonte, por exemplo, situada na bacia do São Francisco, castiga o principal afluente do Velho Chico, o Rio das Velhas, com o lançamento de esgotos de uma população superior a 4 milhões de habitantes.
“O Rio São Francisco permanece descurado e está entregue a própria sorte. O abandono é nele todo”, reclama José Theodomiro, presidente do Comitê Executivo de Estudos Integrados da Bacia Hidrográfica do São Francisco e respeitado como a maior autoridade nas questões do rio. “Só se vê discurso e mais discurso. Ninguém trata de preservar o rio”, acrescenta.
Atualmente, depois dos estragos causados pela exploração de ouro e diamante no quadrilátero ferrífero mineiro no passado recente, a principal ameaça ao futuro do São Francisco vem da atividade agrícola, com o avanço das plantações de soja e café nos cerrados baianos. “A devastação de grandes áreas para as plantações podem ter um efeito nefasto nesta área porque é na margem esquerda que estão situados os principais afluentes do São Francisco”, explica o pesquisador. “A fatura pode não ser imediata, mas a gente paga pela burrice e hoje estamos usando a inteligência para fazer besteira”, diz José Theodomiro.
LARGO E RASO - Por conta desta secular imprevidência, o leito do rio está a cada ano mais assoreado e poluído, de acordo com o relato geral dos próprios moradores das comunidades ribeirinhas e pescadores. Só no lago de Sobradinho, por exemplo, o rio despeja 18 milhões de toneladas de areia, numa quantidade de sedimento que corresponde a uma área de 10 mil hectares. Não é por outro motivo que se verificam tantas reclamações dos pescadores. A atividade pesqueira também vem decaindo.
A exemplo do rio, as populações que moram em suas margens também estão entregues à própria sorte. A pobreza de cinco séculos foi amenizada com os projetos de irrigação, mas a miséria continua lá, especialmente quando o rio atravessa as regiões mais tórridas que se debruçam sobre as suas margens. A origem do problema é conhecida há muito tempo. Depois do ciclo do ouro, a região do vale voltou ao abandono dos tempos primitivos.
O historiador Theodoro Souza explicava, já no ano de 1906, que a administração central pouco se interessou por uma melhor organização e assistência às populações sertanejas, excetuando-se o período das minas. O Governo não tinha como encontrar remuneração possível para seus interesses na pobreza da região. “Só houve a coibição de abusos e o amortecimento da ação dos poderes dos chefes regionais no curto período da mineração, porque eles embaraçavam de algum modo a máquina tributária”, escreveu o historiador.
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Rio sofre agressões logo após suas nascentes

O primeiro sinal de desleixo com o Rio São Francisco é a situação de abandono do Rio das Velhas, o maior afluente em extensão do Velho Chico, com 761 quilômetros. O rio corta a Região Metropolitana de Belo Horizonte, atravessa 51 municípios e encontra-se hoje completamente degradado, depois de receber por anos a fio o lançamento de esgotos de uma população estimada atualmente em cerca de 4 milhões de habitantes.

A poluição urbana é a grande vilã, mas quem sofre com a poluição são as comunidades ribeirinhas. A lavadeira Elizângela Ubaldo, de 26 anos, moradora da cidade de Sabará (a 30 quilômetros de Belo Horizonte), conta que o rio já foi tão limpo que era possível lavar roupa nele. “Hoje a gente tem que usar água da torneira. O mau cheiro é grande”, reclama.

O desempregado Gilberto Vicente, de 38 anos, lembra que a mãe, em meados da década de 60, pegava peixe no Rio Arrudas, principal afluente do Rio das Velhas. “Hoje, o peixe desapareceu do rio. Não há como pescar nada neste ribeirão depois da quantidade de lixo que desce da cidade de Belo Horizonte”, reclama.

A reportagem do JC constatou a procissão de imundícies no Rio Arrudas, na altura da cidade de Sabará. Em General Carneiro, na confluência do Arrudas com o Rio das Velhas, o odor é forte e a visão mais se assemelha a uma lixeira a céu aberto, com montanhas de garrafas plásticas.

MONITORAMENTO – As autoridades públicas mineiras reconhecem os problemas e estão tentando mudar a realidade. A engenheira química Ana Luíza Mazzini, técnica da Federação Estadual de Meio Ambiente (Feam), entidade responsável pelo monitoramento do rio desde o começo dos anos 90, explica que o principal fator de degradação é o lançamento de esgoto sanitário in natura, mas o lançamento de efluentes industriais e de minerações nas cabeceiras do rio agrava a situação.

O problema é que a bacia do Rio das Velhas fica na área central de Minas, onde se encontra um dos maiores distritos minerais do continente, conhecido como Quadrilátero Ferrífero. O resultado de tanto descaso é a presença de quase todo tipo de metal pesado na água, como arsênio (mineração de ouro), zinco (indústrias metalúrgicas) e cromo (rejeitos de curtume).
O órgão estadual de Meio Ambiente mineiro espera que haja uma reversão da situação. Com investimentos de cerca de R$ 90 milhões, em outubro próximo a companhia de água de Minas Gerais inaugura uma Estação de Tratamento do Arrudas, em Sabará, estando programada uma segunda estação de tratamento na bacia do Ribeirão Onça, outro importante afluente do Rio das Velhas.
Não será uma tarefa fácil. A sujeira é tanta que, na barra do Rio das Velhas, depois da cidade de Pirapora, a água ainda está turva.
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NAVEGAÇÃO - A situação nem sempre foi caótica assim. O Rio das Velhas já foi até navegável, transportando cargas e passageiros até o Rio São Francisco. Antes que o mau uso da terra provocasse erosão e assoreamento ao longo de todo o curso d’água, o Rio das Velhas desempenhou um importante papel para a economia e o desenvolvimento da antiga Província de Minas, criada no ano de 1720.
De acordo com os documentos históricos do Museu do Ouro, de Sabará, no pequeno vilarejo de André Gomes, a poucos quilômetros da cidade histórica mineira, Henrique Dumont, pai do aviador Alberto Santos Dumont, chegou a construir embarcações movidas a vapor.
O navio a vapor fabricado por Dumont ficou pronto em 1869 e foi batizado de Conselheiro Saldanha, em homenagem ao governador da Província da época, Joaquim de Saldanha Marinho. Os navios transportavam madeira e pedras preciosas.
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Ao longo da História, rio foi um “Grande Caminho”

As águas do São Francisco refletem cinco séculos de nossa história. No início da colonização, o rio era visto como uma dádiva da providência para com os colonizadores. Por sua posição geográfica, o São Francisco teve uma elevada importância na história da conquista, motivo pelo qual os portugueses foram incentivando o povoamento e a navegação ao longo do seu curso. Sem a ajuda de um caminho aberto pela própria natureza, não teria sido possível o avanço luzitano, após o domínio do litoral com suas plantações de cana-de-açúcar. Nesta fase, o rio era apenas caminho de passagem.

Vencida esta etapa, o São Francisco deixou de funcionar apenas como uma estrada generosa na marcha inicial da civilização nacional. Ao contrário do Rio Amazonas, conhecido e pesquisado pela curiosidade despertada, o Rio São Francisco se impôs pelos serviços prestados à conquista das terras desconhecidas do Brasil. Era normal dele se servirem, nas suas viagens, os desbravadores do interior. Os bandeirantes de São Paulo e Bahia nada poderiam ter realizado se o rio não tivesse garantindo o permanente reabastecimento de água.

CAPRICHO – O título de rio da unidade nacional é justificado em função da forma caprichosa de seu curso, que serviu como uma estrada natural entre o litoral do Sul e do Norte pelo interior do País. Os primeiros colonizadores subiram o rio em busca de índios para o cativeiro. Depois, as imensas pastagens do sertão deram espaço à formação de currais. Ao redor, nasceram diversos povoados. Mais tarde, quando correram no sertão notícias da descoberta de metais preciosos nas regiões das nascentes, houve então o encontro dos homens dos currais com os homens das minas.

O rio ajudou assim enormemente no ciclo do ouro, logo depois que, após dois séculos de procura ávida e infrutífera, a cobiça lusitana descobriu os veios auríferos e as lavras de diamantes na região de Minas. A empreitada teria fracassado se não fossem os currais do São Francisco.

Com os currais espalhados nas margens do rio, havia uma população bovina suficientemente grande para alimentar a multidão fascinada pelo ouro, que teria morrido à mingua. O gado acumulado, durante mais de um século, nas fazendas da Bahia, Pernambuco e Piauí, socorreu a massa humana que se deslocou para as minas. Nesta fase, o São Francisco desempenhou a função de condensador de populações.

Passado o período do ouro, o interior voltou ao abandono dos tempos primitivos, com o declínio das atividades de pastoreio. Voltou-se então ao domínio da monocultura da cana em Pernambuco e na Bahia. Com o fim do ciclo do ouro, o rio transformou-se em drenador de populações, arrastando gente miserável e pobre em busca das regiões cafeeiras, numa corrente migratória interior, no sentido Norte-Sul.

Sob este contexto é que os historiadores são unânimes em afirmar que o Brasil jamais teria se formado com a extensão atual se não encontrasse o grande caminho. Um título que não se justifica mais nos dias de hoje.

Margens abrigam quilombos e aldeias

Foram 27 dias de viagem, visitando 17 cidades ribeirinhas. A aventura rio abaixo, desde a nascente na Serra da Canastra, somou 8 mil quilômetros de chão, muitos trechos em estradas de barro que consumiram muita paciência. Entre Minas e Bahia, o carro do Jornal do Commercio foi resgatado do areial com a ajuda de um trator. No caminho, cruzamos com uma equipe do jornal O Povo, do Ceará, e outra de uma TV alemã. Com calor sufocante, invariavelmente, fomos obrigados a trabalhar de bermuda. Consumimos meio oceano de água mineral e rios de protetor solar. Nas refeições, nos empanzinamos de surubim e bode. A outra opção era bode e surubim. Em Penedo, no final do percurso, o rio,

apesar de perigoso, não metia mais medo. O viajante conclui a jornada entendendo que o São Francisco é fonte de vida para quem mora às suas margens. Já para quem navegou por suas águas, deixa uma saudade de morrer.

As terras onde o futuro não chega

Nesta segunda reportagem sobre o São Francisco, o retrato das comunidades ribeirinhas. Amanhã, o tema será a pesca, atividade em declínio. A série continua até domingo (3)

por Jamildo Melo

O País do São Francisco, com seus 640 quilômetros quadrados de extensão e 504 municípios, é um lugar cheio de contradições. Em alguns pontos tomados isoladamente há um quadro de pleno desenvolvimento, mas o vale ainda é uma região de baixo poder aquisitivo. Ao contrário do que apregoa o bordão em torno do rio, na maioria das cidades as populações do São Francisco, de tão abandonadas, parecem esquecidas da comunhão nacional.

“A vida aqui é um trumento (tormento), filho da mãe de Deus”, explica dona Maria de Lourdes dos Santos, de 60 anos de idade, 50 dos quais ganhos fazendo redes na cidade de Caraibeiras, no Baixo São Francisco, entre Alagoas e Pernambuco.

Na cidade, todo mundo ganha a vida tecendo redes, inclusive homens e crianças, que ganham 1 real para fixar as franjas na fase de acabamento. Às sextas, dia de feira, a roda da economia gira, mas com muito custo. “Peço até R$ 10,00 por uma rede. Não paga nem o fio no armazém e o cliente ainda não quer. Só adulando muito para fazer uma arrumação e poder comprar fiado de novo”, conta dona Lourdes.

A exemplo do povo que mora em Caraibeiras, não são raras as populações que vivem praticamente alheias às leis econômicas, produzindo apenas o suficiente para viver. O aspecto de pobreza e de atraso é extremo. A maioria das pessoas não tem trabalho permanente. A impressão mais forte que se tem é de que todos estão perdidos em um local onde não chegaram os avanços do progresso.

PELA COMIDA – Em Curaçá, a 90 quilômetros de Juazeiro (BA), nas proximidades das agrovilas formadas pelos assentamentos de Itaparica, muitos sertanejos enchem a barriga participando das Rodas de São Gonçalo. Nestas manifestações religiosas, são realizadas danças o dia todo, embaixo de sol a pino, em um ato de agradecimento ao santo por uma graça recebida. No final, um banquete é servido aos participantes. Um bode ou uma buchada alimentam os convidados, que chegam de todas as partes.

No dia 11 de agosto último, por exemplo, a sertaneja Joselita Gonçalves dos Santos deslocava-se de jeque pela caatinga, com o filho mais novo no colo, para participar de uma roda. “Vim para dançar porque gosto de roda. Aqui, um ajuda o outro a pagar promessa”, diz a senhora, meio envergonhada. O biólogo Daniel Rosar, há um ano trabalhando na região, esclarece que as pessoas chegam de longe para comer. “O dono da roda custeia a farra”, conta Rosar.

A dura realidade desses locais mostra que os perímetros de irrigação alimentam uma ilusão de progresso e um tênue verniz de civilização nestes sertões. “Os projetos de irrigação de Juazeiro e Petrolina são outdoors do São Francisco, escondendo os bolsões de pobreza”, acentua José Theodomiro, presidente do comitê executivo de estudos integrados da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Quando o rio atravessa a região mais tórrida, nos largos trechos do semi-árido que se debruça sobre as suas margens, é que a situação de vida das pessoas fica mais crítica. Após as cidades de Juazeiro e Petrolina, a ausência do Estado se multiplica e se faz mais visível com o avanço das plantações de maconha. Sem uma forte ação do Governo, por meio da agricultura irrigada, a região dificilmente estará livre de um destino ilegal.

O dinheiro que a Chesf paga pelo uso dos recursos hídricos, cerca de R$ 160 milhões por ano, também poderia ajudar a mudar a realidade, mas não gera desenvolvimento nas cidades, como seria o esperado, com raras exceções. A Cidade de Canindé do São Francisco, por exemplo, apesar de estar às margens da usina de Xingó, é um atraso só. Com 15 mil habitantes, Canindé deveria ser rica, com a arrecadação mensal de cerca de R$ 2,8 milhões por conta do repasse de verbas da Chesf. A realidade é outra. Na cidade, mais da metade da população depende do alistamento nas frentes de trabalho, com remuneração de R$ 56,00. O prefeito ganha R$ 18 mil, duas vezes o salário do prefeito da vizinha Paulo Afonso, que ganha um salário de R$ 9,9 mil. Não há sequer escolas decentes. Os alunos de três séries têm aulas ao mesmo tempo, em escolas de pau-a-pique.

Em Piassabuçu, nas proximidade da foz do rio, a localidade chama a atenção pela beleza das águas. Naquele lugar, as pessoas já estão acostumadas com uma vida de dificuldades e não reclamam. Na comunidade de pescadores do Mandim, a vida é uma toada só e o rio é tudo na vida destas pessoas. Os homens saem para pescar, enquanto as mulheres ficam lavando roupa na beira do rio. “O São Francisco é importante porque nos dá água para beber, tomar banho, trabalhar e quando as crianças estão com fome basta jogar uma tarrafa para apanhar a comida”, explica a lavadeira Regina Silva.

No Baixo São Francisco, em plena zona da mata, onde as chuvas abundantes deveriam tornar a vida menos dura, a região continua pobre e pouco desenvolvida. A poucos quilômetros de lá, o mar. O rio termina. A miséria, não. A cidade de Brejo Grande, em Sergipe, é igualmente pobre. Quando não é a seca, são os governos municipais que castigam os municípios ribeirinhos do São Francisco.

A dura vida de índios e descendentes de negros

O escritor paraibano Ariano Suassuna costuma dizer que o Brasil, para não se esquecer de suas origens, precisaria de tempos em tempos voltar ao caminho do São Francisco. De fato, o fundo do Vale do São Francisco guarda quilombos e aldeias indígenas, mas o que se assiste hoje é o fim de métodos de agricultura e pecuária usados nos primeiros tempos do descobrimento. Nas aldeias dos Xacriabás, na região de Manga, no norte de Minas Gerais, não é raro os índios comprarem arroz, feijão, óleo e roupas na localidade de Rancharia, distrito de Missões. Situadas numa área alta, as 22 aldeias dependem de um bom regime de chuvas e matam a sede com poços artesianos, já que a barragem mais próxima

fica a 11 quilômetros, na cidade de Itacarambi.

Cerca de 80 Xacriabás – descendentes dos Xavantes – trabalham, com carteira assinada, ou “fichados”, como se diz na região, nas lavouras de cebola, abóbora, feijão e milho da empresa Agropasa, em troca de uma diária de R$ 5,50. “É preciso arrumar cascaio (dinheiro) para viver”, explica o cacique Rodrigão, que arruma cascaio dividindo o comando da aldeia com a função de vice-prefeito de Missões, quando assina o nome de Manoel Gomes de Oliveira.

No quilombo da Bandeira, antes da cidade de romeiros de Bom Jesus da Lapa, moram os descendentes dos escravos. A vida é igualmente rigorosa, embora eles tirem proveito de viver às margens do rio, plantando milho, feijão e mandioca, além de manter criação de gado. A comunidade, onde vivem cerca de 800 pessoas, existe há 300 anos e somente no ano passado chegou luz elétrica. Há escolas, quatro casas de farinha, mas não há telefone. A diversão hoje são as 20 primeiras televisões do lugar. “Pobre é bicho teimoso, doutor. Vai vivendo para não morrer”, conta Paulo Barbosa Santos, de 79 anos.

Portos naturais deram origem às cidades

A primeira certeza que o viajante tem ao descer o São Francisco é que a geografia urbana respeita o leito do rio. As cidades vão-se formando nos portos naturais, devido à facilidade de abastecimento fluvial anterior à criação das rodovias, no passado recente. A segunda impressão que fica é que as cidades às margens do São Francisco, em sua maioria, são o retrato de um futuro que não se confirmou, especialmente por conta do esgotamento do período das minas.

Em várias cidades, as construções e os edifícios públicos revelam que o lugar teve um nascimento rico e promissor, especialmente no tempo em que as lavras auríferas do leito do rio trouxeram o progresso para aquelas bandas. Com raras exceções, a prosperidade de outrora ficou apenas no casario. A cidade de Barra, no oeste da Bahia, já foi uma rica e famosa, tirando proveito de situar-se na confluência do São Francisco com o afluente Rio Grande e ser um entreposto natural de comercio com o Sul do Piauí e o oriente de Goiás.

Perto da foz, a cidade alagoana de Piranhas, nas imediações da usina de Xingó, é um exemplo de município que nasceu e se desenvolveu graças ao rio e à rede ferroviária. As duas vias de comunicação garantiram a formação econômica e social do município, até que a criação das rodovias minou a função de entreposto de mercadorias e abastecimento para as circunvizinhanças. Na metade deste século, com a expansão das rodovias pelo sertão, o trem que ligava Penedo a Piranhas acabou sendo desativado, prejudicando sobremaneira a economia local.

CANGAÇO – Piranhas é conhecida nacionalmente por conta do cangaço. Nas proximidades da cidade, na localidade de Angicos, no final dos anos 30, o bando de Lampião foi finalmente trucidado, com a exposição das cabeças e objetos de uso pessoal do bando à curiosidade pública.

A cidade de Penedo, já quase na foz do rio, é o berço da colonização do São Francisco. A cidade foi a primeira vila organizada pelos portugueses, no esforço de ocupação de nossa terra. O povoamento começou, em 1545, pelas mãos do primeiro donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, com a ajuda de índios aculturados e famílias que vieram de Portugal.

Em 1637, um ano após o povoado ter sido elevado à categoria de vila, o local foi invadida pelos holandeses, sob o comando de Maurício de Nassau. Nesta época, o São Francisco serviu ao propósito militar de demarcação dos domínios dos holandeses. Oito anos após a invasão, entretanto, os holandeses foram expulsos, em meio à briga pelo controle da produção de açúcar. A economia local, a exemplo de Pernambuco, ainda hoje continua dependente da cana-de-açúcar. As usinas Marituba e Paísa, instaladas ali, respondem pela produção de açúcar e álcool do município, que também já se destacou pela produção de arroz.

Bom Jesus é o senhor de todos os milagres

Uma peculiaridade das cidades ribeirinhas é a religiosidade do seu povo. Os sociólogos já afirmaram que as manifestações religiosas nas águas do Velho Chico são uma forma de atenuar os momentos de angústia e desolação causados pelas cheias. A criação das usinas hidrelétricas acabou com as enchentes. A fé continua. Cada vez mais forte.

Bom Jesus da Lapa é onde moram todos os milagres. A cidade é o maior símbolo de uma devoção que se confunde com capricho de sertanejo. Para rezar aos pés do Bom Jesus, o romeiro não pode chegar lá no bem-bom, de carro, ônibus ou besta. Só vale se for a pé ou em pau-de-arara. Quanto mais longe, melhor.

“A gente vem um dia só e fica abençoado o ano inteiro”, explica a romeira Maria de Lourdes, com 72 anos e enfrentando a 42ª passagem pela gruta considerada milagrosa. “O Bom Jesus nos dá saúde e felicidade, seu moço”, acrescenta, ao lado da filha, com 30 anos e cega.

No mês passado, durante a festa que se realiza há 310 anos, Romilda Souza, de 23 anos, levava o sobrinho, de um ano, para pagar a promessa de batizá-lo na gruta, depois de ter pedido por sua saúde. O garotinho nasceu com os testículos inchados. Para não faltar com sua palavra, Romilda percorreu mais de 400 quilômetros, desde Vitória da Conquista.

Quem não vem agradecer, vem pedir alguma ajuda divina. Uma mãe aflita, agarrada ao filho, pede a imagem do Bom Jesus que tire a ‘malineza’ (maldade) do garoto.

Entre uma missa e outra, os romeiros pedem de tudo. O aposentado pede desbloqueio de aposentadoria. A mulher pede que o marido deixe de beber. Há os que suplicam perdão para segredos não confessados, mas todos cantam “Senhor Bom Jesus da Lapa é senhor de muita luz; Socorrei o povo todo, para sempre, amém, Jesus.”

Um rio que já foi “pescoso”

Os homens que tiram o sustento do leito do rio reclamam a cada dias das condições de trabalho. Eles alegam que as barragens estão reduzindo ano a ano a quantidade de peixe disponível, por conta da diminuição do volume de água no leito do rio. A Chesf sustenta que há, na verdade, um aumento da captura, para satisfazer uma demanda crescente. Em meio à polêmica, outros empreendedores estão partindo para a criação de peixes em confinamento, na borda dos lagos das represas. Amanhã, na quarta matéria da série sobre a situação do São Francisco acompanhe a questão dos impactos ambientais provocados pelo homem ao longo do rio.

por Jamildo Melo

Houve um tempo em que as únicas lamúrias que se ouviam nas águas do São Francisco eram as canções melancólicas dos remeiros. Nos dias de hoje, os pescadores repetem, numa cantilena só, da região das nascentes a foz, que o rio está secando ano a ano e com pouco peixe.

“Antes, o rio já foi pescoso (piscoso), doutor. Hoje, tem mais pescador do que peixe”, conta Norberto Silva, de 52 anos, desde os 12 anos ganhando o pão de cada dia pescando no leito do Velho Chico, na altura da cidade de Três Marias, onde na década de 60 o governo federal construiu a primeira usina para controlar a vasão do São Francisco.

A redução da quantidade de peixes é atribuída a criação dessas barragens, não apenas por pescadores e engenheiros de pesca. “As barragens acabaram com as enchentes que atormentavam as cidades ribeirinhas, mas também tiraram o peixe da alimentação das populações ribeirinhas”, observa o gerente executivo do projeto de irrigação Jaíba, Carlos Antônio Landi Pereira, no norte de Minas Gerais, quase na divisa com a Bahia.

Os vários barramentos ao longo do rio prejudicam a reprodução dos peixes na medida em que impediram que as cheias inundassem as lagoas naturais que serviam de criatórios para os peixes. Não é só. Com a vasão reduzida após a criação das barragens, muitos trechos estão assoreados, já que a força das águas não é suficiente para carregar os detritos naturais.
As barragens afetaram o ciclo natural na medida em que impediram que os peixes subissem o leito do rio para desovar, na época da reprodução, no fenômeno conhecido como piracema. Em Sobradinho, o próprio pessoal da Chesf reconhece o problema. “A obra de engenharia não previu uma escada para o peixe subir e desovar”, conta um engenheiro, escondendo-se no anonimato para se proteger de represálias.
A Chesf argumenta, em seu favor, que não existia um degrau natural em várias cachoeiras, como Paulo Afonso. No entanto, no trecho entre Paulo Afonso e Xingó, por exemplo, a criação do lago engoliu 60 quilômetros de corredeiras. Com a intervenção do homem, os peixes que subiam o rio na piracema perderam espaço para a desova. “Antes do lago, corria o rio. Agora, com a usina, existe uma barreira de 130 metros de altura que impede a reprodução. Os peixes hoje não passam de Xingó”, observa o engenheiro de pesca alagoano Fábio Castelo Branco.
A situação aflige os pescadores no Alto São Francisco e aqueles que vivem entre o mar de dunas junto a foz, no Baixo São Francisco. Embora precários, alguns números mostram a redução da atividade. No Baixo São Francisco, um levantamento realizado entre 1998 e 1999 pela Universidade de Alagoas, com apoio da Chesf, aponta uma redução de 20% na quantidade de pesca desembarcada entre Piranhas e Piassabuçú, em Alagoas. Em 98, haviam sido pescados 199,4 mil quilos de peixe. No ano seguinte, a quantidade caiu para 173,8 mil quilos, segundo a pesquisa, interrompida em março deste ano por falta de recursos financeiros.
A Chesf alega que o problema não pode ser creditado apenas às barragens, já que houve uma intensificação do esforço de pesca, com o crescimento da densidade populacional ao longo do rio. Para a estatal, o peixe está mais escasso porque está havendo mais consumo e mais captura para satisfazer a elevação da demanda.
Nas margens de Sobradinho, um dos maiores lagos do mundo em extensão, o pescador Roberto Carlos Santos, de 23 anos, faturando R$ 30 por semana com a pescaria, encherga o problema sob outra ótica. “Aqui não tá bom não. Só que eu conheço cinco pessoas deixaram de pescar aqui na beira do lago”.
Ser fazendeiro de peixes é opção mais viável
Com a queda da atividade de pesca tradicional, a criação de peixe em confinamento está ganhando espaço ao longo do São Francisco, nos últimos anos. Às margens da usina de Xingó, por exemplo, o ex-técnico em processamento de dados Fernando Geraldo de Oliveira ganha hoje a vida como fazendeiro de peixes. Nestes projetos de psicultura, os criadores compram os alevinos e engordam o peixe até a fase adulta, em tanques-redes em pleno lago das represas. “Com a pesca tradicional mesmo não dá para sobreviver. Aqui na beira do lago havia de 20 a 30 barcos de pesca e hoje não se vê mais. A saída é criar em cativeiro”, explica Fernando Oliveira.
De acordo com informações da Chesf, existem atualmente cerca de 3 mil tanques no leito do São Francisco, só sob a área de sua responsabilidade. No lago da Usina de Xingó, no Baixo São Francisco, por exemplo, há mais de mil tanques em produção.
O criador Fernando Oliveira divide uma área de 175 metros de largura na beira do dique 3 de Xingó com outro produtor, onde opera 19 tanques. Nesta fazenda subaquática, o produtor pode obter, dependendo de um bom manejo, até 700 quilos num prazo de cinco meses. O empreendedor prefere não revelar o faturamento, mas observa que obtém um lucro de 80%, se tudo correr bem e não houver mortandade, em conseqüência de algum desequilíbrio na fase de crescimento dos peixes. “Se tudo dá certo, o negócio é bem razoável”, declara Oliveira. “O único problema neste negócio é a falta de financiamento”, lamenta.
Os bancos pedem 130% de garantia real. Na única oportunidade em que tentou ajuda de um banco, teve prejuízo porque o dinheiro não chegou a tempo e os peixes morreram de fome. O atraso foi motivado, por incrível que pareça, por um gerente que tentou forçar uma
sociedade no negócio mediante o empréstimo. De lá para cá, o projeto é tocado com recursos próprios. O produtor Fernando Oliveira trabalhou na Chesf por três anos, entre 1991 e 1994. Depois de ir visitar o irmão na cidade de Canindé do São Francisco, recém-chegado dos Estados Unidos, não voltou mais.
Explorando o mesmo lago, mas sem os mesmos recursos nem círculo de amizades do colega Fernando Oliveira, o pescador Luis de Souza, de 50 anos, conhecido como Seu Nem, reclama que atualmente não pega nem 10 quilos de peixe por dia. “Peixe dá pouco no lago. A gente se bate demais e não vê ajuda”.
Velho Chico já teve mais de 360 espécies de peixes
Os registros históricos do Museu Regional do São Francisco, em Juazeiro, dão conta que a fauna ictiológica do rio já chegou a ser composta por mais de 360 espécies de peixes. O engenheiro de pesca e professor de ecologia alagoano Fábio Castelo Branco sustenta que, embora não haja um inventário concluído a respeito dos peixes, seguramente, nos dias de hoje, o número de espécies não chega à metade.
O pirá é um exemplo de perda irreparável. O peixe, durante muitos anos, foi símbolo da região do Baixo São Francisco, mas não há registro dele há 20 anos. O peixe mais conhecido ao longo do rio, o surubim, também já está rareando nas águas após a barragem de Xingó. “O estrago é grande”, observa o biólogo Fábio Castelo Branco. Nem sempre foi assim.
Vitorino Barbosa, 64 anos, pescando desde os 18, no quilombo da Bandeira, em Minas Gerais, fala com saudade do tempo em que era pecado se pescar com rede miúda no rio. “Naquele tempo, os peixes eram tão grandes que não se dormia nas ilhas com as pancadas que eles davam na água, em busca da isca”.
Nos dias de hoje, com fiscalização precária, a cargo do Ibama, resta tentar compensar os problemas com repovoamento. A cada ano, a Chesf joga cinco milhões de toneladas de alevinos nativos, como o curimatã, piau e niquim, no reservatório de Paulo Afonso. Com iniciativas como esta, a estatal fez surgir novos tipos de peixes no rio. A tilápia, produzida em larga escala nos tanques-rede, por exemplo, não existia há 10 anos.
Infelizmente, nem sempre a chegada de novas espécies é benéfica. O tucunaré, oriundo da região amazônica, é um grande predador das espécies nativas, contribuindo para o desaparecimento dos peixes locais. Ninguém assume a introdução do peixe naquelas águas.
Velho Chico está assoreado e poluído
por Jamildo Melo
São Francisco não deve estar nem um pouco satisfeito. O santo da ecologia há 499 anos emprestou seu nome para batizar o rio, mas aos longo dos anos, o homem deu as costas aos ensinamentos de comunhão fraterna com a natureza pregados pelo santo. O estrago que o desmatamento desenfreado, a garimpagem irresponsável, as queimadas, os esgotos das cidades e as carvoarias fizeram e fazem saltam aos olhos de qualquer leigo.
Em Minas Gerais, o assoreamento é tão sério que a administração do projeto de irrigação de Jaíba mantém uma draga no trecho do rio que alimenta a estação de captação d’água. Antes mesmo de adentrar as áridas terras do Sertão, ainda nas verdes pastagens de Minas, em Pirapora, o rio já apresenta sinais de poluição, com o curso enegrecido pela fuligem das indústrias têxteis, que também costumam despejar resíduos industriais.
Na Bahia, após a barragem de Sobradinho, o rio parece mais largo e raso. Há formação de enormes bancos de cascalho, areia e pedra, que os ribeirinhos chama de coroas. A situação atrapalha a navegação, nos períodos de seca.
Entre Sergipe e Alagoas, a região da foz do rio também sofreu alterações na última década por conta das barragens. As lagoas naturais secaram, depois que a Usina de Xingó controlou a vazão do rio. O mar também avançou sobre o continente naquele trecho e engoliu mais de 700 metros de terra. O pequeno povoado do Cabeço, uma colônia de pescadores ali localizada, teve de se mudar. Os escombros da cidade ficaram submersos e a
única lembrança do local é um farol do tempo do Império que teima em se manter de pé. Apesar de não ter vontade própria, como os humanos, mais parece um ato de vingança por tudo que fizeram de ruim.
A origem dos males é conhecida. O desmatamento dos cerrados e a implantação da monocultura de eucalipto no alto e médio São Francisco são apontados como os principais fatores para degradação do rio, em função da derrubada das matas ciliares.
CARVOARIAS – O desmatamento é um problema histórico. Os velhos barcos a vapor que navegavam há mais de cem anos já ajudavam a destruir as reservas de madeira, usada como combustível. Depois, o vale também foi castigado pelo ciclo do carvão, responsável pela destruição de enormes áreas de cobertura florestal. Em Minas Gerais, principalmente na região das cabeceiras, muita madeira foi extraída para fazer carvão, usado em alta escala na siderurgia do Estado. O desmatamento provocado pelas carvoarias é grave para o Velho Chico porque Minas Gerais, com apenas 37% da área da bacia hidrográfica, doa 70% das águas que formam o grande rio.
Atualmente, de acordo com o presidente do Comitê de Estudos Integrados da Bacia Hidrográfica do São Francisco (Ceivasf), José Theodomiro, uma das ameaças que rondam o rio é a expansão das pastagens de gado nos cerrados da Bahia. “Com a derrubada da vegetação nas nascentes dos afluentes para criação do gado, a arborização escassa impede que a água seja absorvida e drenada para os riachos”, explica. Usualmente, as áreas são limpas com queimadas, que arrasam as veredas.
O engenheiro cearense Caio Botelho reclama iniciativas para reposição da cobertura vegetal. “O problema é que o reflorestamento das margens do rio e seus afluentes nunca foi feito, embora seja o único caminho para manter a alimentação dos rios. Só com a cobertura vegetal é possível evitar o assoreamento”, observa.
Há cinco anos, FHC prometeu recuperar bacia
O descaso com o São Francisco atravessa governos. O atual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, assinou em 19 de maio de 1995 um documento, intitulado Compromisso pela Vida do São Francisco, prevendo a execução de uma série de ações de preservação ambiental para toda a bacia hidrográfica.
No mesmo ano, em comemoração ao Dia do Meio Ambiente, no mês de junho, o presidente FHC chegou a visitar a Serra da Canastra com uma extensa comitiva de políticos e cravou uma placa de bronze com uma reprodução do compromisso. Até o presente momento, o documento é letra morta, no segundo Governo do presidente que revelou, recentemente, assinar documentos sem ler.
O desafio pela manutenção do rio já foi dado, em carta pública, desde o ano de 1993, pelo frade da cidade baiana de Barra Luiz Flávio Cappio. O religioso se deu ao trabalho de realizar um ano de peregrinação pelo rio, da nascente à foz, para lançar uma carta pública cobrando ações em favor da conservação da natureza. Na carta, o religioso recomenda a reconstituição das matas ciliares, a fiscalização das empresas poluidoras e a conscientização ecológica da população.
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Navegação encalhada

Na quinta reportagem da série, as dificuldades da navegação. Amanhã, acompanhe o dilema entre gerar energia ou abastecer cidades.

por Jamildo Melo
Nem as carrancas usadas nas proas dos barcos para evitar os maus espíritos, nas viagens cheias de perigo, foram capazes de proteger o transporte fluvial do abandono no São Francisco. A navegação está naufragada e não foi a pique por obra do caboclo-d’água, o mito que arruinava as embarcações, segundo a crendice dos pescadores. A navegação afundou depois da opção nacional pelo transporte rodoviário.
Duas cenas ilustram a situação atual. Em Juazeiro, o primeiro vapor a navegar pelo São Francisco, o Saldanha Marinho, virou uma pizzaria, numa homenagem que hoje certamente seria recusada pelo governador da Província de Minas, Joaquim de Saldanha Marinho. No porto de Pirapora, em Minas Gerais, o vapor Benjamim Guimarães está ancorado há mais de dez anos, sem condições de uso. Nem sempre foi assim.
O transporte fluvial já foi tão importante que, para facilitar o deslocamento de cargas no trecho em que o rio não é navegável, a Coroa mandou construir uma linha férrea entre Petrolândia e Piranhas, em Alagoas. A ferrovia foi desativada em 1964, quando as estradas começaram a rasgar o sertão nordestino.
A partir de então, a única empresa que explora comercialmente os serviços de transporte fluvial, a Companhia de Navegação do São Francisco (Franave), começou a ser sucateada, inviabilizando o uso econômico dos 1.371 mil quilômetros navegáveis do rio, entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia.
O sucateamento é grande. Com um potencial de transporte próximo a dois milhões de toneladas por ano, a frota transporta apenas 150 mil. “Não há mais embarcação. Temos sete comboios quando deveríamos ter pelo menos 20”, observa Lúcio Barreto, assessor da diretoria da estatal. A frota, envelhecida, com 30 anos de uso, deveria ter, no máximo, 20 anos de uso.
Para funcionar a contento, de forma confiável, a hidrovia precisaria de investimentos em obras de dragagem, derrocamento e recuperação da eclusa de Sobradinho, além de remodelamento dos portos de Pirapora, Juazeiro e Petrolina. Com o assoreamento em vários trechos, a dragagem é a obra mais importante no momento. “Nesta época é muito custoso. O rio está maltratado”, confirma o ex-capitão do Benjamim Guimarães, Seu Guedes, de 75 anos, hoje aposentado.
CARGAS – O transporte de cargas feito hoje distribui milho, arroz e principalmente soja e farelo de soja da região de Barreiras, na Bahia, para Petrolina, onde o produto é redistribuído para o Nordeste. Com a retomada da hidrovia, os produtores pernambucanos ganhariam competitividade, reduzindo custos. Atualmente, a produção é escoada a partir de Petrolina em caminhões e carretas, com um custo de R$ 52 por tonelada, contra R$ 11,66 na hidrovia. No sentido inverso, as chatas da Franave poderiam transportar gipsita de
Araripina para o Centro-Sul, destinadas às indústrias de cimento nacional. A carga é estimada em de 100 mil a 150 mil toneladas por ano.
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Nostalgia e romances nas histórias dos navegadores
A navegação de passageiros inspira muita saudade e melancolia na maioria das pessoas que aproveitou a época áurea dos vapores no São Francisco. O ex-marujo do Lloyds Moacir Silva, seu Sassa, de 64 anos, só guarda boas recordações. Numa viagem à Pirapora, o marinheiro conheceu dona Celina Cedragem de Oliveira e decidiu abandonar o mar, depois de mais de 15 anos viajando pelo mundo. “No Rio São Francisco, eu pude ser homem de uma só mulher, sem largar mão de minha paixão pelas águas”. Com um filho e quatro netos, hoje seu Sassa ganha a vida com sua oficina de bicicletas.
Histórias de paixão eram comuns. O ex-capitão do Benjamim Guimarães, seu Guedes, conta que havia um código de honra. “Com mulher a bordo, não se falava palavrão. Não podia chegar perto também”. Nem sempre funcionava. “As viagens eram longas. As pessoas acabavam se engraçando. Vez ou outra, tinha pai pedindo ao capitão para casar a filha, reclamando que o rapaz tinha feito mal à moça”. Também era comum o navio encalhar. Os bancos de areia tinham até nome, de tão conhecidos, mas ninguém reclamava. “As viagens eram alegres. À noite, ocorriam verdadeiros bailes”, relembra o prático Waldemar Santos.
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Nas mãos de São Pedro

por Jamildo Melo

Sai São Francisco e entra São Pedro. Com o esgotamento total do potencial hídrico do Velho Chico, o Nordeste mais do que nunca depende de um bom período de chuvas para continuar gerando energia para o seu crescimento econômico. Sem boas chuvas, já a partir de 2001 a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) precisará importar cada vez mais energia do Norte do País para distribuição, caso as taxas de crescimento sejam mantidas.

O problema para os consumidores, nesta Segunda alternativa, é que a energia pode chegar bem mais cara, em função da elevação do custo de transmissão de longas distâncias.
O dilema que a estatal enfrenta é enorme. O parque de geração montado no São Francisco permite que a Chesf produza uma energia firme de 5,8 mil megawatts (MW) por ano, embora a capacidade instalada seja de 10 mil MW.
Como a produção não é suficiente para atender a demanda, atualmente a Chesf ainda importa cerca de 600 MW por ano do Sistema da Eletronorte para atender a demanda dos oito Estados que estão sob sua área de atuação.
O volume de produção de energia depende do período de chuvas que vai de novembro a abril de cada ano. Com esse manancial é que a Chesf enche os lagos e garante a produção de energia nos demais meses do ano. Em Sobradinho, por exemplo, neste período de seca, a vazão de entrada de águas na barragem soma apenas 1 mil metros cúbicos, enquanto a vazão de saída chega a 1,8 mil metros cúbicos por segundo, de modo que haja água para geração de energia nas usinas situadas mais abaixo no leito do rio.
O bom volume de chuvas registrado no ano passado afasta a necessidade de importação agora em 2000, mas não é garantia de que a situação se mantenha sempre estável. O humor de São Pedro, assim, dita se haverá maior ou menor necessidade de importação, enquanto a estatal, sob processo de privatização, não reduz a sua dependência do regime hídrico.
“O São Francisco se exauriu e a partir do próximo ano estaremos cada vez mais dependentes das chuvas ou da importação de energia do Norte”, explica o diretor de Operações da Chesf, Paulo de Tarso da Costa. “No cenário atual, qualquer metro cúbico que seja retirado do rio pode fazer falta”, observa o técnico. A estatal hoje é a maior usuária do rio, com a utilização de 1,8 mil metros cúbicos de vazão média.
Ainda há a possibilidade de aproveitamento de pequenos trechos de queda em outros rios da região, até o ano de 2009, mas essa outra alternativa só pode agregar outros míseros 600 MW por ano.
Desde 1997, com a inauguração da última turbina de Xingó a Chesf está de mãos atadas. Primeiro porque não tem mais água para produzir. Depois porque a reestruturação do setor elétrico, com a possibilidade de privatização e abertura do mercado para exploração pela iniciativa privada, colocou a empresa em compasso de espera. Até então, a Chesf concluía um empreendimento e começava outro.
Neste cenário, a opção das usinas térmicas se configura como a mais viável no momento. Com o crescimento das usinas térmicas, a estatal pode liberar mais água para outros usos. “A Chesf entende que a água é um bem escasso e caberá à sociedade decidir pelo melhor uso”, observa.
O plano do Governo Federal para enfrentar a situação prevê a instalação de uma ou mais usinas térmicas em cada Estado da região. A oferta de energia dessas empresas irá reforçar a produção em cerca de 1,5 mil MW, afastando risco de desabastecimento por mais cinco anos, considerando que não haja um crescimento acelerado da economia regional, que reduziria este prazo de folga.
Crescimento do mercado força uso de gás natural
Os americanos erraram feio. No início da construção da Chesf, ainda na época das obras de Paulo Afonso, os engenheiros diziam que o Nordeste iria consumir apenas 400 MW até o ano 2000 e que os 180 MW de potência instalada daquela usina seriam mais do que suficientes. Hoje, a produção chega a 6 mil MW e não é suficiente.
Neste cenário, o crescimento do mercado de energia é um dos fatores que mais pesam na reestruturação do setor. O consumo no Nordeste, nos últimos anos, cresce sempre a taxas superiores às demais regiões do País.
No ano passado, por exemplo, o consumo energético nacional cresceu 5% ao ano, enquanto o Nordeste atingiu um incremento de 7%.
Para continuar dando suporte a esta tendência, a estatal terá que mudar a sua matriz de produção, reduzindo a dependência das águas do São Francisco, depois de meio século montada exclusivamente no rio. Neste tempo, a participação do Nordeste no mercado nacional de energia passou de 2% para o patamar de 20%, segundo números divulgados pela empresa.
No caso específico de Pernambuco, os novos controladores da Celpe – liderados pelo grupo espanhol Iberdrola – planeja implantar uma usina termelétrica de 230 MW, em sua primeira fase. Na segunda-fase, a usina agregaria outros 230 MW. Para a região, estão projetados outros 1,5 mil MW oriundos de usinas térmicas a partir da utilização de gás natural, para o reforço no atendimento a cada Estado.
Hoje, com 17 mil quilômetros de linhas de transmissão cortando o Nordeste, a Chesf assegura energia para uma população estimada em 40 milhões de pessoas, em oito Estados.
Ex-barrageiro vive até hoje em Xingó
James Flávio, 36 anos, o Jacaré, é um dos 12 mil homens a quem o Nordeste deve muito. Ele é um ex-barrageiro que se orgulha de ter trabalhado na construção da usina de Xingó. “Levei 15 dias na porta do canteiro de obras da Mendes Júnior para conseguir ser fichado (ter a carteira assinada), dormi na boca da obra, comi a bóia de muita gente, mas consegui o emprego de mecânico, que pagava um salário mínimo”, conta. Vindo de Alagoas, Jacaré nunca mais saiu de Xingó. “Antes aqui era um verdadeiro formigueiro. Tinha fila para tudo. Hoje é tranqüilo. Vivo satisfeito. Fiquei conhecido na obra, as pessoas me procuram e consegui uma casa da Chesf para morar”.
Irrigação concentra riqueza
por Jamildo Melo
A irrigação demonstrou que a paisagem cinzenta das caatingas pode ser mudada, gerou a esperança de que o Vale do São Francisco iria começar a sair da pobreza de cinco séculos mas, em que pese o inegável progresso econômico já obtido, o sertanejo não deve se beneficiar diretamente dos avanços.
A modernização da agricultura, a busca de escala na produção, a falta de crédito bancário e o despreparo técnico do pequeno agricultor reduzem suas chances de se tornar protagonista desta história. O dinheiro público investido pela União, em nome da melhoria de vida do sertanejo, vai acabar beneficiando os grandes grupos, concentrando renda, ao invés de promover a distribuição.
O diretor de um projeto público de irrigação do São Francisco, pedindo anonimato, explicou que o sertanejo não conta com qualificação para tocar os empreendimentos desta magnitude. A realidade ao longo do vale prova que não se trata de discriminação contra o nordestino. “Aqui há um baiano ou outro. A maioria é do Centro-Sul e Sul e principalmente japoneses”, confirma Carlos Antônio Landi Pereira, gerente executivo do projeto Jaíba, em Minas Gerais.
Na região de Petrolina e Juazeiro, do total de 42 mil hectares em seis perímetros públicos, 17,6 mil hectares são de colonos e 25 mil de empresas. Historicamente, a relação de área plantada era de 60% para agricultores e 40% para empresários. Hoje, são 21,9 mil hectares (51,5%) de empresas contra 20,5 mil hectares (48,5%) dos agricultores.
No projeto Senador Nilo Coelho, o maior perímetro de irrigação em Pernambuco, com 15 mil hectares de terras irrigáveis, apenas 30% dos primeiros irrigantes ainda ganha a vida como agricultor. Apesar de só terem chegado em 1987, as empresas já ocupam 6,3 mil hectares das áreas, com 134 lotes de terras. Os pequenos agricultores detém 9,1 mil hectares, com 1.470 lotes.
A maioria não dominava as técnicas básicas de irrigação, perdeu as plantações, endividou-se e foi obrigada a vender suas terras para empresas privadas. Sem orientação técnica, nos primeiros anos, no início dos anos 70, os agricultores investiram principalmente em culturas de ciclos anuais e acabaram tendo prejuízos porque a rentabilidade das plantações era baixa. Só com a chegada das empresas, em 1987, os colonos começaram a substituir as plantações tradicionais, de sequeiro, por culturas mais nobres, como uva, manga e coco.
O agricultor e pedreiro Raimundo Joaquim dos Santos, 54 anos, mais conhecido como Dé, um dos pioneiros do projeto Nilo Coelho, após perder quase toda a safra de tomate e sem ter como pagar o empréstimo ao banco e as contas de água, esquentou a cabeça e vendeu sua terra. Hoje, ele trabalha como pedreiro do distrito de irrigação. “Tenho vontade de possuir um lote de novo, mas não posso. No início, a terra era dada, agora um lote custa R$ 20 mil", lamenta-se o ex-agricultor, que também vende confecções nas feiras livres da região.
O curioso é que os perímetros de irrigação foram idealizados para manter o sertanejo na região por meio do acesso à terra. O projeto Tourão, em Juazeiro, é um exemplo da perda de espaço dos pequenos produtores. Criado em 1978, o perímetro público abrangia uma área de 6 mil hectares, sendo 200 hectares para os agricultores e o restante para empresas. Hoje, o projeto conta com 10,5 mil hectares, mas apenas a área de empresas aumentou. A área dos colonos do Tourão foi adquirida praticamente pela Agrovale. Nascida em 1978, com o objetivo de produzir cana-de-açúcar, a Agrovale possuía cerca de 6 mil hectares. Hoje, o canavial dobrou de tamanho. Além das terras do Tourão, a empresa também agregou lotes do perímetro de Maniçoba, em Juazeiro.
Água não chega para todo sertanejo
Irrigação é uma palavra mágica no Sertão e os colonos que tiveram acesso a um pedaço de terra irrigada não escondem sua satisfação. No município de Mocambinho, nas proximidades do projeto de irrigação de Jaíba, em Minas Gerais, por exemplo, dona Josefa Santos, 42 anos, alegra-se com a água farta, mesmo depois de 14 anos de construção dos canais. “A água da irrigação é tudo para nós. Antes era só dificulidade (dificuldade). Hoje tem a água de molhar a lavoura, tem água até para tomar banho. Existe lugar aí que não tem água nem para beber. Fica só na vontade”, conta a mulher, enquanto ajuda o marido, seu Juca, na roça de pimentão. Naquela área, antes do projeto de irrigação, a cidade de Jaíba era um pequeno povoado com pouco mais de mil pessoas. Hoje, a cidade conta com 12 mil pessoas, muitos deles estrangeiros.
A salvação prevista em muitos planos ainda não chegou a ser posta em prática nem deve chegar para a maioria dos sertanejos. Os números oficiais dão conta de que a região do Vale do São Francisco já conta hoje com 350 mil hectares irrigados em toda a extensão do rio, mas a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) estima que a área total irrigada pode chegar aos 800 mil hectares, sem comprometer a capacidade hídrica do rio, cujas águas são quase majoritariamente utilizadas pela Chesf para produção de energia.
Apesar do potencial de crescimento ser enorme, não há tanta água para irrigar um volume de terras tão grande. O principal entrave é a disponibilidade de água para a produção de alimentos, em detrimento da produção de energia. O professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Olímpio Galvão defende que o conflito tende a tornar-se cada vez mais evidente na medida em que a área irrigada é ampliada.
A implantação dos perímetros, por coincidência ou não, anda a passos lentos. Em Minas Gerais, o Projeto Jaíba, por exemplo, arrasta-se há 20 anos. A sua concepção prevê a irrigação de 100 mil hectares, mas até hoje não foram irrigados 4 mil. A tomada d’água do projeto, com capacidade para 80 metros cúbicos por segundo, está sendo subaproveitada. A União gasta R$ 2,5 milhões por ano para manter as áreas ociosas do projeto, numa despesa sem retorno a curto e médio prazos. Em 20 anos, já foram investidos pela União mais de R$ 2,5 bilhões, de acordo com os números da Codevasf.

Na Bahia, o Projeto Salitre, em Juazeiro, começou a ser construido ainda em julho de 1988. Com o atraso na liberação dos recursos, deve estar pronto em mais dois anos, disponibilizando 6 mil hectares dos 33 projetados. A expectativa é de que o projeto gere emprego para aproximadamente 80 mil sertanejos, entre postos de ocupação diretos e indiretos.

O RIO DA DESUNIÃO REGIONAL

Na última reportagem desta série, conheça os detalhes do projeto de transposição, que tantos desentendimentos tem causado entre os Estados a respeito do uso daquele que já foi o “Rio da Unidade Nacional”

por Jamildo Melo

Os interesses políticos falaram mais alto. Apesar de todos os questionamentos técnicos quanto à viabilidade econômica do projeto de transposição das águas do São Francisco, o Governo Federal ignorou a polêmica entre os Estados nordestinos e dará início à obra já no próximo ano. O Orçamento Geral da União (OGU) para 2001 reserva R$ 300 milhões para o projeto. A verba para a transposição representa o maior valor individual de uma obra contida na proposta orçamentária.

Os nordestinos, assim, podem estar assistindo ao nascimento da mais nova e cara obra inacabada da União, já que após o término do atual mandato presidencial, em dois anos, não há qualquer garantia de que o sucessor dê continuidade ao empreendimento. O atual ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, natural da Paraíba, é hoje o mais ferrenho defensor do projeto.

O início das obras tende a agravar o conflito que se trava desde 1994 pelo uso das águas do rio. Com o crescimento econômico da região, as águas do Velho Chico são cada vez mais escassas para atender aos usos múltiplos, em função da crescente demanda por geração de energia, irrigação e consumo humano.

Caso o projeto se concretize, a Chesf será a principal prejudicada, sendo obrigada a reduzir a produção de energia com as águas do Velho Chico, após mais de 50 anos de quase total supremacia no uso do rio – 95% da vazão são utilizados pela estatal.
“A geração de energia a partir de gás natural é uma boa opção, mesmo a um custo mais caro, já que não é possível substituir a água para o consumo humano e a produção de alimentos”, defende o professor de economia da UFPE Olímpio Galvão.
A polêmica arrasta-se há mais de 150 anos e nunca esteve tão acalorada. O chamado Rio da Unidade Nacional hoje poderia ser conhecido como Rio da Desunião Regional. Em Minas Gerais e na Bahia, os produtores e líderes ribeirinhos defendem que o Governo Federal revitalize o rio antes de qualquer iniciativa. “Os anêmicos não doam sangue”, argumenta o frei da cidade de Barra, na Bahia, dom Luís Flávio Cappio, de 53 anos, referindo-se à situação de degradação do rio.
Os cearenses, paraibanos e potiguares encaram o projeto como solução para o secular problema da escassez de recursos hídricos e estão apostando tudo na engorda do rio com águas importadas do Tocantins, no Norte. Após mais de um século, nunca os Estados do Nordeste Setentrional acreditaram estar mais próximos de reinvindicarem uma compensação pela caprichosa curva que leva o rio a desaguar no litoral entre Sergipe e Alagoas.
Uma estatal em compasso de espera
A polêmica em torno da transposição do São Francisco atinge em cheio os interesses da Chesf porque cada metro cúbico retirado em um ponto do rio para qualquer uso representa energia não gerada nas usinas a jusante (mais abaixo). A situação é mais grave porque, desde 1997, com a inauguração de Xingó, a estatal não tem mais onde gerar energia no São Francisco, a custos competitivos.
O diretor de Operações da Chesf, Paulo de Tarso da Costa, explica que, com o esgotamento total do potencial hídrico do Velho Chico, a tendência é que o Nordeste, já a partir de 2001, precise cada vez mais importar energia do Norte do País. A necessidade será tão maior quanto forem as taxas de crescimento do mercado regional.
“O São Francisco se exauriu. No cenário atual, qualquer metro cúbico que seja retirado do rio pode fazer falta”, declara Paulo de Tarso, acrescentando que a estatal, maior usuária do rio, consome quase integralmente os 1,8 mil metros cúbicos de vazão média.
IMPORTAÇÃO – O dilema da Chesf pode ser expressado mais facilmente em números. O parque de geração montado no São Francisco permite que a companhia produza uma energia firme de 5,8 mil megawatts (MW) por ano. Como a produção não é suficiente para atender à demanda, atualmente a Chesf ainda importa cerca de 600 MW por ano do Sistema da Eletronorte para atender aos oito Estados que estão sob sua área de atuação.
O problema para os consumidores, com esta alternativa, é que a energia pode chegar bem mais cara, em função da elevação do custo de transmissão a longas distâncias. Ainda há a possibilidade de aproveitamento de pequenos trechos de queda em outros rios da região, até o ano de 2009, mas essa opção só pode agregar outros míseros 600 MW por ano.
A partir da inauguração de Xingó, em 1997, a Chesf está praticamente de mãos atadas. Principalmente porque não tem mais água para produzir energia. Com a reestruturação do setor elétrico, a possibilidade de privatização e abertura do mercado para exploração pela iniciativa privada deixou a empresa em compasso de espera. Até então, a Chesf concluía um empreendimento e começava outro.
Transposição poderia reduzir gastos com a “indústria da seca”
Um dos mais fortes argumentos a favor do projeto de transposição das águas é a secular indústria da seca. A cada novo período de estiagem, rios e mais rios de dinheiro são desviados dos cofres públicos para obras emergenciais, sob o comando dos políticos de plantão em cada município. Os gastos nessa farra são elevados.
Só entre os anos de 1998 e 1999, por exemplo, a União gastou R$ 2,2 bilhões no combate à seca, de acordo com os dados oficiais da Coordenadoria de Defesa Civil da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). As verbas do Programa Federal de Combate aos Efeitos da Seca começaram a ser repassadas em junho de 1998.
Os principais gastos foram com as questionáveis frentes de serviço, onde foram empregados R$ 1,108 bilhão. No pique do socorro aos flagelados, o programa prestou assistência a 1,2 milhão de pessoas, incluindo habitantes do Norte do Espírito Santo e Minas Gerais, além dos Estados do Nordeste, com exceção do Maranhão. Esta verba também custeou o fornecimento de água por meio de carros-pipa (cerca de 1.100 veículos até dezembro de 1998).
As humilhantes cestas básicas entregues para matar a fome do sertanejo levaram uma quantia bem menor, da ordem de R$ 351 milhões, mas nem por isto menos desprezível.
No socorro aos flagelados, também foram empregados cerca de R$ 450 milhões a título de crédito especial para que os sertanejos pudessem melhorar a infra-estrutura hídrica de suas propriedades. A soma é tão considerável que se aproxima dos valores do orçamento do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), da ordem de R$ 500 milhões por ano, usados para financiar empreendimentos na região.
Na última estiagem, a ajuda foi encerrada em abril do ano passado e envolveu um total de 1.235 municípios atendidos, beneficiando cerca de 4 milhões de pessoas.
No sentido inverso, a mesma argumentação de carência de água para abastecimento humano pode ser usada contra o projeto da transposição. Os críticos do projeto, especialmente líderes políticos em empresariais mineiros e os baianos, argumentam que não é concebível que se leve água para tão longe, enquanto diversas populações às margens do São Francisco sofrem com a mesma estiagem.
O Norte de Minas, região incluída na área do Semi-árido, é um exemplo. A menos de 10 quilômetros da calha do Velho Chico as populações ribeirinhas sofrem com a carência dos recursos hídricos. Em outras palavras, a simples existência da água no rio principal não resolve as carências do Nordeste.
Uso múltiplo é quase sempre conflitante
Quase sempre, o uso múltiplos das águas do São Francisco é conflitante. A principal utilização, após a geração de energia, é a problemática irrigação.
Os mineiros e os baianos argumentam que não é sensato que se comece a realizar um projeto de transposição quando não se concluiu grande parte dos projetos hídricos já encaminhados.
Não haveria recursos para tantas frentes de empreendimento e nem a garantia de que não ocorresse paralisações mais adiante, na primeira troca de Governo. Em Minas Gerais, quase na fronteira com a Bahia, o projeto Jaíba é um símbolo desta situação inusitada, criada pela polêmica da transposição.
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O projeto começou a ser tocado na metade da década de 70 e até hoje se arrasta, entrando agora na sua Segunda fase. O projeto previa 100 mil hectares de terras irrigadas, mas até o momento não passa dos 25 mil hectares, embora já tenham sido investidos mais de R$ 350 milhões.

A tomada d’água do projeto, com capacidade para puxar até 80 metros cúbicos por segundo, opera de forma ociosa, utilizando apenas uma das nove tubulações coletoras. “A demanda atual é de apenas 5 mil metros cúbicos”, confirma o gerente-executivo do projeto, Carlos Landi.

GASTOS – Apesar da situação, a União ainda é obrigada a gastar R$ 2,5 milhões ao ano para manter o projeto em funcionamento, já que o número de usuários não paga a conta de energia e outros custos de manutenção.

Em Juazeiro, quando estiver em pleno funcionamento, o projeto Salitre vai consumir outros 42 metros cúbicos de água por segundo. O projeto total vai ocupar uma área de 33 mil hectares. Na primeira fase, a ser concluída em dois anos, serão disponibilizados 5,9 mil hectares para irrigação, consumindo mais água, que também é disputada por outros usos.

Os técnicos da Chesf citam que os 3 mil hectares da bacia do São Francisco identificados como potencialmente irrigáveis consumiriam integralmente a vazão média disponível, de 2.060 metros cúbicos por segundo.

O mesmo volume de água já é utilizado hoje para atender à demanda de energia do Nordeste até este ano de 2000, sem contar o crescimento do mercado nos próximos anos.

Fonte: Jornal do Commercio, Recife de 27 de agosto a 3 de setembro

 
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