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'A agricultura orgânica será uma ferramenta de libertação nacional'


Geólogo e produtor orgânico, José Carlos Alves Ferreira afirma que o Brasil carece de mais conhecimento sobre a história e os casos de sucesso de produção orgânica e faz um alerta: a produção intensiva de soja no Mato Grosso pode levar a um colapso que inviabilizará a cultura

Porto Alegre, RS - O geólogo José Carlos Alves Ferreira, formado pela Universidade da Califórnia, veio a Porto Alegre para a palestra Uso Estratégico das Farinhas de Rocha, no último dia 29 de agosto no Seminário Nacional de Tecnologias Inovadoras para Agricultura Familiar, organizado pela organização não-governamental Guayí. Leia a entrevista exclusiva dada à EcoAgência durante o Seminário Nacional de Tecnologias Inovadoras para a Agricultura Familiar

EcoAgência - Um dos problemas da agricultura atual está na desmineralização ou empobrecimento do solo. O senhor poderia explicar o processo de desmineralização?

Ferreira - Desmineralização consiste na perda de minerais do solo e dos corpos. No solo ocorre de maneira natural através do intemperismo, a passagem dos tempos meteorológicos, e no humano pela falta de reposição desses nutrientes em alimentos descalibrados, ou seja, produzidos pela adubação química que não restitui ao solo completamente tudo o que a planta tira.

EcoAgência - Além dos enlatados e embutidos, alimentos vivos, como alface e tomates, podem estar desmineralizados se não tiverem uma boa nutrição no solo?

Ferreira - Exatamente. Adubos incompletos produzem plantas incompletas. A restituição de nutrientes no solo não tem ocorrido com adubação química e esse é um processo que tem depauperado os solos. Tal prática leva a colheitas antieconômicas. Vemos isso em muitas regiões, como a soja em Mato Grosso: a produtividade chegou a um ponto crítico, não se tem mais uma produção economicamente viável e esta nova doença, a ferrugem asiática, resulta do processo de exaustão desses solos. Pensou-se que seria uma panacéia para o Brasil produzir indefinidamente soja no cerrado simplesmente colocando-se NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) e mais uns poucos micronutrientes sendo que sabe lá quantos nutrientes na realidade uma planta tira do solo.

Um solo rico contém todos os elementos da tabela periódica. Assim, é natural que uma planta absorva o que precisa dentro desse universo nutricional. No Centro Oeste, o uso de calcário sustentou a produção por uma década, mas algum nutriente chegou ao ponto crítico. Vemos isso acontecer em outras regiões, como o cancro cítrico em São Paulo, que tem atacado as plantações de laranja. Um empobrecimento em determinado nutriente pode levar a um ponto de colapso em que a cultura não se torne mais viável, o que pode acontecer com todas as culturas, inclusive com a saúde humana.

EcoAgência - A Índia produziu com abundância em solos com cinco mil anos de exploração. O senhor poderia ampliar essa informação dada na sua palestra?

Ferreira - Sir Albert Howard descobriu na Índia um respeito que ele não conhecia em relação às práticas agrícolas. Em várias décadas de trabalho naquele país, ele ressarciu valores históricos e práticas milenares que mantiveram aqueles solos em condições perfeitas de produtividade. Seu centro de pesquisa localizava-se na região Indore, que deu nome ao método milenar ressarcido por ele: compostagem com o enriquecimento de farinhas de rocha no composto. Essa forma de fertilizante organomineral natural ainda hoje é utilizada como método indore de compostagem. Estamos tentando trazer práticas como essa para o Brasil, que tem condições primitivas de agricultura orgânica, pois podemos fazer bem mais do que estamos fazendo. Eu falo isso como produtor e como quem conhece outros lugares.

EcoAgência - No final da década de 1960 o senhor teve contato com práticas de agricultura orgânica na Europa e na América do Norte, como foi essa experiência?

Ferreira - Tivemos a oportunidade de ver sistemas orgânicos plenamente funcionais já instalados há mais de 50 anos nos Estados Unidos, com farinha de rocha de alta nobreza e que ainda nem chegaram a ser utilizadas no Brasil. Inclusive, com uso comercial plenamente inserido na produção orgânica.

EcoAgência - Em que região dos Estados Unidos?

Ferreira - A agricultura orgânica está muito desenvolvida em geral nos Estados Unidos, principalmente na Califórnia e na Pensilvânia, onde existe um nicho de conhecimentos extraordinários que se chama Rodale Fundation. Seu fundador, Gerome Rodale, esteve com Howard por bastante tempo e trouxe para o seu país essa visão profética do codificador Albert Howard.

Sendo que o movimento orgânico nos Estados Unidos é muito forte hoje em todo país graças ao trabalho de Rodale. No primeiro momento com Gerome e depois com Robert Rodale, que tragicamente foi subtraído de nossa presença em 1992 em um inexplicável acidente quando implantava uma escola de agricultura orgânica na Rússia, como já havia feito na Guatemala e no Senegal. São nomes que ainda não entraram no vocabulário brasileiro da agricultura orgânica, não temos nada da literatura gigantesca e monumental dessa fundação traduzida para o português. O Brasil precisa oxigenar o seu sistema orgânico para ter forças no embate com o poder gigantesco do agroquímico.

EcoAgência – Você fala que há muitas informações que não circulam no Brasil, quais são elas?

Ferreira - O histórico da agricultura orgânica, as influências diretas de Albert Howard na década de 50 no Brasil, a presença de Louis Bromfield e das Fazendas Malabar no Brasil isso tudo é quilômetro zero. Desconhece-se a atuação dos pioneiros de Ribeirão Preto que bancaram a vinda dessas pessoas.

EcoAgência - O senhor poderia contextualizar as Fazendas Malabar no Brasil?

Ferreira - Fazendas Malabar nos Estados Unidos foi um pólo pioneiro da desenvolvimento da Agricultura Orgânica na década de 40, após a chegada de Bromfield da Índia. Teve um impacto enorme por provocar o rejuvenescimento de solos exauridos, produtores desesperados passaram a encontrar possibilidades de voltar a produzir. Após a eleição de Harry Truman, em 1945 como 33º presidente americano, as indústrias de agroquímicos passaram a ter um controle absoluto tanto na América do Norte como no resto do mundo, deixando Louis Bromfield numa trágica situação.

O novo presidente, além de autorizar a explosão das bombas nucleares no Japão, criou um fantástico aparato de segurança como Nacional Security Council e Central Inteligency Agency, resultando em um mecanismo de interferência externa que arrasou a resistência ao petroquímico. Com o assassinato de Mahatma Gandi, a indústria petroquímica avassala a Índia e a Ásia. No Brasil todo o movimento de resistência que existia entre produtores sucumbiu também e ficaram apenas marcos históricos.

Na região de Ribeirão Preto você encontra estruturas de compostagem que foram planejadas naquela época dentro do modelo howardiano. O histórico do uso de farinhas de rocha lá no final da década de 40, e a imensa colaboração, não só na agricultura orgânica, como na introdução do gado zebu leiteiro, tudo isso não tem registro histórico. Lastros que fazem falta na agricultura orgânica praticada no Brasil nos dias de hoje.

EcoAgência - Por que o fosfato de Olinda desapareceu do mercado brasileiro?

Ferreira - O fosfato de Olinda já foi um fosfato muito importante para a produção brasileira, inclusive o grupo de Ribeirão Preto o utilizava, e também farinha de osso, como fonte de fósforo. Ele era bem conhecido e usado no cotidiano. A partir de um determinado momento todo esse ferramental para se trabalhar agricultura orgânica no Brasil ficou bem longe do produtor, você não conseguia e não tinha acesso a um fosfato de qualidade. Hoje nós temos fosfatos que vem de fora, com custo razoável, pois eles vêm na maioria das vezes como lastro de navio e são bem utilizados do Oiapoque ao Chuí.

EcoAgência - E por que não se utiliza mais o fosfato nacional? Exauriu a mina, houve desinteresse no comércio?

Ferreira - Aconteceu uma ruptura com o fortalecimento brutal do padrão agroquímico, mesmo os fosfatos mais nobres passaram a ser deteriorados. Como o fosfato de melhor qualidade exigia menor quantidade de ácido sulfúrico para ser solubilizado, muitas indústrias agroquímicas preferiram essa matéria-prima. Isso provocou um grande prejuízo ao Brasil em termos de perdas de recursos minerais. Esse tipo de fosfatagem é cumulativa: ao fazer uma aplicação de fosfato natural reativo, ele fica no solo por décadas e vai sendo aproveitado conforme a necessidade do que é vivo nesse solo.

Quando se degenera um produto dessa qualidade num ataque com ácido sulfúrico, usado na fabricação do super-simples, amplamente aplicado no modelo agroquímico, além de uma degeneração imediata dos solos, cria-se a necessidade constante de levar um fosfato que não tem possibilidade de se acumular no solo. Sendo lixiviável e hidrossolúvel, ele vai parar nos rios causando poluição, ao contrário do outro. A grande poluição que se vê hoje no Pantanal deve-se ao fosfato dissolúvel resultado do modelo agroquímico. Existem implicações políticas muito fortes e a agricultura orgânica será uma ferramenta de libertação nacional no dia em o Brasil descobrir que pode ser Brasil.

EcoAgência - Pela agricultura orgânica devolve-se a autonomia de uma nação?

Ferreira - A agricultura orgânica devolve a saúde dos povos e do solo, a produtividade, a vida no campo e reverte o fluxo do êxodo rural. Ela tem o potencial de revitalizar a mineração brasileira em benefício do próprio Brasil e do mundo também. O nicho de exportação de minérios para a agricultura está totalmente inexplorado, com se fosse, por exemplo, falar de bruxaria na Inquisição.

Aparentemente podemos falar porque somos inócuos, não temos grandes impactos, mas estes que plantam mais de seis mil hectares de soja orgânica lá em Mato Grosso, com alta produtividade, não abrem a boca. Se falassem sobre isso as suas vidas estariam em risco porque eles afetam diretamente, pelo exemplo, o modelo agroquímico plenamente implantado dentro do coração do Planalto Brasileiro.

EcoAgência - Região em que fica a área de recarga do Aqüífero Guarani...

Ferreira - A área de recarga pega doze municípios do Mato Grosso sendo profundamente poluído por agroquímicos numa situação que compromete irreversivelmente a qualidade das águas do Aqüífero, isso é um atentado à segurança planetária.

EcoAgência - Existe algum controle por órgãos ambientais do Mato Grosso?

Ferreira - Tudo é feito conforme a legislação, o uso de agroquímicos é perfeitamente natural, não natural somos nós orgânicos (risos irônicos).

EcoAgência - Sua empresa, a Rockall, existe há quanto tempo?

Ferreira - No plano espiritual, ela é um trabalho de 30 anos, onde colocamos dentro de um saquinho conhecimento e uma bagagem mineral das melhores, em benefício da agricultura orgânica e da saúde do povo brasileiro. Estamos acabando de formatá-la e ela será lançada em outubro, dentro da BioFach, em São Paulo. Espero que alguma empresa gaúcha, presente no evento, tenha interesse em trazer esse benefício para Porto Alegre: o conceito de segurança orgânica para as áreas urbanas. Transformar as cidades em verdadeiros centros de irradiação de vida ao vitalizar desde o menor vasinho até um gramado, elevado a vibração e a consciência que a vida traz vida.

Fonte: EcoAgência de Notícias em 03/09/2006 - Agricultura Ecológica

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