Tiro no Escuro*

Você utilizaria a engenharia genética para alterar o DNA (código genético) de seu futuro filho, diminuindo a probabilidade de ele contrair certas doenças, sem que estudos exaustivos, conclusivos e incontestáveis garantissem que esta intervenção não geraria uma anomalia posterior? Você não correria este risco, mesmo que a probabilidade positiva fosse dominante, para não se culpar pelo resto da vida por um efeito colateral imprevisto. A discussão sobre os transgênicos ou OGM (organismos geneticamente modificados) geralmente é reduzida a uma oposição radical aos avanços da ciência. O movimento ecológico amadureceu, sem abandonar o amor pela natureza e o respeito por cada forma de vida e de cultura; muitas foram eliminadas em nome do progresso sem limites e da produtividade a qualquer custo, que geram exclusão social, destruição das espécies, aumento da temperatura do planeta, desertificação e contaminação das águas.


Os ecologistas defendem tecnologias limpas, eliminação da fome e da miséria, despoluição, desenvolvimento de energias alternativas. Obtivemos importantes vitórias, como retirada do chumbo da gasolina, substituição do mercúrio na produção de cloro e soda, substituição do cancerígeno amianto, combate biológico às pragas (graças à Embrapa), substituindo os agrotóxicos, redução do enxofre no óleo diesel, uso do gás natural nos táxis (as empresas de ônibus resistem), implantação da energia solar e eólica.


A promessa dos OGM é aumento da produtividade, redução do uso de agrotóxicos e combate à fome, a partir de modificações do DNA de plantas, como a soja. As críticas são de quatro ordens: 1. domínio econômico de uma empresa, no caso a Monsanto; as sementes híbridas não se reproduzem e criam eterna dependência dos agricultores; 2. efeitos desconhecidos sobre a natureza; sabe-se da eliminação de borboletas e de insetos polinizadores, mudanças no teor de gordura no leite de vacas alimentadas com soja transgênica; 3. o ganho comercial que o Brasil obtém conquistando mercados para a nossa soja (como a China) que não aceitam OGM; 4. já temos capacidade de produzir o triplo dos alimentos necessários para alimentar todos os subnutridos do planeta; o problema é a má distribuição das terras, créditos, água, renda; o modelo Round-up/ Monsanto agrava os desequilíbrios de renda, a monocultura e a dependência tecnológica — vilões da fome e da pobreza.


Diante de tanta incerteza, a quem interessa liberar a toque de caixa o cultivo comercial dos OGM, retirando o poder do Ministério do Meio Ambiente de analisar os impactos ambientais e sociais deste negócio bilionário, que pesou mais do que as preocupações de agricultores, ambientalistas, exportadores e cientistas independentes?

*CARLOS MINC é deputado estadual pelo PT-RJ.

fonte:O Globo, Rio, 16 de Março de 2002

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