A Tecnologia da Morte, por Mauro Santayana

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Indústrias químicas vêem na morte
 o resultado de um processo lucrativo
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Com imagens de crianças sem olhos, sem braços, sem ouvidos, com a espinha dorsal dividida em duas, os membros atrofiados, o crânio piramidal, e relatos sobre recém-nascidos com órgãos genitais na face, volta aos jornais europeus a denúncia contra o mais nefando dos terrorismos. São milhares de seres humanos e, enquanto viverem e continuarem a nascer, representam o libelo mais ácido contra os piores terroristas do século 20: os senhores norte-americanos da guerra. Trinta e um anos depois da derrota dos invasores na batalha final de Saigon, os efeitos da dioxina usada no desfolhante [herbicida] agente laranja continuam na região que compreende áreas do Vietnã, Laos e Camboja. Os resíduos se entranham na terra e nas sementes das plantas, e os que as consumiram e consomem transmitiram e transmitem seus efeitos aos descendentes.

Matéria de José Reinoso, o enviado de El País, de Madri, ao Vietnã - publicada no último sábado - traz o depoimento seco, contundente de médico e dos pais de algumas dessas crianças. Um dos casais ouvidos teve todos os seis filhos horrivelmente deformados.

A história do desfolhante laranja começa na Segunda Guerra Mundial, quando os encarregados das armas químicas sugeriram seu emprego maciço sobre os arrozais japoneses. Ao saber do projeto, que mataria os inimigos de fome, Roosevelt - vítima de paralisia infantil - horrorizado, vetou-o, mas Truman, ao substituí-lo, mandou jogar a bomba atômica sobre Hiroshima.

Estimuladas pelo Pentágono, as maiores empresas químicas do país - tendo à frente a Monsanto e a Dow Chemical - passaram a pesquisar os efeitos do agente laranja contra os seres vivos, não só os da deformação genética, como também os da indução ao câncer. Em 1960, o glorificado presidente Kennedy autorizou o uso do produto no Vietnã.

Hoje, naquele país, além das crianças deformadas, a incidência de câncer de útero é 30 vezes maior que no resto da Ásia.

O Protocolo de 1925 - que integra os seculares acordos de Genebra sobre a conduta na guerra - proíbe rigorosamente o uso de armas químicas nas batalhas. A decisão foi tomada depois do emprego de gases mortais na Primeira Guerra Mundial. Mas 20 anos depois, os nazistas, para extermínio "limpo" dos judeus e outras etnias (incluída a "raça" dos comunistas) encomendaram à IG-Farben a produção do gás Zyklon B, usado em Auschwitz e em outros campos.

É emblemático que a indústria química - essa tentativa de criar uma prótese da natureza, mediante materiais novos, alguns que beneficiam os homens e outros, que os eliminam e os deformam - tenha surgido há menos de 200 anos, na Alemanha, onde o Iluminismo encontrou a perversão política.

Na liderança da civilização ocidental que começa a parecer submersa em nova barbárie, os Estados Unidos são os herdeiros da arrogância nazista. A IG-Farben - que nasceu para produzir anilinas - tem suas sucessoras na Monsanto e na Dow Chemical, orientadas pela mentalidade de que a morte pode ser o resultado de um processo técnico lucrativo, seja na produção de dioxina, ou dos transgênicos, obtidos mediante essa necrotecnologia que condena as sementes à morte, depois de duas ou três colheitas, a fim de que mantenham o monopólio de sua produção. Não lhes importa a possibilidade de que os transgênicos venham a matar os consumidores ou condenar as almas das crianças a habitar corpos deformados nas próximas gerações. O que importa é o preço de suas ações, os dividendos aos acionistas e elevada remuneração de seus quadros executivos

Fonte: Jornal do Brasil, 04/12/2006

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