ENTREVISTA/José Hermeto Hoffmann

"Governo não defende o consumidor"

O secretário gaúcho da Agricultura, José Hermeto Hoffmann, de 50 anos, é um rigoroso crítico do governo federal que, em sua opinião, não está defendendo os consumidores. "O consumidor tem o direito de saber o que consome", afirma. Natural de um distrito de Nova Petrópolis (atual município de Picada Café), casado e com três filhos, Hoffmann classifica de "absurda" a nota em que seis ministérios se manifestam favoráveis aos transgênicos. "A obrigação das autoridades públicas é de zelar pela saúde da população", adverte.Defende uma atitude de "precaução" por parte das autoridades, que a seu ver deveriam proibir os transgênicos, incluindo a moratória por cinco anos, na esteira de um movimento internacional. O ministro Pratini de Moraes, "pela veemência na defesa dos transgênicos, poderia ser um excelente ministro da Agricultura dos Estados Unidos, um dos principais produtores mundiais dos transgênicos", diz. Um dos líderes nacionais contra a presença de plantas geneticamente modificadas (GM) no Brasil, Hoffmann denunciou que "a multinacional Monsanto vem tentando seduzir os agricultores" com churrascos e visitas de campo.

Diz ainda que, depois que conseguir a liberação das sementes transgênicas no Brasil - ainda proibidas apesar da polêmica da semana passada -, a empresa transformará os produtores rurais em escravos. "Os contratos obrigam a aquisição de novas sementes todo ano e proíbem sua reutilização", alerta. Aí, acrescenta, ocorrerá aqui o que acontece nos Estados Unidos: "milhares de agricultores estão sendo processados pela Monsanto por causa disso".

Entrevista/José Hermeto Hoffmann

JOSÉ MITCHELL

- O alimento transgênico faz, mesmo, mal à saúde?

- O alimento transgênico não é um alimento de qualidade. Pesquisas mostram sua influência no aumento de alergias. A longo prazo, não existe comprovação científica de que o transgênico não faz mal ao ser humano. Portanto, as autoridades teriam que tomar uma atitude de precaução. Quando os Estados Unidos começaram a produzir alimentos transgênicos se dizia que não fariam mal à saúde. Num recente congresso realizado no Rio, o médico e deputado federal baiano Saulo Pedrosa, do PSDB, alertou que pesquisas americanas evidenciaram a crescente responsabilidade dos transgênicos em casos de câncer de fígado e pâncreas. Após a palestra fui cumprimentá-lo por sua coragem, apesar de ser deputado do partido do governo, e ele respondeu que sua primeira e principal responsabilidade era como médico.

- Existem pesquisas que mostrem os riscos dos transgênicos?

- Um pesquisador inglês mostrou um trabalho, comprovando que o DNA do gene modificado de alimento transgênico não se decompõe no aparelho digestivo dos insetos, portanto há o risco de manter-se em animais maiores e na população. É uma coisa gravíssima. E não se sabe seus reflexos futuros no organismo.

- Mas o governo federal defendeu os transgênicos...

- Foi uma nota absurda. É o desespero de autoridades submissas ao FMI tentando cumprir todas as suas ordens. Já aplicam aqui as privatizações, alteraram a legislação trabalhista, retiraram benefícios sociais, mas não conseguem obrigar o país a implantar os transgênicos, graças ao Judiciário e à luta de muitos.

- O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, afirma ser sandice considerar que o transgênico faz mal à saúde e alega que há uma questão ideológica, marxista?

- O ministro Pratini, pela veemência que defende os transgênicos, seria um excelente ministro da Agricultura dos Estados Unidos. Não é uma questão ideológica, mas de saúde pública. As autoridades têm de zelar pela saúde da população e são obrigadas a ter precaução em relação a produtos para os quais a ciência ainda não tem respostas definitivas. Quando ocorreu o caso da vaca-louca na Inglaterra, os cientistas garantiram que não atingiria o ser humano que consumisse a carne. O tempo mostrou que atingia pessoas. Se quando os cientistas têm certeza, a ciência pode errar, imagine quando não têm.

- Também se diz que as posições antitransgênicas, seriam provocadas porque são multinacionais, como a Monsanto, as detentoras da patente dos transgênicos...

- A Monsanto tenta agradar, seduzir os agricultores com churrascos e visitas no campo para tê-los ao seu lado na sua tentativa de introduzir os transgênicos no Brasil. Depois vai transformar estes mesmos agricultores em escravos, porque os contratos de compra obrigam a aquisição anual de sementes, proibindo o replantio. Nos Estados Unidos, milhares de agricultores estão sendo processados pela reutilização de sementes.

- Apesar de todas as discussões, o consumidor continua confuso sobre os transgênicos?

- É preciso um esclarecimento cada vez maior. Inclusive sobre a presença de 11 produtos que possuem transgênicos na sua composição, vendidos em supermercados, conforme descobriu o Idec. É o caso do Nestogeno que possui 8% de sua composição de transgênicos. Pergunte aos que defendem os transgênicos, se deixarão suas mulheres alimentarem seus filhos com um alimento transgênico.

- Mas o que as mães podem fazer?

- O próprio mercado, os consumidores, vão tirá-los das prateleiras porque os transgênicos serão rejeitados pelas mães. E serão substituídos por alimentos não-transgênicos. Se o governo tem tanta pressa em liberar os transgênicos, por que não tem a mesma velocidade na rotulagem destes produtos?

O consumidor tem o direito de saber o que consome.

- Caso a Justiça mantenha a proibição de plantar e comercializar transgênicos, o que deve ser feito para evitar problemas como a falta de milho para a avicultura?

- O governo precisa implantar políticas agrícolas, cuja inexistência é exatamente o motivo do problema. Políticas que permitam a auto-suficiência na produção de milho, não transgênico, já para a safra de 2001. Políticas de garantia de preço mínimo, de crédito, e que evitem esses riscos à saúde dos brasileiros. Por exemplo, o Bt do milho transgênico é uma bactéria e há pesquisas mostrando que ela leva à resistência a antibióticos.

- E se houver a liberação?

- Será um desastre, uma catástrofe. Sem falar em todos os riscos à saúde dos consumidores e ao meio ambiente, será um desastre para segmentos, como o avícola. O Rio Grande do Sul exporta 80% de sua produção de frangos para Europa, Japão e países árabes e perderia grande parte da clientela que faz questão de alimentos não-transgênicos. Os concorrentes de outros países ganhariam com isso, afastando as empresas e cooperativas brasileiras. A obrigação das autoridades é defender os consumidores e produtores nacionais.

- O Rio Grande do Sul tem assumido posições fortes contra os transgênicos, mas a maioria oposicionista na Assembléia Legislativa suspendeu o poder do estado de fiscalizar as plantações...

- Foi uma posição retrógrada, um desserviço à agricultura gaúcha. Estamos preparando uma ação direta de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) para retomarmos esta fiscalização. Se a ação não for julgada até o início da próxima safra de soja, tomaremos outras medidas. Vamos fazer todo o trabalho normal de fiscalização e interdição de áreas, se for o caso, com base na legislação de defesa ambiental. Esta área é uma das raras em que a Constituição permite aos estados serem mais rigorosos e restritivos do que a União. Vamos fiscalizar e garantir que o Rio Grande do Sul seja uma área livre de transgênicos.

- Há alguma medida mais próxima a ser adotada no Rio Grande do Sul?

- Estamos preparando uma série de medidas com o Ministério Público e Procon. Em outros estados, como Minas Gerais, existe legislação que obriga os supermercados a colocarem placas na entrada e nas gôndolas, alertando o consumidor de que ali estão alimentos geneticamente modificados. O consumidor terá a opção de saber, claramente, que para tais produtos a ciência ainda não tem respostas quanto à segurança alimentar. Vamos fazer isso aqui.

- E quanto à proposta de moratória, de suspensão do plantio dos transgênicos por cinco anos enquanto se realizariam novas pesquisas sobre a segurança?

- Apoiamos esta mobilização mundial que reforça a necessidade de comprovação paralela para o grave problema da contaminação de produtos limpos por lavouras transgênicas das proximidades.

- Há estudos comprovando isso?

- Sementes não-transgênicas de colza exportadas dos Estados Unidos para a Europa apresentaram em testes realizados na França fragmentos de transgênicos. As pesquisas mostraram que o cruzamento ocorreu por
polinização feita por insetos ou pela ação dos ventos, devido à presença de outra lavoura de colza, esta transgênica. Na Inglaterra, o cientista Andreos Heissenberger comprovou a existência de pólen geneticamente modificado em mel produzido próximo a lavouras experimentais de transgênicos. O cientista alemão Heinrich Kattz comprovou a transferência de genes de plantas transgênicas para outros seres vivos. Sem falar no lixo do Primeiro Mundo.

- Como assim ?

- A retração do mercado, crescentemente contrário aos transgênicos, deixou parte da produção americana sem destino. De forma supostamente benemérita, os Estados Unidos doaram 500 mil toneladas de alimentos transgênicos para a África, sob a alegação de minorar a fome. É o que se pode chamar de o lixo do Primeiro Mundo para os países subdesenvolvidos. Para estes países produtores de transgênicos e para autoridades brasileiras somos cobaias humanas, para testá-los. Daqui a alguns anos vamos saber se fazem mal ou não.

- Já há uma conscientização dos agricultores brasileiros quanto a estes problemas futuros para os consumidores?

- Fizemos e continuamos a fazer o nosso trabalho de esclarecimento junto ao meio rural e nas cidades e já temos bons resultados. Há uma crescente conscientização dos agricultores, que estarão do nosso lado na luta contra
os transgênicos. Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul mostrou que 71% dos consumidores estão dispostos até a pagar mais por não-transgênicos. Mas queremos alimentos não-transgênicos, com produtividade e bons preços. Já estamos vendendo muito para os europeus exatamente pela garantia de não-transgenia.

Jornal do Brasil - Domingo, 9 de julho de 2000

 

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