Alimentação: Transgênicos são o problema, não a solução

Por Julio Godoy, da IPS

Bonn, 26/05/2008 – A crise alimentar internacional levou alguns a proporem os transgênicos como solução. Mas isto renovou as advertências sobre seus efeitos negativos para a saúde e o meio ambiente. Muitas das preocupações foram apresentadas na cidade alemã de Bonn, onde se reuniram mais de três mil delegados de 147 países na IX Conferência das Partes (COP-9) da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), que começou na segunda-feira passada e terminará na próxima sexta-feira. O encontro pretende estudar formas para usar a biotecnologia com segurança.

Por outro lado, cientistas, agricultores e ambientalistas de vários países continuam alertando que os produtos geneticamente modificados apresentam um risco e não são uma contribuição para a produção de alimentos. Na França, agricultores se queixam que os cultivos com modificações genéticas contaminam os orgânicos. Juline e Christian Veillat, produtores de milho orgânico da localidade bretã de Villiers-en-Plaine, 400 quilômetros a oeste de Paris, afirmam que sua produção foi contaminada por transgênicos, apesar de a plantação mais próxima ficar a cerca de 35 quilômetros de distância.

O fato foi constatado em uma análise de rotina no final de abril por uma cooperativa agrícola da região onde os Veillat têm suas terras. Por essa razão, o milho orgânico agora só pode ser usado como forragem para o gado. Os Veillat iniciaram um processo legal contra o governo. “A contaminação só pode vir do milho transgênico”, disse à IPS um porta-voz da associação local contra a agricultura com modificações genéticas, George Castiel. O produtor de vinho orgânico da região francesa de Provenza, Jean-Pierre Margan, afirmou à IPS que a contaminação dos cultivos orgânicos é um problema permanente. “Partículas de transgênicos podem ser transportadas muito longe pelo vento e pela água e contaminar sua plantação, mesmo se você trabalhou duro para evitar qualquer risco”, explicou.

O vice-presidente do governo local da região de Poitou Charentes, Serge Morin, disse que é preciso que o “Estado revise seus procedimentos sobre os produtos com modificações genéticas, incluindo o fim imediato de todos os cultivos desse tipo feitos a céu aberto”. E acrescentou: “Além disso, todos os agricultores orgânicos cuja produção tenha sido contaminada deveriam receber indenizações”. Esses casos levaram números chefs e produtores de vinho a lançar uma campanha para evitar a propagação de bebidas e alimentos com modificações genéticas.

“Não temos competência cientifica para intervir no debate sobre as conseqüências na saúde dos produtos transgênicos”, diz a carta que dirigiram ao parlamento francês. “Mas, consideramos que, de acordo com o principio de precaução em matéria de alimento e saúde, os produtos geneticamente modificados devem simplesmente ser proibidos em nossas mesas”, acrescenta. Campanhas semelhantes acontecem em outros países europeus. Numerosos cientistas e ambientalistas dizem que independentemente das preocupações em matéria de saúde, os produtos com modificações genéticas tampouco são uma opção para a crise alimentar.

“A maioria das modificações feitas nos cultivos pretendem torná-los mais resistentes a pragas e ervas daninhas, mas, não objetivam um aumento na produção”, disse Hans-Joerg Jacobsen, biólogo da universidade alemã de Hanover. “As plantações modernas sem modificações genéticas têm maiores produções do que as sementes transgênicas”, afirmou. “A idéia de que os transgênicos possam contribuir para alimentar o mundo faz parte da propaganda que a indústria bioquímica utiliza há anos, mas, é falsa”, ressaltou Arnaud Apoteker, que lidera a campanha contra os produtos com modificações genéticas da organização ambientalista Greenpeace França.

Alguns representes da indústria bioquímica reconhecem isso. “Os cultivos transgênicos não resolverão a fome no mundo”, disse o diretor da área científica da gigante BASF, Hans Kast, ao jornal alemão Die Sueddeutsche Zeitung. Veja-se o caso da África, único continente que não produz alimentos suficientes para atender sua própria população, apesar de 70% de seus habitantes estarem empregados no setor agrícola. “Ao aplicar métodos de cultivos convencionais, sem modificações genética,s pode-se aumentar de forma substancial a produtividade agrícola na África”, disse à IPS o diretor da não-governamental Welthungerhilfe, Hans Joachin Preuss. “O que a agricultura africana mais necessita são melhores e mais eficientes sistemas de irrigação, não de sementes transgênicas”, ressaltou.

Mais de 114,3 milhões de hectares de transgênicos foram cultivados por mais de 12 milhões de agricultores”, segundo dados divulgados em Bonn por CropLife Internacional, federação que representa as corporações da indústria bioquímica. (IPS/Envolverde)

(Envolverde/IPS)

Fonte> Envolverde, 26/05/2008 - 10h05

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