Transgênicos: o que são?

Por João Rodrigues

ORGANISMO GENETICAMENTE MANIPULADO (OGM): ser vivo em cujo genoma foi inserido ADN de outra espécie (o gene estranho designa-se transgene). A manipulação genética é uma área de investigação de ponta (tem estado muito na berra a questão da clonagem de humanos) e oferece, sem dúvida, possibilidades exaltantes para o bem-estar da Humanidade (terapia genética, fabricação de tecidos biológicos, etc.) mas também levanta muitas questões.

Eles estão entre nós

É na agricultura que tem havido mais investimento nesta área. Mas os alimentos transgênicos assustam. 88% dos franceses afirmam-se inquietos face aos riscos eventuais ligados a estes produtos. E no entanto, num estudo da 60 Millions des Consommateurs, 9 em 45 alimentos analisados continham transgénicos, sem qualquer menção nesse sentido. Isto apesar do draconiano regulamento europeu da rotulagem, que obriga à menção específica «feito a partir de organismos geneticamente manipulados».

Foi a firma americana Monsanto quem primeiro conseguiu a permissão da Comissão Europeia para a exportação de soja transgênica para a UE, há 2 anos. Depois da colheita do Outono os cargueiros cruzaram o Atlântico, sendo-lhes negada a entrada em todos os portos europeus (apesar do parecer favorável da Comissão) até que vieram bater à nossa porta. Nós abrimo-la, por decisão da nossa ministra do Ambiente.

Atualmente é negada aos europeus a possibilidade de optar comer transgênico ou não, porque para um produto ser obrigado a ter no rótulo «contém OGM» é necessária a presença de proteínas transgênicas. Ora, as proteínas são alteradas durante o processo de transformação, podendo não ser detectáveis no produto final. Para os responsáveis da UE, só uma proteína pode ter efeitos prejudiciais à saúde, «nunca ninguém demonstrou que um pedaço de ADN possa provocar uma alergia».

No entanto 180 000 ton. de soja transgênica já entraram na Europa, a quase totalidade da qual nunca apareceu devidamente identificada nas prateleiras dos estabelecimentos. A soja é usada em 2/3 dos alimentos transformados, o milho em 1/3 (estes são os dois principais produtos transgénicos). Na produção americana de soja de 96 os transgénicos representavam 5% do total.

Este ano são 30%. E os americanos não fazem triagem, portanto o milho transgénico chega aos nossos portos misturado com o milho convencional. Separamos, não separamos? A manutenção de duas cadeias de transporte (com e sem OGM) do produtor ao consumidor seria muito cara. Face a isto, e como os nossos legisladores de Bruxelas prevêem que os OGM se tornem preponderantes no mercado, para um alimento possuir a etiqueta «não contém OGM» deverá ser essa empresa a fazer a triagem e comprovar a ausência de OGM, com elevados custos que recairão naturalmente no consumidor. Comer sem OGM, um luxo?

ÚLTIMAS NOTÍCIAS: O Supremo Tribunal Francês apelou ao Tribunal de Justiça Europeu para banir o milho Novartis (uma outra empresa). O milho Novartis foi modificado para alguns insetos ao produzir uma toxina de Bacillus Turingiensis e ser tolerante ao herbicida glufosinato. Também foi inserido na planta um gene de resistência ao antibiótico Ampicilina. Está provado cientificamente que o milho mata insetos benéficos e cria, nas pragas, resistência à toxina, usada como inseticida pelos

agricultores «orgânicos».

Sim ou não?

Os riscos ligados aos produtos geneticamente manipulados são de três ordens: saúde, agricultura e ambiente. Os riscos para a saúde são claros: se estamos a introduzir ADN bacteriano num tomate, como saber que este não vai produzir toxinas? Uma pessoa com alergia a morangos ao comer inocentemente uma cenoura pode estar a mastigar proteínas às quais é alérgica... Podem parecer pruridos exagerados, mas já aprendemos da maneira difícil que não se deve brincar com a ordem
natural das coisas. Alimentamos vacas com vacas e cariamos uma versão nova da Kreutzfeld-Jakob. A única maneira de evitar que tal se repita é ter cuidado e fazer as coisas às claras - no que respeita aos transgénicos nem uma coisa nem outra se tem verificado.
Para a agricultura os OGM não só não resolvem os problemas já existentes como os agravam. Pelas leis da Natureza a viabilidade de uma espécie depende da sua variabilidade genética. É esta que permite que o indivíduo responda a agressões inesperadas. Os OGM são, em contrapartida, estirpes de laboratório, de variabilidade muito restrita, com uma muito baixa plasticidade fenotípica. O tempo de vida de uma estirpe geneticamente manipulada é de 6/7 anos. Esse é o tempo que as pragas

demoram a adaptar-se às defesas da estirpe. Depois é preciso criar uma estirpe nova. Os OGM também agravam a dependência da agricultura face à indústria química, como a variedade de soja Round Up, da Monsanto, criada para resistir ao herbicida do mesmo nome da mesma empresa.

E se é assustadora, só por si, a perca de biodiversidade a que conduziu a agricultura moderna, de monocultura e de abuso de químicos que desregulam os ciclos naturais - que os OGM só vêm agravar - existem outras conseqüências, essas imprevisíveis.

É que os transgénicos agem, eles próprios, sobre o meio que os rodeia. Já foi comprovada a ocorrência de alterações na flora microbiana das raízes de transgénicos. E os OGM, uma vez soltos no mundo, porque é que não hão de evoluir à sua maneira? É muito provável que surjam espécies novas, na ausência de barreiras à polinização. Espécies super-resistentes, infestantes que não possamos travar...

Não devemos ser fanáticos. Anda por aí muita polemica, muita moral e muita religião à volta da manipulação genética. Por esses caminhos não me meto. Acho que devemos é ser um pouco desconfiados e ter a ética sempre presente. A biotecnologia não é, por si só, uma coisa má, mas as suas aplicações podem ser. E caso o sejam merecem sempre a nossa atenção e o nosso repúdio.

Se queres saber mais sobre o assunto www.igc.org é um bom sítio para começar.

Sementes do Mal

A FIRMA AMERICANA Monsanto, principal produtora de alimentos transgénicos a nível mundial, comprou recentemente a pequena Delta & Pine Land Co., que, em colaboração com o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, desenvolveu a Tecnologia Exterminador. Esta Terminator Technology permite alterar a planta de tal forma que as suas futuras sementes não germinem. Na prática o agricultor semeia (o cereal, por exemplo) e faz a colheita, mas as sementes recolhidas são estéreis.

Assim, não pode usar essas sementes para a plantação do ano seguinte, estando permanentemente dependente do fornecedor de sementes. Esta tecnologia foi desenvolvida com o objetivo prioritário de exportar sementes para os países subdesenvolvidos.

Mahyco Monsanto: de quem se trata afinal?

INDHANOOR, INDIA, 28 Novembro 1998 - Os agricultores de Karnataka queimaram um campo de teste ilegal da Monsanto. Esta forneceu a um agricultor local sementes de algodão transgênico (sem que ele soubesse tratar-se de um OGM) supostamente muito produtivo, para ser usado com os fertilizantes, pesticidas e inseticidas fornecidos pela mesma empresa. As plantas foram dizimadas por pragas, as elevadas doses de químicos contaminaram o solo e as plantas cresceram até metade da altura da estirpe convencional. Esta variedade claramente inferior polinizou as culturas circundantes, condenando a colheita de algodão do próximo ano em toda a região. A luta contra os testes e a empresa está a ser intensificada em todo o Estado.

Um caso semelhante ocorreu em Inglaterra, onde foi feita uma cultura experimental de plantas resistentes a herbicidas. Toda a cultura teve de ser destruída, depois de ter ocorrido a polinização de plantas próximas. Tal foi necessário pois poderia surgir uma nova espécie resistente aos químicos convencionais, com conseqüências terríveis para a agricultura. O Governo britânico está a considerar processar a Monsanto por contaminar o ambiente, visto que a barreira ao pólen por aquela colocada não obedecia às regras.

É talvez interessante conhecer as tácticas usadas pela empresa, para obter a permissão do Governo Canadiano, para a comercialização de uma hormonal bovina (rBGH) de crescimento recombinado. De acordo com um relatório do Governo Canadiano: estudos que mostravam a presença de efeitos adversos com possíveis impactos negativos na saúde humana foram ignorados; esconderam resultados desfavoráveis, compensando criadores de gado pelo aumento da conta do veterinário; não forneceram os resultados dos estudos preliminares ou a informação sobre onde foram conduzidos - os testes de toxicologia de longa duração não foram realizados; os cientistas responsáveis pelo relatório foram ameaçados de que «ninguém voltaria a ouvir falar deles» se não apressassem a aprovação de comercialização da rBGH, apesar da segurança para o ser humano não estar comprovada.

A Monsanto é também a criadora do Agente Laranja, descarregado durante a Guerra do Vietname pelo exército norte-americano. 12 milhões de galões de químicos despejados. 14% da floresta do Sul do Vietname destruída. A cadeia alimentar foi contaminada. Mesmo atualmente observam-se elevados níveis de dioxinas no sangue dos recém-nascidos. 70 000 deficientes físicos ou mentais, meio milhão de pessoas mortas ou afetadas por doenças graves devido aos bombardeamentos

químicos, que originaram um número de mortos e doentes graves superior a meio milhão de pessoas.

E no entanto... A Grã-Bretanha já interditou a utilização de culturas resistentes a insetos pelo menos nos próximos três anos, a resistência na Europa, no Brasil, nos próprios Estados Unidos está a aumentar; a Tecnologia Exterminador foi banida do programa de culturas da maior instituição internacional de pesquisa agrícola (CGIAR); as culturas transgênicas «resistentes» a várias pragas (e bem caras), em várias partes do globo, estão a revelar-se bastante frágeis, originando a revolta dos agricultores; o investimento na rBGH foi um fracasso, após quatro anos de intensa promoção apenas 4% das vacas americanas a usam; a Monsanto contratou os Pinkerton [agência de detetives e segurança, pioneira nos EUA] para perseguir mais de 1800 agricultores e negociantes de sementes nos EUA, para combater o roubo e pirataria de sementes. O gigante parece estar a vacilar, as ações da empresa caíram 30%, os prejuízos acumulam-se e os analistas financeiros prevêem bancarrota iminente.

Extraído do Jornal Diferencial - dif@alfa.ist.utl.pt