São Paulo e Curitiba, 8 de maio de 2000 - A revolução tecnológica dos transgênicos não se traduziu em aumento de produtividade de soja, pelo menos nos Estados Unidos. A última safra com produtividade recorde naquele país
foi a de 1994/95, com 2,78 toneladas por hectare, antes da introdução comercial dos grãos geneticamente modificados, em 1996. Segundo a Associação Brasileira das indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), em dez anos a produtividade norte-americana cresceu 7%, para 2,45 toneladas por hectare. No mesmo período, a produtividade brasileira subiu 49%, para 2,36 toneladas o hectare.

Segundo Antonio Sartori, corretor da Brasoja, do Rio Grande do Sul, o desempenho da safra norte-americana de 1994/95 deveu-se principalmente a condições climáticas ideais. 'Houve ganho de produtividade porque o clima
permitiu o maior enraizamento da planta

Segundo uma fonte do mercado, alguns produtores norte-americanos afirmam que obtiveram rendimento maior das lavouras transgênicos, enquanto outros dizem que registraram perdas. A Monsanto, empresa que lidera o mercado de soja modificada com a semente resistente ao seu herbicida Roundup Ready, informa que a soja transgênica melhora o controle de ervas daninhas e a conservação do solo, com rendimento de 5% a 8% maior, colhendo 134 quilos de soja a mais por hectare, segundo pesquisa da Universidade norte-americana de Minnesota.

A tendência, nos Estados Unidos, porém, é de ligeira redução da área nesta safra com transgênicos diante da resistência dos mercados consumidores da Europa e Japão. 'A vantagem que o transgênico traz para o produtor não é produtividade maior, mas redução de aplicação de herbicidas', diz um técnico brasileiro.

Para César Borges presidente da Abiove, é importante observar que o crescimento da produtividade é particularmente significativo no Mato Grosso, que deve alcançar novo recorde nacional com rendimento de 2,9 toneladas por hectare na safra atual, 3,6% acima das 2,8 milhões de toneladas da safra anterior.

A produção deslocou-se do Sul para o Centro-Oeste, a partir de meados da década de 80, diz Antonio Carlos Roessing, pesquisador da Embrapa Soja, em Londrina (PR). Isso contribuiu para melhorar o rendimento da soja, aliado ao desenvolvimento de novas variedades mais resistentes a pragas e doenças.

Atualmente, no País devem existir mais de 200 variedades de soja, das quais cerca de 40 cultivares respondem por aproximadamente 80% da área plantada. O material desenvolvido pela Embrapa corresponde a 60% do utilizado no plantio.

Segundo o pesquisador da Embrapa-Soja, na década passada o Brasil registrou aumento de produtividade em torno de 5% ao ano em média, não sendo igualado por nenhum outro país em qualquer cultura, porque 'estávamos em um patamar muito baixo'.

A melhoria da média de produtividade brasileira, segundo o pesquisador, ocorrerá com tecnologia. No entanto, devido à pequena margem de ganho, só a produção em escala viabiliza o cultivo de soja com a adoção de tecnologia de ponta. Por isso, as pequenas propriedades tendem a sair da produção cada vez mais. Roessing aposta que, no Paraná, onde o plantio direto predomina em 80% da área de soja, haverá aumento da produtividade. Ele prevê que no Centro-Oeste a produtividade média, em pouco tempo, deverá superar três
toneladas por hectare.

Otmar Hubner, agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura, diz que a tendência no Paraná também é de a produtividade chegar a três toneladas por hectare nas próximas safras por causa do nível de tecnificação do campo - conservação de solo em 100% das lavouras e plantio direto - e do material genético cada vez mais eficiente.

Segundo Hubner, o agricultor convencional está cedendo lugar ao empresário rural, que busca viabilizar economicamente a propriedade com tecnologia. Ele entende que a tecnificação contribuiu para evitar que a seca provocasse prejuízo maior nesta safra. O Paraná perdeu 650 mil toneladas de soja por falta de chuvas, reduzindo a safra a 7,15 milhões de toneladas, o que lhe tirou a liderança da produção nacional. 'Se as lavouras não fossem tecnificadas, a perda teria chegado a 25%', segundo Hubner.

O agricultor Mário Sossela Filho, que administra a Fazenda Iguaçu, em Céu Azul, no oeste do Paraná, diz que a quebra de produção na propriedade foi de 20%. Ao final da colheita, ele obteve produtividade de 3,13 toneladas, 16% abaixo da expectativa inicial de 3,73 toneladas por hectare. Na safra anterior, colheu 3,42 toneladas por hectare.

Como a meta é elevar cada vez mais a produtividade, Sossela Filho diz que tem sido investido pesado em tecnologia, a começar pela adubação, com formulação especial de micro e macronutrientes, com volume de 413 quilos do produto por hectare, que custaram R$ 248.

O custo de produção por hectare é de 2,18 toneladas. 'Mas só se garante produção com tecnologia', diz. A meta da Fazenda Iguaçu é chegar a 4,46 toneladas por hectare.

O agrônomo e produtor Jonas Mário Vendrúscolo, de Palotina, no oeste do estado, mesmo com a seca conseguiu elevar em 5% a produtividade ao colher 3,84 toneladas por hectare, em relação à média dos últimos cinco anos.

A melhoria da produção, segundo o agricultor, é conseqüência de fatores como plantio direto, rotação de cultura, adubação equilibrada, densidade de plantas por área e cultivar adaptado à área, entre outros. 'Tudo isso depende da aptidão técnica do produtor', afirma.

Fonte: Gazeta Mercantil S/A em 08/05/2000 por Ellen Cordeiro e Sílvio Oricolli

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