Relações perigosas

Diante da escolha dos cientistas que irão compor a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, diversas entidades, sob a capa de caráter científico, financiadas ou apoiadas por multinacionais do setor, têm se dedicado ao lobby em Brasília. Conheça algumas delas

por JEAN MARC VON DER WEID

Desde julho um amplo grupo de entidades da sociedade civil (organizações de consumidores, de ambientalistas e dos movimentos sociais do campo), preocupadas com os rumos do debate interno no governo a respeito da regulamentação da Lei de Biossegurança, vem pedindo uma audiência com a toda poderosa ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, sem receber qualquer resposta. No entanto, a ministra recebeu um grupo de cientistas que foram pressionar para uma imediata assinatura do decreto de regulamentação e, é claro, por uma regulamentação que facilite a rápida liberação comercial dos transgênicos.

A caravana foi organizada, ao que se sabe, por Aluízio Borém, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e conselheiro do CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia). Mas quem custeou as passagens e demais gastos? Será que foi a Universidade? Será que foram os cientistas do próprio bolso? O fato preocupa neste momento porque está em discussão o decreto de biossegurança e a composição da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).

Fatos como esse e a atuação de organizações "científicas" colocam em debate quais serão os cientistas escolhidos para integrar a Comissão que irá avaliar a biossegurança dos transgênicos e de que forma serão escolhidos.

Diversas entidades, sob a capa de caráter científico, financiadas ou apoiadas por empresas de biotecnologia (Monsanto & cia) têm se dedicado ao lobby pró-liberação de transgênicos. Foi assim na aprovação da Lei de Biossegurança e prossegue assim na regulamentação da Lei. O CIB foi fundado e é financiado diretamente por um conjunto de empresas multinacionais, entre elas a Monsanto e a Syngenta. A Anbio (Associação Nacional para a Biossegurança) tem entre seus sócios corporativos e institucionais a Monsanto, a Cargill, a Pionner Sementes Ltda, a Bayer Seeds Ltda, entre outras. Merece menção ainda uma organização não-governamental chamada Pró-Terra, a Associação Brasileira de Tecnologia, Meio Ambiente e Agronegócios, que tem como empresa associada a Monsanto e tem como coordenador de comunicação e de seu boletim Aluízio Borém.

Até há pouco, constava como conselheiro do CIB o advogado Beto Vasconcelos. Em 1999, ele tinha procuração, com outros advogados, para defender os interesses da Monsanto em escritório de São Paulo. Depois de atuar no Ministério da Justiça, Vasconcelos bem recentemente mudou-se para a Casa Civil. Tem participado ativamente do processo de regulamentação da Lei de Biossegurança. O escritório de advocacia KLA, do qual está licenciado, é associado ao CIB.

Vasconcelos trabalha junto com outro advogado da Casa Civil, Caio Bessa Rodrigues, outrora advogado da área de Assuntos Regulatórios e Relações Governamentais do Pinheiro Neto - Advogados em Brasília. Este famoso escritório paulista tem como um de seus clientes a Monsanto e participou de diversos aspectos da regulamentação de transgênicos no Brasil, como por exemplo da Resolução 305/02 do CONAMA. Rodrigues também teve parte ativa na discussão do decreto de regulamentação da Lei de Biossegurança.

Luiz Antonio Barreto de Castro é outro conhecido defensor de transgênicos. Este senhor é membro da Anbio e é o novo secretário de Política e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia. Não consta em seu currículo na página na internet do MCT, mas ele foi o primeiro presidente da CTNBio e ocupava o cargo em 1998, quando foi decidida de forma açodada e contra avaliações de dois renomados especialistas da Embrapa a liberação comercial da soja transgênica da Monsanto. Teme-se que ele tenha papel de destaque na escolha dos cientistas que vão compor a nova CTNBio.

Vale mencionar o alerta do geneticista canadense David Suzuki, entusiasta da engenharia genética, que declarou: "o que me incomoda é que temos governos que deveriam estar zelando pela nossa saúde e pela segurança do nosso meio ambiente e que atuam como torcida organizada para esta tecnologia que está ainda na sua infância e nós não sabemos o que pode provocar" (...) "Qualquer pessoa que diga que os transgênicos são perfeitamente seguros é inacreditavelmente estúpido ou está mentindo deliberadamente. A realidade é que nós não sabemos. As experiências simplesmente não foram feitas e nós agora viramos cobaias". (em 26/4/2005, em entrevista ao The Leader Post).

É por essas e outras que a visita da comitiva de cientistas à Casa Civil causou certa apreensão. O jornalista Cláudio Humberto, em nota divulgada 29/02/04, já chamava atenção sobre a composição da CTNBio: "A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio, do Ministério da Ciência e Tecnologia, tem tantos representantes de empresas e cientistas pendurados em verbas de multinacionais, como a Monsanto, que ganhou apelido de pesquisadores independentes: CTNBingo!

Jean Marc von der Weid é coordenador do Programa de Políticas Públicas da ONG AS-PTA e membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável/MDA.

Fonte:Agência Carta Maior, 9/11/2005.

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