A EUFORIA COM OS TRANSGÊNICOS


Vivemos hoje uma euforia com os trangênicos. Agricultores, a maior parte da comunidade científica, a mídia, governos, e até setores não diretamente relacionados cantam maravilhas sobre esta tecnologia. E chegam a menosprezar e até acusar de inimigo do progresso quem ouse duvidar de que a transgenia só trará benefícios, uma vez que, na sua visão, daí outra coisa não pode sair. É uma onda avassaladora contra a qual nenhum argumento parece ser bom o suficiente.


Na cena agrícola, uma situação como esta só ocorreu uma vez. A situação foi igual a esta quando foram lançados os agrotóxicos. A euforia era tanta, que demonstrações públicas eram feitas, inclusive combatendo parasitas de pessoas, e faziam-se discursos de que agora seria possível aumentar a produção de alimentos e sonhar com o fim da fome. Não havia a menor chance de alguém duvidar disso. Uma nova era estava começando, e só se viam grandes benefícios para a humanidade à frente. O DDT era jóia da coroa naqueles tempos.


Levou muito tempo antes que os malefícios dos agrotóxicos fossem aceitos pela comunidade científica, e seus efeitos colaterais começassem a ser estudados. O que a ciência desde então descobriu, permite dizer que não é certo se os agrotóxicos causaram mais bem ou mais mal. Um estudo publicado na revista científica Biosciense em 1992, por exemplo, revelou que o estado gastava o dobro recuperando danos causados pelos agrotóxicos, do que os agricultores norte-americanos comprando os mesmos. Só para curar câncer e em internações hospitalares por intoxicações eram gastos cerca de 800 milhões de dólares anuais. Crianças que nascem deformadas, agricultores que acabam depressivos, muitos dos quais se suicidam, contaminação das águas, da atmosfera, inclusive depauperamento da camada de Ozonio, eliminação de animais e, principalmente, de insetos úteis e de importância no equilibrio ecológico, entre outras coisas, há décadas vem sendo considerados um pequeno preço a pagar pelo progresso. Nem se cogitou e nem se cogita de um outro caminho. A não ser uma pequena parte da comunidade científica, que efetivamente se engajou na busca de alternativas, a ciência nada fez para mudar esta tragédia, com a qual passamos a conviver. Uma vez que continuamos a viver, embora muitos sofram, e os negócios vão bem, convivemos com o problema, não ganhamos força para resolvê-lo. Nada fazemos para resolve-lo, a não ser com paliativos.


Hoje, no entanto, uma parcela crescente da população está resolvendo este problema. Passam a consumir produtos da agricultura orgânica, que produz em harmonia com a natureza. Mas uma parcela ainda maior refuta os alimentos transgênicos, parcela esta muito significativa, entre 25 e 50% da população em alguns lugares. Estes desconfiam da ciência, por isso não aceitam este novo produto que ela oferece. E não se vê em nenhum lugar os cientistas preocupados com esta perda de credibilidade, e isto é o mais preocupante. A quem interessa o descrédito da ciência? Mas é o que demonstram os que não querem consumir transgênicos.


Como garantir que não vai acontecer com os transgênicos o mesmo que aconteceu com os agrotóxicos, ainda que com repercussões diferentes? Quem sabe, diferentes e piores? Mas novamente a euforia pelas possibilidades de negócios afastam qualquer prudência. Desta vez, no entanto, se algo sair errado e só for descoberto tarde demais, o dano poderá ser ainda maior, e afetará a própria ciência. Será que adianta alertar? Ou seremos considerados meramente presunçosos?


* Marco Antonio Hoffmann Presidente do Gesp/AT e Diretor da Sustentagro Ltda


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