Transgênicos: uma questão cultural


 
Decisão de consumir OGMs é mais ideológica do que científica, defende pesquisador durante a 59ª Reunião Anual da SBPC

Thaís Fernandes escreve para o JC e-mail:

O debate sobre a regulamentação da comercialização de organismos geneticamente modificados (OGMs) envolve a necessidade de definir e rotular esses produtos. Mas, na prática, o que vai influenciar a decisão da população de consumir ou não esses alimentos não é sua composição, e sim o posicionamento ideológico do consumidor. Na opinião do engenheiro de alimentos Luiz Eduardo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os transgênicos só ganhariam mercado se oferecessem uma boa vantagem em relação aos produtos tradicionais.

“Não se pode regular alimentos pensando apenas em seus aspectos nutricionais e químicos, porque há outros fatores que se destacam mais para o consumidor”, disse Carvalho, que é pesquisador da Faculdade de Farmácia da UFRJ, durante a Reunião Anual da SBPC. Segundo ele, a comida é um fenômeno mais cultural que bioquímico. “Decidir o que se quer comer é uma atitude política e ideológica; não interessa se faz mal ou não”, avalia.

Para Carvalho, o consumidor tem o direito de saber de onde vêm os alimentos para escolher seu cardápio, o que não está sendo permitido com a legislação atual brasileira. Por isso, é necessário rotular os alimentos derivados de organismos geneticamente modificados. “O problema é que não dá para rotular algo que ninguém sabe o que é.”

O pesquisador conta que a própria definição usada pelo governo tem variado. No governo de Fernando Henrique Cardoso, seria rotulado como transgênico o alimento que tivesse mais de 4% de componentes transgênicos em sua composição. Depois, no governo Lula, uma nova regulamentação reduziu esse valor para 1% no produto final, e não em cada ingrediente.

“O resultado é que uma salsicha de soja com 2% de grãos geneticamente modificados não era considerada transgênica no governo FHC e passou a ser no governo Lula. E outra que levava 1,5% de soja em sua composição, com metade dessa quantidade composta por grãos geneticamente modificados, era transgênica no governo FHC e deixou de ser no governo Lula.”

Definição de caráter político

Segundo o engenheiro, a definição do que é transgênico é uma decisão política – o objeto é que é científico. Ele propõe que a definição inclua não apenas os alimentos que contenham genes modificados, mas também os produtos extraídos de organismos geneticamente modificados, mesmo que o gene não esteja mais presente. “Se essa definição fosse aceita, teríamos que rotular todo óleo de soja como transgênico.”

Carvalho acredita que os alimentos transgênicos só ganhariam espaço no mercado se representassem alguma vantagem para o consumidor, o que não acontece. “A redução de custo não é suficiente para as pessoas mudarem sua opção de consumo; ela só é significativa para o produtor”, destaca.

O engenheiro também refuta outras vantagens anunciadas em relação à liberação dos transgênicos. “Ela não vai acabar com a fome no Brasil. Ao contrário, vai gerar desemprego, pela crescente substituição de trabalhadores por máquinas nas plantações, e transferência de renda e patrimônio para grandes corporações.”

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC©2002

Fonte:JC e-mail 3305, de 13 de Julho de 2007 - Notícias


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