Contra-revolução biotecnológica

MARCELO LEITE, COLUNISTA DA FOLHA

Viciado como é em meia dúzia de periódicos de alto impacto e nos estudos que deixam a pesquisa tecnocientífica bem na fita, o noticiário sobre ciência passou reto por um artigo da maior importância. Saiu na edição de novembro da revista "Trends in Biotechnology", com um título bem direto: "O Mito da Revolução Biotecnológica".

O trabalho de Paul Nightingale e Paul Martin pode ser baixado do seguinte endereço: web.cbs.dk/centres/biotech/documents/pn_ nov25.pdf. Com fleuma britânica, põem o dedo na ferida: "Neste artigo de opinião, argumentamos que o modelo "revolução biotecnológica" de mudança tecnológica não tem apoio na evidência empírica".

Por "revolução biotecnológica" Nightingale e Martin -N&M, para encurtar- entendem toda a propaganda (o termo não é deles) que tem cercado a divulgação de pesquisa básica no campo da biomedicina, com destaque para o Projeto Genoma Humano, nos últimos 4 ou 5 anos. A noção predominante entre pesquisadores, empresários e governos era que saltos revolucionários seriam dados, e logo, no processo de descoberta de novos remédios.

Basta um pouco de sobriedade para reconhecer que a admirável nova medicina não está nem mesmo à vista. N&M ancoram essa percepção crítica com as ferramentas da própria pesquisa acadêmica, dados: as licenças para novos princípios ativos de biofármacos nos EUA vêm caindo desde 1996, e não aumentando.

N&M vão além. Como o investimento em pesquisa e desenvolvimento das indústrias farmacêuticas foi multiplicado por dez, e o de patentes obtidas, apenas por sete, na realidade estaria ocorrendo uma queda da produtividade no setor. Eles se apressam a negar que estejam minimizando a importância das transformações ocorridas na pesquisa básica com o advento da genômica: seu alvo é a noção simplista de que dela decorreria uma revolução.

Parece familiar? No Brasil, muita gente acha que os feitos da agrogenômica já estão revolucionando a cultura da cana, da laranja e do eucalipto. O que N&M afirmam é que esses frutos virão, sim, um dia, mas seguindo padrão -lento, trabalhoso, incremental- da inovação.

Na sua opinião, o modelo revolucionário se disseminou porque servia melhor aos interesses dos atores. Em suas palavras: "Ninguém vai investir numa companhia "start-up", ou numa empreitada como o Projeto Genoma Humano, se não acreditar genuinamente que tenha potencial para colher retornos significativos numa escala de tempo definida".

fonte - Folha de São Paulo , domingo, 12 de dezembro de 2004 em Ciencia em Dia

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