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Transgnicos - Organismos Geneticamente Modificados
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| Entrevista Angela Cordeiro (Porto Alegre, junho de 1999) |
Transgnicos: Tcnica X tica |
| Essa entrevista foi publicada em: Polticas Ambientais, 7/21. Rio de Janeiro, IBASE, 1999:6-7. |
| ngela Cordeiro engenheira agrnoma, formada pela UFRRJ, e mestre
em Uso e Conservao de Recursos Genticos pela Universidade
de Birmingham, Inglaterra. Atualmente consultora da EMATER do Rio
Grande do Sul. Entrevistadoras: Renata Menasche e Isabel Carvalho A restrio desta discusso ao plano da tcnica deve-se ao fato deste tema estar sendo construdo na opinio pblica como um tema de especialistas. Ento preciso ser um doutor em gentica molecular pra poder opinar sobre o assunto. Nessa perspectiva, o cidado comum no teria autoridade pra intervir no debate. Esse argumento da autoridade tcnico-cientfica tem sido muito utilizado por quem defende os transgnicos, e termina inibindo cidados, e mesmo pesquisadores de outras reas, de opinarem. Em outros campos esse argumento j foi superado. Por exemplo, sabemos que no foi preciso a chancela de especialista em fsica nuclear pra que as sociedades exercessem seus direitos de cidadania e se posicionassem sobre o uso da energia atmica. Do mesmo modo, no necessrio ser especialista em gentica molecular pra emitir uma opinio sobre os transgnicos. Afinal, as decises em torno desta tecnologia diz respeito a todos. O que est em jogo uma deciso que implica assumir impactos de alto risco sobre um patrimnio coletivo que o meio ambiente. No caso dos alimentos, esta deciso diz respeito diretamente a toda a populao que est envolvida tanto na produo quanto no consumo desses alimentos. Entrevistadoras: Do ponto de vista da cidadania (direito de uma vida
saudvel/qualidade de vida) e da sustentabilidade scio-ambiental,
quais voc acha seriam os critrios mais adequados para avaliar as
decises que envolvem alimentos transgnicos e a prpria tcnica da
transgenia? Tem que se levar em conta que a tecnologia da transgenia uma tecnologia de vida curta, de sustentabilidade zero. O que vai acontecer com essa soja transgnica Depende muito das espcies, mas o clculo que se faz na gentica que em 5, 6 geraes se mantm a resistncia a herbicida. H 10 anos atrs, se acreditava que a resistncia de plantas a herbicidas fosse uma coisa muito rara, e que durasse muito tempo. Nos ltimos 10 anos, um centro de pesquisa dos EUA j catalogou 216 espcies que, no mundo inteiro, desenvolveram resistncia a herbicida. Isso um processo de melhoramento prprio da planta: no nem necessrio cruzar com planta transgnica, s aumentar a exposio a determinado produto, simples, algumas plantas vo sofrer mutao e vo gerar descendentes... daqui um tempo no funciona mais! A o agricultor vai ter que voltar a usar o pacote de herbicidas, e com um agravante: vai estar com uma populao de plantas muito resistentes, vai ter que utilizar altssimas dosagens. Ento uma tecnologia de baixssima sustentabilidade. Numa perspectiva mais moderna, da gentica aplicada sustentabilidade, voc tem que trabalhar com a interao gentica-ambiente, e isso est sendo discutido teoricamente no campo do melhoramento vegetal, hoje est colocada a discusso do melhoramento participativo, s que isso no tem visibilidade dentro do campo cientfico. Tem muita gente que trabalha com engenharia gentica, que tem formao em gentica, mas que no conhece agricultor. Se voc conversar com melhoristas, vai encontrar muitos crticos transgenia, eles conhecem as plantas, trabalham com isso a vida inteira. O enfoque reducionista da transgenia se torna o discurso competente, como se refletisse todo o universo da cincia agrcola, o que no verdade. Com relao proposta do governo do Rio Grande do Sul, de tornar
o estado zona livre de transgnicos, esse um projeto muito grande.
a primeira iniciativa dessas no mundo, ningum nunca fez, a gente
no tem de quem copiar, ento tem um campo a de pensar e de criar
muito grande. E como esse projeto muito transversal, passa por muitas
reas. Temos que pensar desde a parte de legislao, pr poder operacionalizar
a zona livre. A gente tem que pensar no sistema da zona livre, quer
dizer, como vamos monitorar isso. As pessoas querem saber, por exemplo,
como o Estado vai impedir a entrada dessas plantas da Argentina, que
contaminam as nossas lavouras. Toda essa parte de monitoramento
muito recente, no h nada no Brasil, vamos ter que comprar tecnologia
de fora, o que significa pagar royalties, e como uma coisa que ainda
est em desenvolvimento, h muitos procedimentos que ainda no esto
definidos, a gente vai ter que se colar em que est na ponta. Mas
eu acredito que, tomada a deciso, possvel fazer do estado zona
livre de transgnicos. E essa uma forma mais barata - alm de conferir
maior credibilidade - de garantir produtos no transgnicos do que
a forma que esto pensando no Paran, onde pretendem integrar agricultores
que vo produzir no transgnicos para exportao. E tambm a zona
livre o marco da proposta do Estado, simboliza que no s produzir
no transgnicos prs vacas europias, mas pensar no ambiente e no
consumo daqui, esse um elemento importante dessa proposta, ningum
est pensando s num bom negcio, embora esse seja um bom argumento,
mas a questo de fundo de outra natureza, o que permite tambm uma
srie de relaes interessantes. Por exemplo, relaes dos consumidores
europeus com os agricultores daqui, relaes de solidariedade, o lado
bonito da globalizao, a globalizao solidria. Vai ser uma experincia
muito interessante, mas que exige muito, porque tem que fazer bem
feito. |
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