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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 400 - 04 de julho de 2008

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Esta semana o Secretário de Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano, publicou artigo em sua coluna no Estado de São Paulo (01/07) defendendo a tese de que os transgênicos reduzem o uso de venenos na agricultura. O texto teve como objetivo rebater as informações contra os transgênicos apresentadas por João Pedro Stédile, do MST, em entrevista recente ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes.

Para Graziano, “Inúmeras pesquisas de campo, realizadas por entidades públicas, indicam que, efetivamente, ocorre redução dos pesticidas nas lavouras transgênicas. No Brasil e na Argentina, a soja configura o caso mais estudado. Na China, na Índia e na Austrália, o algodão se destaca nos estudos agronômicos. Basta consultar a Embrapa. Lá se encontra conhecimento técnico, não grito ideológico.”

Enviamos uma mensagem eletrônica ao articulista pedindo as referências das tais pesquisas realizadas por entidades públicas. A resposta recebida foi: “Dez minutos de Google o informarão fartamente. Sobre algodão, vá a Primavera do leste e veja ao vivo.”

De 2000 a 2004, o consumo de glifosato [ingrediente ativo do agrotóxico aplicado na soja transgênica] cresceu 95% no Brasil, enquanto a área plantada de soja avançou 71%, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). No Rio Grande do Sul, principal pólo nacional de soja transgênica, o consumo de glifosato cresceu 162% e a área total, 38% (Valor Econômico, 16/11/2006).

Meses depois, também com bases em dados oficiais, o mesmo jornal relatou que a disseminação do plantio da soja transgênica no país tem provocado uma forte elevação no uso de agrotóxicos nos últimos anos. Dados do Ibama mostram que entre 2000 e 2005, no Rio Grande do Sul, primeiro Estado a plantar transgênicos, o consumo de glifosato cresceu 85%. O valor ficou bem acima da expansão da área plantada (30,8%) e desproporcional em relação a outros herbicidas. No Paraná, o crescimento dos agrotóxicos foi de apenas 6,8% no mesmo período (Valor Econômico, 23/04/2007).

Até a indústria já reconhece que a adoção de plantas transgênicas leva a um aumento do uso de venenos. Em artigo publicado na revista Ethical Corporation, uma porta voz do EuropaBio, grupo de lobby da indústria biotecnológica, admitiu que “os cultivos Roundup Ready levaram as plantas invasoras a se tornarem resistentes ao Roundup, o que resultou em maiores aplicações do produto, comumente em combinação com outros químicos”.

Para citar a Embrapa, um estudo recente de pesquisadores da unidade de Jaguariúna - SP listou nove espécies de plantas capazes de driblar o glifosato. Quatro delas já desenvolveram resistência ao veneno nas lavouras brasileiras de soja transgênica e apresentam “grande potencial de se tornarem um problema”.

A base de dados internacional sobre plantas espontâneas (www.weedscience.org) registra 13 espécies resistentes ao glifosato, com sua maior parte ocorrendo em áreas cultivadas com plantas transgênicas resistentes ao glifosato.

Na prática, a coisa funciona como explica em entrevista ao programa Globo Rural (14/01/2007) um agricultor de Vacaria (RS) que cultiva soja transgênica: “Tivemos problemas com o glifosato de um litro e meio por hectare. A gente viu que ficou alguma mancha na lavoura, reaplicamos e mesmo assim não controlou. Aí tivemos de trocar o produto”.

Os herbicidas que vêm sendo usados para substituir o Roundup são o 2,4-D (que dá origem às dioxinas, conhecido grupo de compostos carcinogênicos), paraquat (associado ao aumento dos riscos de desenvolvimento de mal de Parkinson) e atrazina (proibido na Europa).

Nossos 10 minutos de internet ainda mostraram que o lucro da Monsanto [que tem 90% do mercado de glifosato no Brasil] cresceu 42% no 3º trimestre fiscal deste ano, com as vendas do herbicida Roundup e de outros herbicidas à base de glifosato disparando 54% (Agência Estado, 25/06/2008), e que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) barateou a importação de glifosato da China, reduzindo de 11,7% para 2,9% a tarifa antidumping aplicada ao produto (Agência Estado, 03/07/2008).

Graziano também não comentou em seu artigo o crescente problema da contaminação provocada pela soja transgênica, que vem causando prejuízos a produtores orgânicos e convencionais. (Assista entrevista com agricultor orgânico do Paraná que teve sua produção contaminada)

Para quem não for do Mato Grosso e não puder ir ao estado observar o uso de agrotóxicos ao vivo, vale a pena conferir a série de reportagens feita pela Radiobrás: http://www.radiobras.gov.br/especiais/agrotoxico/.

Boletim

Hoje completamos 400 edições deste Boletim! São quase 9 anos denunciando a farsa da indústria da biotecnologia, revelando a submissão dos governos frente ao lobby e informando criticamente a população.

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Neste número:

1. Soja transgênica brasileira preocupa, diz UE
2. Continua a concentração no agronegócio: Bunge compra a Corn Products
3. Ativistas destroem lavouras experimentais transgênicas na França
4. Embrapa lança duas variedades de soja transgênica

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Agroflorestas sucessionais no manejo de plantas espontâneas na Amazônia, por Nicole Rodrigues Vicente

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1. Soja transgênica brasileira preocupa, diz UE
O Brasil poderá ter problemas para exportar soja transgênica para a União Européia no futuro próximo. A comissária para Agricultura do bloco, Mariann Fischer Boel, aponta que há sinais preocupantes de que variedades de organismos geneticamente modificados não aprovados pela UE começaram a ser usados nas plantações da soja brasileira. “Nada aconteceu ainda, mas pode acontecer”, diz o porta-voz da comissária, Michael Mann.

O uso de transgênicos já é muito contestado na Europa e divide seus países-membros. É por isso que a aprovação de novas variedades pela agência responsável, a EFA, tem demorado tanto tempo, cautela que reflete uma preocupação política no bloco. (...)

Em Brasília, o vice-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edilson Paiva, disse não entender a declaração da comissária. Isso porque o único plantio comercial permitido no país é o da variedade RR, da Monsanto, aprovada em 1998 e exportada inclusive para a UE. Os demais experimentos têm fins de pesquisa, longe de aprovação comercial. O Brasil tem 60% de sua produção de soja transgênica.

Fonte:
Valor Econômico, 04/07/2008.

N.E.: As autoridades brasileiras lidam com a liberação dos transgênicos como se não soubessem que o País depende da exportação de produtos agrícolas e que alguns de seus maiores importadores rejeitam esses produtos. Não só é óbvio que se começarmos a produzir transgênicos não autorizados na Europa teremos problemas para exportar, como a Europa está avisando. Ainda assim, o presidente da CTNBio tem a arrogância de dizer que “não entende” a declaração da comissária.

O mesmo se poderia dizer sobre a recente aprovação de três variedades de milho transgênico no Brasil, sendo uma delas proibidas em 6 países europeus. O milho é ingrediente usado nas rações de aves, que hoje estão entre os principais produtos de exportação. É evidente que a alimentação transgênica dos frangos afetará as exportações da carne para a Europa, mas as autoridades brasileiras parecem não se preocupar. Dirão depois não entender os motivos da dificuldade em exportar?

Sobre o recente debate s respeito da entrada de transgênicos ilegais na União Européis, veja o Boletim 397.

2. Continua a concentração no agronegócio: Bunge compra a Corn Products
Com a aquisição da companhia Corn Products, a empresa norte-americana Bunge avança na construção de redes complementares de produção e comercialização e garante o terceiro posto entre as multinacionais do agronegócio, atrás somente da Cargill e da ADM, também norte-americanas.

O grupo agroindustrial Bunge Ltd, especializado na produção defertilizantes e no processamento de oleaginosas, informou, em 23 de junho, que fez um acordo para a compra da Corn Products International Inc por 4.386 milhões de dólares em ações.

A transação ocorreu em um momento de forte aumento no preço do milho, principalmente nos Estados Unidos, que chegou a duplicar no decorrer dos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, a transação permite ampliar a sua presença em alguns mercados da região e aprofundar a complementação, como por exemplo no Brasil, onde a Corn Products já está se encarregando da venda dos produtos de milho da Bunge. (...)

A Corn Products, com base no estado de Illinois, Estados Unidos, tem 34 fábricas em 15 países, entre eles vários sul-americanos. Suas vendas líquidas ficaram em torno de 3.390 milhões de dólares em 2007. A companhia elabora, entre outros produtos, xarope de milho para fabricantes de bebidas como a Coca-Cola, e seus clientes incluem a Kellogg's, a Unilever e a Nestlé. Também armazena grãos e produz fertilizantes.

Fonte:
UITA, 30-6-2008
http://www.rel-uita.org/companias/bunge/bunge_compra_corn-por.htm

3. Ativistas destroem lavouras experimentais transgênicas na França

Três campos de milho transgênico foram destruídos no último fim de semana no sudoeste da França

Os ataques a experimentos transgênicos se tornaram uma prática comum na França, o maior produtor de grãos da Europa, onde o uso de sementes transgênicas sofre forte oposição. A ação de domingo à noite foi a primeira da estação. Os Ministros da Agricultura (Michel Barnier) e do Ensino Superior e da Pesquisa (Valérie Pécresse) condenaram a ação.

Os experimentos destruídos eram conduzidos pela suíça Syngenta, pela americana Pioneer (uma unidade da DuPunt) e pela também americana Monsanto. Os ataques aconteceram alguns dias depois da promulgação da nova lei para regulamentar o cultivo de transgênicos na França.

A nova lei prevê sentença de prisão até três anos e multa de 150 mil euros quando um campo experimental de transgênicos é destruído, e determina regras para limitar a disseminação do pólen de campos experimentais para lavouras convencionais.

Oponentes aos transgênicos, entre eles o famoso ativista José Bové, dizem que as novas regras não são suficientes e argumentam que os testes destruídos haviam sido plantados antes da promulgação da nova lei -- portanto não haviam sido avaliados pela nova Alta Autoridade em Transgênicos.

Fonte:
Activists destroy three GM fields in France
Reuters, 01/07/2008.
http://www.guardian.co.uk/business/feedarticle/7622576

4. Embrapa lança duas variedades de soja transgênica
A Embrapa lançou duas variedades de soja transgênica tolerantes ao herbicida glifosato, princípio ativo do Roundup, da empresa Monsanto. As variedades BRS 278RR y BRS 279RR são indicadas para as regiões norte e nordeste do país.

Com informações de:

- Canal Rural, 23/05/2008.
- SciDev.Net, 22/06/2008.
http://www.scidev.net/es/news/brasil-lanza-dos-variedades-de-soja-transg-nica.html

N.E.: As sementes transgênicas chamadas de “brasileiras” são desenvolvidas em parceria com a Monsanto, num sistema em que a Embrapa disponibiliza as variedades melhoradas e adaptadas às diferentes condições de solo e clima do Brasil, enquanto a Monsanto autoriza o uso de sua tecnologia de tolerância ao seu próprio herbicida. Nestes casos, os royalties da venda das sementes é repartido entre as duas instituições.

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Agroflorestas sucessionais no manejo de plantas espontâneas na Amazônia
, por Nicole Rodrigues Vicente
 
Atualmente o estado de Rondônia constitui a principal frente de expansão das fronteiras agropecuárias do país. A crescente exploração extensiva da pecuária bovina e do cultivo da soja provocou aumentos dramáticos das áreas subtraídas às florestas nativas da região. 

Realizada principalmente por migrantes vindos nas últimas décadas de outros estados, a agricultura em Rondônia se fundamenta em técnicas importadas de regiões de clima temperado. O uso intensivo dos solos, com práticas de aração, gradagem, subsolagem, emprego de agrotóxicos (herbicidas e inseticidas) e de fertilizantes químicos, tem por objetivo eliminar a regeneração natural e criar condições ambientais propícias para a produção em sistema de monocultivo. 

A implementação desse sistema técnico no bioma tem conduzido os ecossistemas agrícolas a acelerados e profundos processos de degradação que inviabilizam a permanência das famílias agricultoras em suas terras após poucos anos de cultivo, levando-as a buscar novas áreas para o plantio em razão da queda do potencial produtivo dos solos e do aumento da incidência de plantas espontâneas competidoras das espécies cultivadas.

Com o objetivo de diagnosticar e enfrentar os principais problemas produtivos vivenciados pela agricultura familiar no estado, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Rondônia e o Projeto Padre Ezequiel (PPE) promoveram em 2001 alguns encontros regionais. Assim surgiu o Projeto Terra Sem Males (PTSM), financiado a partir de 2003 pela agência inglesa católica de cooperação para o desenvolvimento Cafod (Catholic Agency Found for Oversea Development). 

Entre 2003 e 2006 o projeto acompanhou sistematicamente trinta famílias de 14 municípios do estado, e a partir de 2007 a abrangência geográfica foi reduzida, mas o número de famílias aumentou para cerca de cinqüenta.

As inovações agroecológicas estimuladas pelo projeto foram orientadas fundamentalmente a intensificar a produção diversificada de alimentos para o autoconsumo familiar e para a venda, evitando a adoção de práticas danosas aos solos e à biodiversidade nativa.

Um dos maiores desafios enfrentados pelo projeto para estimular o avanço dos processos de transição agroecológica nas propriedades acompanhadas foi a construção e disseminação de nova concepção técnica para o manejo das plantas espontâneas. Ao conceituarem essas plantas como ervas daninhas, os agricultores acabavam por adotar estratégias para eliminá-las das áreas de lavoura, entre as quais, a queimada, os herbicidas e a capina excessiva. 

Para reverter essa tendência, a equipe do Projeto Arboreto do Acre (Parque Zoobotânico/Universidade Federal do Acre) deu início a um processo de capacitação dos agricultores orientado para construir uma nova percepção acerca das plantas espontâneas a partir da discussão sobre os princípios da regeneração natural nos ecossistemas amazônicos e sobre os ciclos de vida das espécies florestais nativas. Foram então apresentadas ao grupo as técnicas de manejo agroflorestal que, com vistas ao aprimoramento das lavouras de café, introduziram preceitos ecológicos para o manejo das plantas espontâneas, assim como para a manutenção da fertilidade dos solos.

Esses princípios foram colocados em prática por 15 famílias plantadoras de café a partir da conjugação de alguns manejos, entre os quais: a manutenção do solo protegido com cobertura viva, morta e/ou com o sombreamento proporcionado pelas árvores; manutenção das espécies florestais da regeneração natural nos cafezais; introdução  de espécies de interesse econômico adaptadas à região nos cafezais; valorização das espécies espontâneas como fonte de adubação; realização de podas em árvores senescentes e em árvores que sombreiam excessivamente os pés de café.

As experiências das famílias acompanhadas pelo projeto permitiram o abandono das práticas tradicionais de manejo das plantas espontâneas, reduziram os custos de produção e promoveram maior vitalidade aos cafezais.

Fonte:
Revista Agriculturas: Experiências em Agroecologia, Volume 5, Número1 - Manejo ecológico de organismos espontâneos.

Leia este artigo na íntegra em:
http://agriculturas.leisa.info:80/index.php?url=article-details.tpl&p[readOnly]=1&p[_id]=206558

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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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