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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 396 - 08 de junho de 2008

[email protected] [email protected],

“Os dados de 2007 teriam mostrado um enorme aumento no uso de herbicidas aplicados nas lavouras transgênicas Roundup Ready, especialmente na soja. A imprensa agrícola esteve repleta de histórias sobre problemas que agricultores vêm enfrentando nos últimos anos à medida em que ervas invasoras se tornam resistentes ao glifosato e outros herbicidas. Acho curioso que no momento de maior interesse e necessidade de informações sólidas sobre o uso de agrotóxicos na soja, o Departamento de Agricultura dos EUA tenha decidido parar de coletar dados.”

O comentário é do pesquisador americano Charles Benbrook, que há mais de 10 anos vem produzindo análises independentes sobre o crescente uso de veneno nas lavouras transgênicas nos EUA. Suas pesquisas baseiam-se principalmente nos dados do Departamento de Agricultura.

Todos os anos o Serviço Nacional de Estatística Agrícola (NASS, na sigla em inglês) do USDA (Departamento Americano de Agricultura, em inglês) conduz levantamentos sobre o uso de agrotóxicos em várias culturas, como milho, soja, algodão e trigo, e depois divulga estes dados. Os dados são usados por indústrias químicas, organizações da sociedade civil e agências governamentais para rastrear o uso de agrotóxicos e sua segurança, e muitos afirmam que esta é a única fonte de dados deste tipo realmente confiável e disponível para o público.

Entretanto, em 2007, o USDA reduziu seu levantamento de dados: coletou informações apenas sobre algodão, maçã e maçã orgânica. Agora o USDA está anunciando que, devido a cortes de orçamento, irá eliminar completamente o programa em 2008 e não coletará mais dado algum.

Bill Freese, da ONG Center for Food Safety, observa que a decisão preocupa ainda mais considerando-se que nos últimos anos tem havido um considerável aumento no uso de agrotóxicos nas lavouras transgênicas.

Os dados dos últimos anos mostraram que o uso de venenos em milho, soja e algodão transgênicos foi maior do que nas lavouras convencioais, embora a indústria de biotecnologia continue alegando que as lavouras transgênicas necessitariam menos agrotóxicos.

Sem os dados do USDA, pesquisadores, ONGs e outros setores interessados não terão outra maneira de monitorar esta tendência no futuro e confrontar as afirmações da indústria de biotecnologia. O Departamento Americano de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) também confia nos dados do USDA para determinar como os produtos químicos devem ser regulados e quais agrotóxicos representam maior risco para a saúde pública.

A eliminação do programa “significará que agricultures ficarão sujeitos apenas a suposições e alegações em relação ao uso de agrotóxicos e adubos”, observou Don Lipton, um porta-voz do American Farm Bureau.

Empresas de agrotóxicos também usam os dados do programa quando querem renovar o registro de seus produtos.

Diversas organizações, entre as quais o Greenpeace, WWF e Union of Concerned Scientists, e mesmo a Syngenta (concorrente da Monsanto) e a ASA (Associação Americana dos Produtores de Soja) enviaram cartas de protesto para o ministro de agricultura.

Mas é interessante notar o silêncio da Monsanto, o gigante químico que produz as sementes Roundup Ready, desenvolvidas para resistir ao herbicida Roundup (glifosato) da própria Monsanto, aplicado em 3 de cada 4 hectares plantados com transgênicos no mundo.

Benbrook conclui: “Eu não me surpreenderia se existisse um silencioso lobby feito pela Monsanto para deixar o programa se extinguir.”
 
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Com informações de:


- The Daily Green, 21/05/2008.
http://www.thedailygreen.com/environmental-news/pesticide-data-program-cut-44052108

- Associated Press, 22/05/2008.
http://ap.google.com/article/ALeqM5jOv_zmzZkXkBWLHq5KSkc7WaHZNQD90QJCA80

- Union of Concerned Scientis - FEED - June 2008.
http://www.ucsusa.org/food_and_environment/feed/feed-june-2008.html

- Carta das ONGs para o USDA.
http://www.ucsusa.org/food_and_environment/genetic_engineering/letter-to-usda-secretary-on-nass.html

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Rotulagem

Foi adiada para esta quarta-feira (11) a votação do Projeto de Decreto Legislativo que pretende acabar com o símbolo da rotulagem e com o rótulo em produtos derivados de animais alimentados com ração transgênica (que as empresas ainda estão nos devendo). O Senador José Nery (PSOL-PA) teve pedido de vista concedido na última reunião da Comissão de Agricultura do Senado e deverá apresentar seu voto na sessão do dia 11.

Continue enviando cartas de protesto aos senadores da Comissão de Agricultura pedindo a derrubada desse projeto! Saiba mais aqui.

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Neste número:

1. Suíça confirma proibição de transgênicos até 2012
2. Canola na Bélgica contaminada com transgênicos proibidos
3. Premier do maior estado australiano pede fim de aprovações de transgênicos
4. Chefs da Austrália dizem não aos transgênicos
5. Carne de filhotes de vaca clonada pode ir para o mercado inglês


Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Práticas de manejo ecológico de formigas cortadeiras no Sul da Bahia

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1. Suíça confirma proibição de transgênicos até 2012

O Governo Suíço votou pela extensão por mais três anos da moratória às plantas transgênicas, que expiraria em novembro de 2010.

A prorrogação visa dar tempo para que um programa nacional de pesquisa sobre os benefícios e riscos das lavouras transgênicas seja concluído e seus resultados avaliados. Estão sendo estudadas questões sobre a segurança biológica das plantas transgênicas e a coexistência entre lavouras transgênicas, convencionais e orgânicas.

O governo impôs uma moratória ao cultivo comercial de transgênicos em 2005, uma vez que não havia demanda por eles na Suíça até aquele momento e que havia grandes lacunas no conhecimento científico sobre os riscos desta tecnologia. Logo em seguida o programa de pesquisa foi lançado e espera-se que ele chegue a termo em meados de 2012.  

Segundo o governo suíço, a moratória não causou nenhum problema óbvio, nem para a indústria agrícola, nem para pesquisadores ou para as relações internacionais. Na verdade, alega o governo, os agricultores se beneficiaram pelo fato de poderem comercializar seus produtos nos mercados internacionais como livres de transgênicos.  

Fonte:
Agra Europe, 29/05/2008.


N.E. Enquanto os suíços comemoram, a empresa suíça Syngenta segue contaminando produtos mundo afora. Em 2006 a empresa pagou 1,5 milhão de dólares de multa à Agencia de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos por ter vendido e distribuído o Bt10, uma variedade de milho transgênico não aprovada para consumo humano. Aqui no Brasil a empresa foi multada em R$ 1 milhão pelo Ibama por crimes ambientais também em 2006, mas ainda não pagou. Seu milho Bt11 foi aprovado no ano passado pela CTNBio, mas ainda depende de aval do Conselho Nacional de Biossegurança para ser comercializado já que a Anvisa é contra a liberação. A empresa também está envolvida com a morte de uma liderança do MST no Paraná.


2. Canola na Bélgica contaminada com transgênicos proibidos
O Ministério da Saúde da Bélgica anunciou nesta terça-feira que quinze campos de canola da Bayer CropScience no país foram contaminados por variedades transgênicas proibidas na Europa.

A subsidiária da Bayer informou as autoridades belgas sobre a contaminação, que aconteceu no último mês durante o plantio da canola convencional. Segundo o comunicado, “o lote de sementes convencionais estava com 5% de contaminação por canola transgênica”.

Uma investigação preliminar conduzida pela multinacional indicou que houve erro humano. A Bayer “irá tomar medidas para prevenir a disseminação dos transgênicos não autorizados”, incluindo a destruição da lavoura, que ainda não floresceu. Além disso, as áreas serão monitoradas por vários anos observando o ressurgimento de plantas transgênicas.

O ministério declarou que iria informar a Comissão Européia e os membros da União Européia sobre o problema e sobre as medidas tomadas.

Fonte:
AFP, 03/06/2008.

http://afp.google.com/article/ALeqM5jsPX6vzW3--SiQ7Ujz8MkGpQWWwg

3. Premier do maior estado australiano pede fim de aprovações de transgênicos

Alan Carpenter, Premier da Austrália Ocidental (o maior estado australiano), pediu a suspensão imediata da liberação de alimentos transgênicos na Austrália. Ele quer que a agência que regulamenta alimentos no país (Food Standards Australia New Zealand) pare de aprovar alimentos transgênicos para o consumo humano até que experimentos científicos independentes provem sua segurança. Carpenter também está pedindo apoio ao governo federal para obrigar a adequada rotulagem dos alimentos contendo ingredientes transgênicos.

“Acho inacreditável e inaceitável que a agência nacional que regulamenta alimentos confie principalmente na declaração das empresas de biotecnologia quando avalia os alimentos transgênicos como seguros para o consumo”, declarou o Premier. “Consumidores da Austrália Ocidental querem e merecem saber o que estão dando de comer às suas famílias e esperam que os alimentos contendo transgênicos não sejam apenas rotulados, mas que seja implementada a obrigatoriedade e o monitoramento da rotulagem”.

Os Secretários Estaduais de Agricultura e Saúde, Kim Chance e Jim McGinty, escreverão aos ministros de suas áreas solicitando apoio para mudar os padrões atuais de rotulagem [a lei de rotulagem de transgênicos da Austrália, aprovada em 2000, é bastante falha].

Os estados de Nova Gales do Sul e Victoria liberaram a canola transgênica a partir deste ano, mas na Austrália Ocidental vigora uma moratória à produção comercial de todos os cultivos transgênicos.

Fonte:
The Sydney Morning Herald, 02/06/2008.

http://news.smh.com.au/national/premier-urges-halt-to-gm-food-approvals-20080602-2krv.html

- Confira as regras de rotulagem em vigor na Austrália, em inglês, no endereço:

http://www.foodstandards.gov.au/foodmatters/gmfoods/index.cfm

4. Chefs da Austrália dizem não aos transgênicos
Mais de 50 dos maiores chefs da Austrália se uniram para protestar contra a introdução dos alimentos transgênicos no país.

No último mês plantou-se canola transgênica pela primeira vez em Nova Gales do Sul e Victoria, logo após os dois estados anunciarem que deixariam expirar a proibição aos cultivos transgênicos.

Uma carta contra os transgênicos assinada pelos Chefs pede que os governos de Nova Gales do Sul e Victoria revertam sua posição sobre o plantio de canola transgênica e demanda completa rotulagem de todos os produtos que contenham ingredientes transgênicos.

Fonte:
The Age - Austrália, 29/05/ 2008.

http://news.theage.com.au/national/top-chefs-say-no-to-gm-foods-20080529-2jcp.html

5. Carne de filhotes de vaca clonada pode ir para o mercado inglês
A mãe dos bezerros é um clone criado em um laboratório americano com células tiradas da orelha de um animal premiado. Carne ou leite de suas crias, que voaram para a Inglaterra como embriões congelados e foram implantados em uma “mãe de aluguel”, poderão estar no mercado dentro de alguns meses. Embora a carne de clones seja impedida de entrar na cadeia alimentar no Reino Unido, não há restrições legais em relação aos descendentes de clones.

No ano passado, o jornal britânico Daily Mail identificou o nascimento de dois filhotes de uma vaca clonada da raça holstein. Agora, seis outros animais, filhos da mesma mãe clonada, nasceram na região de Midlands, levando a um total de quatro machos e quatro fêmeas. Sabe-se ainda que embriões de uma outra mãe clonada foram importados, embora nenhum filhote tenha ainda nascido.

O Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Questões Rurais (DEFRA, em inglês) foi acusado de chocante complacência em relação à reprodução de animais clonados. Seus oficiais admitiram esta semana que não tinham idéia de quantos descendentes de clones existem em fazendas britânicas.

Uma pesquisa recente conduzida pela Agência de Padrões Alimentares (FSA, em inglês) descobriu que quanto mais os consumidores aprendem sobre clonagem, mais eles os rejeitam.

Em janeiro autoridades americanas aprovaram o uso de descendentes de clones na alimentação, e sugere-se que carne e leite de clones ou descendentes poderão em breve ser vendidos em lojas e restaurantes nos EUA. E, como está a lei hoje, não há nada que possa impedir esta comida de ser importada para o Reino Unido sem qualquer controle ou rotulagem. Em tese, a carne de qualquer um dos oito bezerros ingleses poderá também estar nas lojas a qualquer momento.

As intenções do DEFRA vão na contra-mão da reação pública sobre o tema: o órgão rejeitou recomendações de seus próprios especialistas de estabelecer um sistema para controlar a introdução de descendentes de clones. Mas as revelações do Daily Mail no ano passado provocaram a Autoridade Européia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, em inglês), que deverá publicar em breve sua decisão sobre a imposição de controle sobre todas as formas de alimentos derivados de clones, incluindo seus descendentes.

Fonte:
Daily Mail, 06/06/2008.

http://www.mailonsunday.co.uk:80/news/article-1024578/Eight-clone-farm-cows-born-Britain--meat-sale-months.html

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Disseminando práticas de manejo ecológico de formigas cortadeiras no Sul da Bahia, por João Antonio Firmato de Almeida

As experiências vivenciadas pelo técnico da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), João Antonio Firmato de Almeida, popularmente conhecido como Jafa, trazem alguns ensinamentos importantes para os que enfrentam problemas com o controle de formigas cortadeiras.

Em 1983, Jafa adquiriu uma propriedade de 30 hectares, que denominou de Fazenda Exílio, localizada no município de Camamu, região do Baixo Sul da Bahia. Lá se dedicou a implantar vários roçados, nos quais empregou os conhecimentos técnicos da agricultura convencional que havia aprendido durante sua formação profissional. Em três deles (no total de 13 hectares), adotou o método de derrubada total da floresta seguida de queima. Em um quarto roçado (de três hectares), utilizou o sistema cabruca, que consiste no raleamento de algumas árvores da floresta para permitir o plantio. Todas as áreas eram até então cobertas por mata atlântica e foram posteriormente manejadas com alto uso de insumos externos.

Ainda na década de 1980, a partir do contato que teve com a equipe do Projeto Tecnologias Alternativas da ONG Fase, sediada em Salvador (BA), Jafa tomou conhecimento dos princípios da então chamada agricultura alternativa. Essa equipe, que posteriormente fundou a ONG Serviço de Assessoria às Organizações Populares Rurais (Sasop), celebrou com a Ceplac um acordo de cooperação técnica, inaugurando nesse momento o seu escritório local em Camamu. Essa cooperação com o Sasop permitiu que Jafa adquirisse muitos novos conhecimentos que foram imediatamente colocados em prática para dar início à transição agroecológica na Fazenda Exílio.

A alta incidência de formigas cortadeiras foi um dos grandes desafios enfrentados nesse processo de transição. A infestação, porém, estava justamente ligada à drástica alteração dos ecossistemas naturais promovida para a implantação de áreas de lavoura que destruiu os complexos sistemas ecológicos responsáveis pela regulação das populações de formigas na natureza. Assim como nos roçados de Jafa, em áreas extensas foram extintas diversas espécies de plantas que serviam de alimento ou de abrigo para inúmeros animais, inclusive insetos, causando desequilíbrios ecológicos favorecedores das populações de formigas.  

Para combater a praga, Jafa conduziu um conjunto de experimentações, que foram bem-sucedidas, tendo por base a sistematização de conhecimentos locais e sobre a ecologia das formigas fornecidos por especialistas.

Por exemplo, ao saber que as formigas fazem seus ninhos em solos ácidos para favorecer o desenvolvimento do fungo que lhes serve de alimento, Jafa passou a colocar substâncias alcalinas no formigueiro. Sabendo também que cada rainha produz um feromônio próprio de forma a manter a unidade da colônia, colocou terra de um formigueiro em outros, desorientando as formigas em suas trilhas. Também para confundir as formigas em suas trilhas, passou a desfazê-las e pôs ramos de plantas normalmente cortadas pelas formigas próximo das colônias. Como o fungo que serve de alimento às formigas é muito sensível a contaminações externas, introduziu em diferentes formigueiros fontes de biomassa sujeitas a fermentação, de forma a contaminar as plantações de fungo das formigas. Além disso, passou a plantar espécies nos formigueiros que exalam substâncias tóxicas, sabendo que as formigas cortadeiras têm o corpo revestido de pêlos e que se limpam umas nas outras. Tal estratégia provoca grande mortalidade das formigas pela transmissão de veneno pelo contato físico.  

Com esses e outros conhecimentos devidamente experimentados, a Ceplac e o Sasop, assim como outras organizações que atuam na região, realizaram oficinas em comunidades rurais de Camamu e em outros municípios da região cacaueira da Bahia.

De forma geral, após as oficinas, os agricultores declararam que desconheciam a quantidade de recursos que possuíam na propriedade para conviver e controlar as formigas cortadeiras, além de outras pragas e doenças. Segundo eles, passaram a utilizar melhor os recursos físicos -- como processos mecânicos, calor, umidade -- e os biológicos -- como plantas atrativas, repelentes, venenosas, visgos, microorganismos e animais predadores. Passado algum tempo, para muitos desses agricultores as formigas cortadeiras não oferecem mais problemas. Pelo contrário: são verdadeiras ajudantes no sistema de produção, pois identificam as plantas deficientes e apontam a hora de efetuar as podas.

Fonte:
Revista Agriculturas: Experiências em Agroecologia, Volume 5, No. 1 - Manejo ecológico de organismos espontâneos.


Leia este artigo na íntegra em:
http://agriculturas.leisa.info/index.php?url=magazine-details.tpl&p[_id]=206553


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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

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