###########################
POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
###########################

Número 330  26 de janeiro de 2007

Car@s Amig@s,

“Não há evidências científicas comprovando que ...” Quanto já se lucrou e ainda se lucra com essa sentença repetidamente usada contra alertas sobre os impactos de poluentes químicos, lixo atômico, radiações, transgênicos e outros?

Em geral, a tentativa de se colocar um ponto final na polêmica e assim evitar que ela atrapalhe os negócios de determinados setores parte de fontes com suposta autoridade científica para fazer calar opiniões ou evidências de “leigos” ou “ambientalistas” que alertam para seus riscos.

Quanto mais renomada a autoridade, melhor o “cala a boca”. A Monsanto bem deve saber disso. Tanto é que teve por 20 anos em sua folha de pagamento o renomado médico inglês que na década de 1950 estabeleceu a relação entre tabagismo e câncer de pulmão, conforme divulgou o periódico inglês The Guardian.

Com um contrato com a empresa que lhe provia 1.500 dólares por dia de consultoria, o doutor Richard Doll entrou na discussão sobre os efeitos carcinogênicos do Agente Laranja, herbicida da Monsanto usado na guerra do Vietnã.

Em meados da década de 1980 uma comissão australiana pesquisava as possibilidades desse herbicida e de dioxinas terem sido a causa de ocorrência de câncer em australianos envolvidos na guerra.

Richardo Doll se prontificou a escrever ao coordenador da pesquisa atestando que “não há motivos para supor que [os herbicidas] sejam carcinogênicos para animais de laboratórios e mesmo o TCDD [dioxina], que alega-se ser um perigoso contaminante dos agrotóxicos, é, no máximo, apenas fraca e inconsistentemente cancerígeno para cobaias”.

Na ocasião, o professor Lennart Hardell, do departamento de oncologia da Universidade Hospital da Suécia, também enviou suas contribuições à pesquisa. Ele apresentou evidências sobre a ação carcinogênica do Agente Laranja. Richard Doll rebateu alertando a comissão para não levar em consideração o trabalho de Hardell, uma vez que muitas de suas publicações “apresentam exageros ou são sem fundamentação... com muita margem para indução na coleta de dados”.

Outro episódio revelado pelo Guardian trata do convite feito por empresas químicas para que ele conduzisse um estudo sobre a segurança do cloreto de vinila (PVC). A Chemical Manufactures Association dividiu com a Imperial Chemical Industries - ICI e a Dow Chemicals a remuneração de 25 mil libras para o doutor Doll. A essa época a Monsanto, que também produzia PVC, mantinha contratos de financiamento com Doll.

A pesquisa foi publicada em um periódico científico concluindo que não foram identificadas novas evidências significativas sobre carcinogenicidade associada ao PVC para além do fígado, que já era conhecida. Sua afirmação contradizia dados da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC, na sigla em inglês) da Organização Mundidal da Sáude, que 9 anos antes já havia incluído o cloreto de vinila na lista de produtos cancerígenos aos seres humanos, afetando não só o fígado, como também cérebro, pulmões e sistema linfático.

A declaração de Richard Doll foi usada pela indústria por mais de uma década para defender a segurança dos trabalhadores que manipulam o produto: “Os maiores pesquisadores do mundo estudaram o cloreto de vinila e o câncer de cérebro e concluíram que não há evidências que sustentem a ligação entre câncer de cérebro e exposição ao cloreto de vinila”.

A  revisão feita pelo doutor Doll levou a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) a reconhecer que o PVC pode causar “apenas” câncer de fígado.

Com essas e outras revelações feitas sobre a ligação do proeminente médico com a indústria química, alguns pesquisadores saíram em sua defesa, alegando que os tempos eram outros e que não se tinha àquela época a mesma noção que se tem hoje de conflito de interesses. Outros se manifestaram afirmando que a reputação de Doll, falecido em 2005, não pode ser manchada por essas relações, que seu trabalho pioneiro ajudou a salvar milhares de vidas e que o dinheiro recebido das empresas foi todo revertido para a montagem do Green College, em Oxford.

Esses argumentos devem ser levados em consideração, mas por outro lado, quanto prejuízo em termos de vidas humanas e retrocesso em curas e diagnósticos e em regras ambientais, de saúde e de segurança no trabalho esses posicionamentos sobre herbicidas e PVC não proporcionaram?

Doll até podia não ter cem por cento de clareza sobre o conceito de conflito de interesses e sobre os desdobramentos de suas pesquisas contratadas. Mas quem dirá o mesmo da Monsanto e de outras fabricantes de produtos perigosos? Aliás, conflito de interesses é um assunto que parece não fazer muito sucesso na CTNBio. Boa parte dos membros da Comissão passou o ano de 2006 se recusando a assinar um termo de conduta sobre possíveis casos em que sua participação no julgamento de transgênicos representaria conflito de interesses. Prova de que hoje o conceito é bastante claro.

--
Com informações do The Guardian.
http://www.guardian.co.uk/frontpage/story/0,,1967385,00.html


*****************************************************************
Neste número:

1. Para presidente da SBPC, conselho de biossegurança "não funcionou"
2. Ervas daninhas já estão resistentes ao glifosato
3.
Cultivo de transgênicos no Centro-Oeste supera o Sul do País [esta matéria deveria chamar-se: Paga-se mais pela soja não-transgênica]
4. Sudoeste do PR investe mais de R$ 1 bilhão em agrotóxicos
5.
Ministério Público pede realocação da fábrica da Bayer em Belford Roxo (RJ) após explosão de tanque
6. Dois ex-diretores da Monsanto são multados na França

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
Feijão guandu reduz a mortalidade e acelera o crescimento de espécies florestais

Dica sobre fonte de informação
Pesquisa em Agroecologia: diálogos de saberes no desenvolvimento local.
Revista Agriculturas - Experiências em agroecologia, dezembro de 2006.
"Restaurar a precedência dos interesses das populações locais nos processos de inovação na agricultura é um desafio que vem sendo assumido pelos movimentos de defesa da Agroecologia em todo o mundo".
http://agriculturas.leisa.info

--
Quem se beneficia com os grãos geneticamente modificados?
Uma análise do desempenho global dos grãos geneticamente modificados (1996 - 2006). Amigos da Terra, janeiro de 2007.
http://www.foei.org/publications/pdfs/gmcrops2007full.pdf

*****************************************************************
1. Para presidente da SBPC, conselho de biossegurança "não funcionou"
A aprovação da Medida Provisória 327, que traz modificações à Lei de Biossegurança, é motivo de preocupação para o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti. Ele lembrou que a lei já existe e define objetivamente os papéis da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e do Conselho de Biossegurança (CNBS).

"A medida atropela um sereno exame da questão. A Lei de Biossegurança foi feita por acordos. As liberações comerciais devem passar por avaliação técnica. Mas outras questões, como interesses políticos, também devem ser levadas em conta. Esse papel, no entanto, cabe ao conselho de ministros", afirmou, em entrevista hoje (22) à Agência Brasil. (...)

"O Congresso Nacional não levou em consideração a possibilidade de levar as questões ao conselho superior. Eu recomendaria ao governo um exame cuidadoso da questão. O conselho nacional deve receber as responsabilidades que lhe cabem, ou não tem razão de existir. O Congresso não pode legislar sobre questões que ele já definiu", disse.

O texto da MP 327 trata de três pontos centrais: a liberação comercial de uma variedade de algodão transgênico ainda não liberada pela CTNBio; a mudança no sistema de votação da Comissão, que agora passaria a ser de maioria absoluta e não mais de maioria simples (sic); e também a permissão do cultivo de transgênicos nas zonas de amortecimento (faixas de 500 metros entre as plantações e as áreas ambientalmente protegidas) de unidades de conservação.
Agência Brasil, 22/12/2006.
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/12/22/materia.2006-12-22.8051687626/view

N.E. Com que cara devem ter ficado os cientistas que aplaudiram a aprovação da MP frente essas declarações do presidente da SBPC? Provavelmente com a cara de quem fala em nome da ciência para defender interesses privados.

2. Ervas daninhas já estão resistentes ao glifosato
O uso repetido de glifosato nas lavouras gaúchas de soja transgênica gerou resistência ao herbicida em três espécies de ervas daninhas: buva, leiteiro e azevém. Conforme o pesquisador de manejo e controle de ervas daninhas da Embrapa Trigo, em Passo Fundo, Leandro Vargas, o problema evoluiu rapidamente nos últimos anos. Segundo o pesquisador, a prática de aplicações repetidas seleciona as plantas tolerantes ao agroquímico.
Correio do Povo-RS, 21/01/2007.

N. E. De acordo com dados do Ibama sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil, entre 2000 e 2004, cresceu 162% o consumo de glifosato no RS, principal estado produtor de soja transgênica. Em 2004 o consumo de glifosato representou 85,7% do uso total de herbicida no estado e 67,5% de todos os agrotóxicos usados no RS.

3. Cultivo de transgênicos no Centro-Oeste supera o Sul do País [esta matéria deveria chamar-se: Paga-se mais pela soja não-transgênica]
(...) De acordo com o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja), Rui Prado, já existe no estado uma parcela de tradings que ou não compram ou têm limitações na aquisição de grãos geneticamente modificados (GM). "Por isso, orientamos o produtor a, antes de plantar, checar como está o mercado para o qual costuma negociar", pondera Prado. Há duas safras já existe um mercado de prêmio para o grão convencional no estado.

Em Sorriso, por exemplo, remunera-se com adicional de R$ 0,50 a R$ 1 a saca não-transgênica, o que equivale a cerca de 2% - a cotação está em torno de R$ 23 na região, segundo informações da consultoria AgRural.

(...) Algumas grandes esmagadoras brasileiras ainda conseguem manter compras 100% de soja convencional. No entanto, já com perspectivas de mudar planos. É o caso da Caramuru Alimentos, que tem duas plantas processadoras de soja em Goiás, estado que detém 10,9% da área de soja GM do País, segundo a Céleres. As duas unidades produziram juntas em 2006, cerca de 1 milhão de toneladas, utilizando 100% de matéria-prima convencional.

"Estimamos que, atualmente, 80% das lavouras de soja goianas são transgênicas, percentual que deve crescer na próxima safra. Essa escassez de matéria-prima poderá onerar muito nosso custo", afirma César Borges de Sousa, vice-presidente do Conselho de Administração da Caramuru Alimentos. Ele informou ainda que quase toda a produção de farelo da empresa é exportada para a União Européia, com bônus de US$ 12 por tonelada, o que significa um prêmio de 4% a 5% por ser não-transgênico.

Ainda irredutível, a processadora Olvebra, do Rio Grande do Sul, não vê perspectivas de utilização de soja transgênica. Há cerca de cinco anos, a empresa tem parceria com cooperativas locais de produção de grãos convencionais que atendem 70% de sua demanda e recebem prêmios de 8% a 10%. Além disso, a empresa precisar trazer 30% da matéria-prima de Mato Grosso e de Minas Gerais, uma vez que, com exceção dos parceiros, os demais produtores do Rio Grande do Sul cultivam transgênicos.

Segundo o diretor comercial da Olvebra, Marcelo Schaid, o mercado não paga adicional pelos seus produtos, mas ainda assim, a empresa continuará trabalhando com soja convencional. "Enquanto não houver uma posição segura da comunidade científica sobre o assunto, não vamos usar a soja transgênica", garante Schaid.
Gazeta Mercantil, 24/01/2007.

4. Sudoeste do PR investe mais de R$ 1 bilhão em agrotóxicos
Os agricultores do Sudoeste do Paraná têm avançado a cada ano nos números de produção de grãos, atingindo níveis compatíveis com os registrados nas melhores regiões do Estado, como no Oeste e Noroeste, sendo uma das melhores do país. Além do avanço tecnológico dos equipamentos agrícolas, que favorece para o trabalho no campo, o segmento que mais tem contribuído para esse crescimento é o da pesquisa.

O desenvolvimento tecnológico dessas pesquisas se superam na qualidade genética das sementes, que estão ganhando espaço entre as empresas de pesquisa nacionais. No entanto, é o setor de defensivos agrícolas que está sendo responsável por uma das maiores fatias dos investimentos nas lavouras da região, sendo superior a 30% do custo geral por alqueire. Isso, que obteve queda com a entrada dos transgênicos.

A decepção fica por conta do destino dos recursos levantados com a comercialização desses agrotóxicos. Por mais que alimente uma gama de empresas locais representantes das multinacionais detentoras de meia dúzia de marcas que atuam no mundo, o grande volume acaba retornando aos países de origem onde estão sediadas as multinacionais, como Estados Unidos, Suíça e principalmente Alemanha. (...)
Diário do Sudoeste, 22/01/2007.

N.E. Se, como diz a matéria, o avanço da pesquisa no campo do melhoramento das sementes tem como contrapartida o aumento expressivo do uso de agrotóxicos, deve haver algo de errado com foco dessas pesquisas. Segundo, onde foi comprovado que a adoção de transgênicos reduz o uso de agrotóxicos?

5. Ministério Público pede realocação da fábrica da Bayer em Belford Roxo (RJ), após explosão de tanque
No máximo até amanhã, o Fórum de Meio Ambiente da Baía de Sepetiba estará dando entrada no Ministério Público do Rio de Janeiro em uma representação cujo objetivo, entre outros, é pedir a imediata realocação da planta industrial da Bayer hoje situada em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.

A proposta tomou impulso a partir da explosão de um tanque na fábrica, na quarta-feira 16, com o agrotóxico Tamaron. Do acidente, saíram feridos três funcionários da multinacional. (...)

“Há fortes indícios e denúncias de que há problemas de saúde, especialmente respiratórios, causados por esse ‘depósito de lixo químico’ em área tão habitada”, diz o ambientalista Sérgio Ricardo, membro do Fórum, lembrando que Belford Roxo é uma das cidades mais populosas do país - e uma das mais pobres. (...)

Segundo ele, a representação exige, no mínimo, isonomia tecnológica entre as instalações da Bayer no Brasil e na Alemanha. “Essa fábrica jamais seria licenciada na Alemanha ao lado de residências”, acredita.

O Tamaron, agrotóxico produzido na planta industrial de Belford Roxo, é chamado de “bomba atômica dos miseráveis” pelo agrônomo paulista Sebastião Pinheiro, um dos autores do livro “A agricultura ecológica e a máfia dos agrotóxicos no Brasil”.

Segundo ele, trata-se de um fosforado de uso restrito na União Européia e proibido em vários países por sua “toxicidade aguda, crônica e latente”, desde que se comprovou em 1991, através de um estudo epidemiológico do reino da Noruega, que os fosforados provocavam uma defasagem cognitiva nas crianças da área rural. (...)

“Obviamente o consumo de Tamaron desapareceu na União Européia, mas providencialmente sua faixa vermelha de extremamente perigoso foi mudada em todos os países da América para faixa azul, pouco tóxico”, informa.

E completa: “a epidemia de intoxicações na América Central e do Sul foi maravilhosa, pois aumentou em muito a venda de antídotos e medicamentos da mesma Bayer e congêneres nos governos Sarney e Collor e fez viajar muito os ‘experts’ dos órgãos multilaterais”. (...)
Ambiente Brasil, 25/01/2007.
http://www.ambientebrasil.com.br/rss/ler.php?id=29105

6. Dois ex-diretores da Monsanto são multados em 30.000 euros em Carcassone, na França
Dois ex-diretores da companhia americana Monsanto foram sentenciados pela corte de Carcassone (Aude). Jean-Bernard Bonastre e Serge Reymond devem pagar 15 mil euros cada um até quarta-feira à tarde. De acordo com Michel Dupont, da Confederation Paysanne, os réus foram declarados culpados por quatro motivos: (a) por terem comercializado transgênicos sem autorização, (b) por terem vendido e armazenado um produto agrícola ou tóxico, (c) por propaganda fraudulenta, (d) fraude na natureza e na qualidade da propaganda em 1999 e 2000. (…)

A soja ilegal foi importada dos EUA.

Dupont disse ter ficado muito satisfeito com o resultado pois esta é a primeira vez em que os juízes proferem um veredicto contra a Monsanto. (...)
Nouvel Observateur online, 13/12/2006.


Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Feijão guandu reduz a mortalidade e acelera o crescimento de espécies florestais

Região marcada por constantes conflitos fundiários entre fazendeiros e pequenos trabalhadores rurais sem-terra - e o uso irracional dos recursos naturais, o Pontal do Paranapanema  localizado no extremo Oeste do Estado de São Paulo e delimitado pelos rios Paraná, ao Norte, e Paranapanema, ao Sul  apresenta uma paisagem desoladora: extensas áreas destinadas a pastagens entrecortadas por dezenas de pequenos fragmentos florestais. Remanescentes degradados da Mata Atlântica do Interior, estes fragmentos somam aproximadamente 20 mil hectares.

Tiago Pavan Beltrame, engenheiro florestal e pesquisador do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas - que estuda e aplica há 15 anos formas de restaurar a vegetação da região -, identificou uma leguminosa com alto potencial para a restauração ecológica: o feijão guandu (Cajanus cajan (L.) Millsp.). O guandu é cultivado em Sistemas Agroflorestais (SAFs), que consorciam por um tempo limitado espécies arbóreas com culturas agrícolas anuais  como o milho, a abóbora, o amendoim e a mandioca -, para a constituição de corredores ecológicos, uma alternativa promissora para promover a restauração da paisagem do Pontal. Os corredores conectam os fragmentos florestais e possibilitam o trânsito de animais e conseqüente fluxo gênico entre populações de espécies da fauna e flora.

A pesquisa pioneira foi realizada nos últimos três anos no Santa Zélia, um dos 102 assentamentos da reforma agrária existentes no Pontal e desenvolvida por Beltrame em sua dissertação de mestrado defendida no curso de pós-graduação em Agronomia da Universidade Estadual de Londrina. As espécies florestais nativas que foram plantadas em consórcio com o feijão guandu apresentaram melhor desempenho do que as espécies cultivadas sem a leguminosa. E a mortalidade das árvores foi significativamente mais alta no plantio sem guandu, do que nos experimentos com o feijão.

“Através do cultivo do feijão guandu queremos propiciar a criação do ‘campo dos sonhos’, onde o crescimento das árvores nativas seja favorecido, acelerando o processo de restauração da paisagem”, afirma o pesquisador, referindo-se aos safe sites, ou “lugares seguros”, propícios ao desenvolvimento das árvores de maneira similar àquele da floresta nativa. O guandu é um excelente adubo verde, porque produz abundante matéria orgânica que protege o solo e libera nutrientes de forma gradual, o que atende à demanda constante das árvores. Constata-se também a sua capacidade de fixação de nitrogênio, um nutriente químico essencial ao crescimento das plantas.

Quando consorciado em especial com espécies pioneiras (primeira que nasce em área desmatada e que necessita de muita luz para se desenvolver), o feijão guandu acelera o seu crescimento devido ao estímulo à competição por luz solar, criando um mecanismo de facilitação, o que evidencia seu potencial de restauração biológica.

A leguminosa ainda cria barreiras de contenção, alterando as características físicas do seu entorno, como redução da temperatura, da luminosidade e da insolação, aumento da umidade e proteção contra o vento, a chuva e as espécies invasoras. A planta ainda ameniza um grande empecilho para a recomposição florestal, que é o microclima (condições climáticas de uma superfície pequena e que são diferentes da região que a cerca) com o qual se deparam as mudas florestais plantadas em áreas degradadas.

Participação comunitária

“A terra é viva. Não gosto de fogo aqui”, afirma Nivaldo Castro, 39 anos, agricultor do Assentamento Ribeirão Bonito, expondo um pouco do que já aprendeu sobre agroecologia. “A terra daqui é muito compactada e surrada. Não utilizamos mais o fogo para limpar o terreno. As folhas que caem no chão protegem o solo da erosão e aumentam a umidade. As minhocas descompactam a terra”. Ele também já cultiva o feijão guandu em sistemas agroflorestais ou SAF’s, adaptáveis às condições do solo da região, que exigem lavouras com cultivo de baixa tecnologia, e que, em longo prazo, podem aumentar a fertilidade da terra.

Hoje, existem seis mil famílias assentadas no Pontal, segundo o Itesp (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo). Após a vitória pela conquista da terra, estes pequenos agricultores deparam-se com a difícil realidade: o solo apresenta fragilidade natural à erosão, com elevada concentração de areias, baixa fertilidade, boa permeabilidade e drenagem excessiva. Com freqüência, a alternativa que resta ao agricultor é abandonar o cultivo no próprio lote e partir para o trabalho nas fazendas de cana-de-açúcar.

Identificando os assentados como atores centrais na conservação e restauração da paisagem, o IPÊ desenvolve, em parceria com órgãos governamentais, diversos projetos baseados em conceitos de agroecologia e desenvolvimento sustentável, e que prezam a participação comunitária em todo o processo  do planejamento à implementação. Esses projetos constituem o Programa Agroflorestal do IPÊ no Pontal do Paranapanema para a criação de ilhas de agrobiodiversidade, viveiros agroflorestais comunitários e corredores ecológicos em reservas legais, e são executados pela equipe formada por Nivaldo Campos, Laury Cullen Jr., Jéfferson Lima, Haroldo Gomes, Vicente Moscogliato e Tiago Beltrame.

Corredores Agroflorestais em Reservas Legais

O experimento com o feijão guandu foi realizado por Beltrame dentro do projeto “Resgatando a Mata Atlântica do Pontal do Paranapanema: Reforma Agrária com Reforma Ecológica”, financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente  MMA, que restaura áreas de reserva legal de assentamentos rurais - através dos SAF’s e do envolvimento da comunidade -, transformando-as em corredores florestais que conectam fragmentos da paisagem. Estas áreas de reserva são obrigatórias  pela Lei Federal nº 8.171 e pelo Decreto Estadual de São Paulo nº 50.889  e devem alcançar no mínimo 20% das áreas das propriedades e dos assentamentos rurais.

O plantio das mudas florestais  117 espécies nativas, como a aroeira (Myracrodruon urundeuva), o angico (Anadenanthera sp.), a cabreúva (Myroxiylon peruiferum), o cedro (Cedrella fissilis) e a guajuvira (Patagonula americana) - é realizado em espaçamento 4 x 2 metros, em consórcio com o feijão guandu na linha de árvores entre as mudas. Nas entrelinhas são cultivadas culturas agrícolas de ciclo curto.

No Assentamento Santa Zélia, já foram implantados 75 hectares de SAF’s através do trabalho conjunto entre os pesquisadores do IPÊ e 32 famílias de agricultores. Eles receberam do Instituto 125 mil mudas de espécies florestais nativas e todo o apoio técnico necessário para realizar os plantios e a manutenção dos sistemas. “Ninguém é obrigado a participar do projeto. A proposta educativa desenvolvida faz com que os assentados entendam a importância do trabalho e comecem a aderir às ações”, enfatiza Beltrame.

Um importante componente socioeconômico está contido nos sistemas agroflorestais: as famílias beneficiam-se diretamente com a venda dos produtos agrícolas plantados nas entrelinhas dos sistemas  feijão, milho, amendoim, mandioca e batata-doce. Após três anos, cada família obteve uma renda anual média de 1.900 reais, o que representou um incremento médio de 11% na renda total das famílias envolvidas. Também se destaca a redução dos custos de manutenção do sistema devido à ocupação das entrelinhas com as culturas anuais, tornando-o produtivo e barato.

“Este trabalho mostra que a restauração ecológica pode ter grande sucesso quando a população local é estimulada e envolvida com a causa da conservação ao invés de ser isolada e tratada como um problema. Ressalta também a importância de trabalhos comunitários e participativos, onde todos os agentes se beneficiam diretamente por estarem promovendo a conservação ambiental”, conclui o pesquisador do IPÊ.
Fonte: Sara Nanni / IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas

**********************************************************
Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa [Tel.: (21) 2253-8317 / E-mail: livredetransgenicos@aspta.org.br ]

Para acessar os números anteriores do Boletim e outros documentos publicados pela Campanha, clique em: http://www.aspta.org.br.

Participe! Indique este Boletim para um amigo e envie para nós suas sugestões, notícias, eventos e fontes de informação.

Para receber semanlmente o Boletim, envie uma mensagem em branco para boletimtransgenicos-subscribe@listas.aspta.org.br

***********************************************************
Caso não deseje mais receber este Boletim, envie uma mensagem em branco para boletimtransgenicos-unsubscribe@listas.aspta.org.br

**********************************************************

Banco Central   Associe-se  

Rodapé