###########################
POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
###########################

Número 321 - 10 de novembro de 2006

[email protected] [email protected],

Recentemente, o principal jornal da Espanha publicou com destaque uma matéria relatando os danos que o milho transgênico está causando à produção agroecológica no país. “O milho transgênico está acabando com os cultivos ecológicos”, diz o título da reportagem publicada em 19 de outubro no El País. E complementa: “O pólen contamina os campos e os agricultores têm que vender sua produção por um preço menor”. É o que se chama “coexistência impossível”.

Aragón é a comunidade com o maior número de hectares plantados com sementes transgênicas. Esta área vem crescendo desde 1998, quando foi concedida permissão para esse tipo de cultivo. Ao mesmo tempo, a região, que há três anos tinha 120 hectares de cultivos ecológicos, hoje tem apenas 30. “Os agricultores abandonam o ecológico porque o geneticamente modificado contamina seus campos através do pólen carregado pelo vento. A produção agroecológica na Espanha caiu 42% em dois anos”, relata a matéria.

“Faz dois anos que 100% do milho analisado deu positivo para a transgenia e no ano passado o índice foi de 40%”, explica David Olmo, um dos inspetores do Comité Aragonés de Agricultura Ecológica (CAAE). “Por isso [contaminação] nos pagam 24 pesetas o kilo, enquanto o ecológico sai a 35”, diz Antonio Mejoral, agricultor de Tauste.

Proponentes dos transgênicos, como o professor Ernesto Paterniani, afirmam que “Sem dúvida, é possível a coexistência de lavouras transgênicas e convencionais [e que] Isso é possível adotando-se práticas de isolamento no tempo ou no espaço para evitar cruzamentos não desejados”*. Assim, tenta-se enterrar o debate sobre poluição genética e suas consequências.

No entanto, Félix Cuartero, da comunidade de Boquiñeri, chegou a rodear de milho convencional sua plantação ecológica, mas mesmo assim não conseguiu evitar a contaminação, detectada nos testes.

Já o diretor científico da Monsanto na Espanha, Jaime Costa, afirma que “o milho não se contamina” e, caso isso aconteça, “não será em proporção maior que 0,9%”. Essa porcentagem não serve de nada, pois os cultivos agroecológicos devem ser 100% livres de transgênicos.

Aqui no Brasil, há oito pedidos de liberação comercial de milho transgênico na pauta da CTNBio. O pedido da Bayer para o milho Liberty Link, resistente ao herbicida glufosinato de amônio (chamado comercialemente de Liberty), encabeça a fila.

Vários veículos de imprensa vêm fazendo grande pressão para que a CTNBio acelere a liberação desses transgênicos. Alguns deles, como o Estado de São Paulo, já carecem de adjetivos para destratar os membros da Comissão que exigem estudos confiáveis e independentes sobre a biossegurança desses produtos. Toda ciência contraditória àquela moldada para atender aos interesses econômicos das multinacionais de biotecnologia é automaticamente taxada de “obscurantista”.

O Brasil não deve abrir suas portas a essa ameaça à agricultura ecológica, e a sociedade deve exigir isso do governo. Não precisamos de mais transgênicos não testados e não rotulados.

--
SE É BAYER, É BOM?

Através da página do Greenpeace na internet você pode enviar uma mensagem aos ministros que integram o Conselho Nacional de Biossegurança e a todos os membros da CTNBio se manifestando contra a liberação do milho transgênico.

PARTICIPE!

http://www.greenpeace.org.br/transgenicos/?cyber=7&codigo=105


***************************************************************
Neste número:

1. Orgânicos X Transgênicos - A gente não quer só comida, por José Augusto Pádua
2. Herbicida da soja transgênica está perdendo eficácia, diz Embrapa
3.
Áreas protegidas ameaçadas por transgênicos
4. Ministra rebate críticas de ambientalistas
5. Milho transgênico pode colocar saúde dos brasileiros em risco
6. O retorno da ilegalidade?
7. Soja transgênica em alimentos
8.
Cade aprova sem restrição operações da Monsanto
9. Mais transgênicos nos campos

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Sementes crioulas: um banco de biodiversidade

Dica sobre fonte de informação
Caminhos da transição agroecológica - Revista Agriculturas: experiências em agroecologia, volume 3.

Os artigos publicados nesta edição de Agriculturas deixam evidentes as características “de fundo” dos processos de transição agroecológica, chamando a atenção para o conjunto de condições necessárias para que as inovações técnicas e organizativas implementadas sejam efetivas promotoras de mudanças estruturais em benefício das famílias agricultoras, em particular, e da sociedade, no geral.

Disponível em: http://agriculturas.leisa.info


Eventos

V Congresso Brasileiro de Agroecologia - Belo Horizonte, de 21 a 23 de novembro de 2006.
Informações: [email protected]er.mg.gov.br ; [email protected]

VII Seminário Internacional sobre Agroecologia e VIII Seminário Estadual sobre Agroecologia - Porto Alegre, de 21 a 23 de novembro de 2006.
Informações: www.emater.tche.br


*****************************************************************
1. Orgânicos X Transgênicos -- A gente não quer só comida
Por JOSÉ AUGUSTO PÁDUA, professor do departamento de história da Universidade Federal do RJ e autor de “Um Sopro de Destruição”.

“A ciência descobre, a tecnologia executa, o homem obedece”. As palavras escritas no portal da Feira Mundial de Chicago, em 1933, sintetizam a postura submissa que ainda caracteriza a relação de importantes setores da opinião pública contemporânea com as inovações tecnológicas.

No vazio das antigas certezas religiosas, a ciência tornou-se para muitos a única fonte confiável de verdade. É irônico observar, porém, que o próprio movimento da modernidade global age no sentido de dissolver a aura de devoção construída em torno do complexo ciência & tecnologia.

O número cada vez maior de pessoas escolarizadas, a velocidade e a intensidade dos meios de comunicação, o estabelecimento de múltiplos espaços para o confronto de opiniões vêm contribuindo para gerar sociedades que discutem cada vez mais seu presente e futuro.

O que está sendo discutido, na verdade, não são os limites da ciência, mas sim o alcance da democracia na alta modernidade. Nesse sentido, a surpreendentemente forte reação de diversos atores sociais aos alimentos transgênicos, especialmente dos consumidores europeus, representa um caso paradigmático.

A pressão democrática para que a produção de organismos geneticamente modificados seja debatida de forma intensa e transparente, com uma moratória no seu uso, contribui para dar visibilidade aos condicionantes econômicos que controlam grande parte da atual pesquisa técnico-científica.

E serve também para expor o uso da ideologia da pureza do progresso científico como instrumento para justificar decisões empresariais fundadas em objetivos bem menos etéreos, tais como o aumento dos lucros e o controle dos mercados.

Princípio de precaução

Não se trata de coibir a pesquisa acadêmica. O esforço de politização das novas tecnologias, com exceção de algumas poucas vozes especialmente radicais, não passa pela defesa de uma censura da investigação teórica ou experimental.

O problema está na difusão social precoce, por motivos calcados essencialmente na busca por poder econômico, de técnicas perigosas que ainda estão sob intenso debate científico. Ou seja, uma clara violação empresarial do chamado "princípio da precaução", que estabelece, diante da incerteza, que não se devem adotar atividades ou técnicas cujas conseqüências, se negativas, podem ser irreversíveis ou além da nossa capacidade de controle.

Os organismos geneticamente modificados, na medida em que são seres vivos, podem mesclar-se com outros organismos e penetrar nas cadeias ecológicas planetárias, reproduzindo-se de forma descontrolada. É tolice, pois, associar os transgênicos à modernidade e os orgânicos ao arcaísmo.

No setor da produção orgânica, por exemplo, que está crescendo como uma alternativa ao modelo transgênico, existe hoje um grande investimento científico. Não se trata de aceitar passivamente os movimentos da natureza, mas sim de buscar ativamente, por meio de um conhecimento ecológico fino e sofisticado, formas de potencializar a produtividade e a capacidade de sustentação das lavouras.

Mas seria ingênuo supor que a polarização entre transgênicos e orgânicos esteja fundada em uma disputa apenas técnico-científica. Trata-se, mais do que tudo, de uma questão de poder. A agroecologia, por suas características concretas, não facilita a concentração de poder assim como não favorece o estabelecimento de monopólios, patentes e pacotes tecnológicos.

A gestão ecológica da agricultura requer desenhos locais, que dialoguem com as condições específicas de cada domínio do território. Seus insumos, além disso, são renováveis e recicláveis.

No núcleo da pressão pelos transgênicos se encontra a fome de poder de um número restrito de enormes conglomerados empresariais, que, no limite, buscam usar as novas tecnologias para dominar a oferta de sementes e reduzir a autonomia dos agricultores e, por extensão, das sociedades.

É assustador imaginar um futuro em que algo tão vital como as sementes -assim como as fontes da alimentação em geral- estejam nas mãos de pouquíssimas corporações. O consumidor, ao optar pelo que comer e por qual modelo favorecer, pode estar fazendo política no mais alto grau.
Folha de São Paulo, 29/10/2006.

2. Herbicida da soja transgênica está perdendo eficácia, diz Embrapa
As lavouras geneticamente modificadas, chamadas de transgênicas, estão enfrentando um novo desafio para os próximos anos. O herbicida utilizado sobre a soja transgênica Roundup Ready, conhecido como glifosato, está perdendo eficiência no controle de ervas daninhas. As ervas corriola, buva, poaia-branca e trapoeraba já são resistentes a este herbicida, fabricado pela multinacional Monsanto, dos Estados Unidos. A constatação foi feita por especialistas e pesquisadores da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa) de Passo Fundo (RS), que analisa os cultivos de trigo.

As possíveis conseqüências por esta constatação dividem opiniões. Para os pesquisadores da Embrapa, a descoberta é pontual e não representa mais um sinal dos prejuízos ambientais causados pela soja transgênica. Os estudiosos recomendam o uso de uma carga ainda maior de agrotóxicos para o combate das ervas daninhas. Já o gerente de recursos genéticos do Ministério do Meio Ambiente, Rubens Nodari, denuncia o problema gerado pela semente modificada, que muitas vezes torna-se erva daninha de outra lavoura.

“Como muita gente usa herbicidas à base de glifosato para o plantio direto, na cultura após a soja o uso desse herbicida não resolve mais o controle de plantas de soja que são voluntárias. Na colheita da soja, sobram grãos, que germinam e atrapalham a cultura que vem em seguida. Então, existem custos adicionais, e hoje muitas empresas estão pedindo registro para produtos antigos para o controle de soja transgênica que cresce fora de época.”

O glifosato pode ser pulverizado diretamente sobre a lavoura. Mas alguns cientistas se preocupam com a proliferação da resistência, que tornaria o herbicida menos útil, tendo de ser substituído.
Agência Notícias do Planalto, 09/10/2006.

3. Áreas protegidas ameaçadas por transgênicos
Governo edita Medida Provisória que reduz distância mínima entre plantio de transgênicos e unidades de conservação

O Presidente Lula assinou ontem a Medida Provisória (MP) 327/06 para reduzir a distância mínima que separa as áreas de plantio de organismos geneticamente modificados (OGMs) das unidades de conservação (UCs), dentro da chamada zona de amortecimento . De acordo com a nova MP, a distância mínima dentro da zona de amortecimento das UCs passa a ser determinada caso-a-caso para cada uma das variedades transgênicas, por meio de decreto presidencial.

(...) O Greenpeace avalia que esta MP seja uma medida para agradar agricultores e multinacionais da área de biotecnologia, e que teria como conseqüência a possível expansão da área de cultivo transgênico no sul do país. No Paraná, por exemplo, a Syngenta foi recentemente multada por ter feito um cultivo experimental de soja transgênica na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Até hoje a Syngenta não pagou a multa de R$1 milhão estabelecida pelo Ibama.

“Se antes dessa Medida, as zonas de amortecimento eram desrespeitadas, agora a situação só tende a piorar”, alerta Gabriela. “Gostaríamos de acreditar que o governo vai proteger as unidades de conservação. Mas se o Ministério da Agricultura até hoje não tem dados precisos sobre a quantidade e a localização dos plantios transgênicos no país, como o governo pretende fiscalizar cada uma das zonas de amortecimento?”, questionou Gabriela.
--
Textos originais: Medida Provisória 327 ; Decreto 5950/06
Greenpeace, 01/11/2006.

4. Ministra rebate críticas de ambientalistas
A Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, rebateu ontem em Curitiba críticas de ambientalistas à aprovação da medida provisória (MP) que reduz a distância mínima entre a plantação de organismos geneticamente modificados (OGMs) e as unidades de conservação (UCs), áreas de proteção ambiental. Pela MP 327/06, sancionada no último dia 31 de outubro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caberá ao governo federal definir o critério adotado para cada cultivo. Entidades, como o Greenpeace, consideram que a alteração ameaça a biodiversidade com produtos transgênicos.

“As pessoas têm o direito de fazer questionamentos, mas é preciso dizer que a decisão foi técnica e não política”, defendeu a ministra, antes de iniciar uma palestra sobre Política Ambiental Brasileira, na Universidade Federal do Paraná. “Antes nós não tínhamos um regramento para as OGMs, a não ser para a soja transgênica”, lembrou.

O temor dos ambientalistas é que, na prática, empresas como a multinacional Syngenta Seeds, multada em R$ 1 milhão em março desse ano pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por ter feito uma experiência com soja transgênica a 6 km do Parque Nacional do Iguaçu, no Oeste do Paraná, possam recorrer da decisão e ganhar a causa na Justiça.

A MP modifica de 10 km para 500 metros a distância mínima entre o plantio e a UC. Segundo a ministra, a medida não muda a decisão do Ibama nesse caso. “Isso é uma questão judicial perante uma multa passada que não tinha regramento. A partir de agora é um outro processo”, avaliou.

Imbróglio

Ontem foi concluída a reintegração de posse do campo experimental da Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, no Oeste do estado, ocupada desde 14 de março por 65 famílias da Via Campesina, com a vistoria da Polícia Militar e da Justiça na propriedade. O gerente da unidade, Arnaldo Bellucci, disse que será feito um levantamento geral para verificar eventuais prejuízos causados durante a ação dos campesinos.

Sobre a continuidade das pesquisas transgênicas, Bellucci disse que não existem motivos para sua paralisação, mas ainda nada está confirmado. As 65 famílias da Via Campesina montaram um acampamento em frente à sede da fazenda. Eles não pretendem sair do local até que a área seja desapropriada e transformada num campo experimental de sementes crioulas.
Gazeta do Povo - RS, 09/11/2006.

5. Milho transgênico pode colocar saúde dos brasileiros em risco
Aprovação de variedade que está em pauta na CTNBio causaria graves impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente, de acordo com documentos científicos

O Greenpeace enviou hoje para a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) dois documentos sobre os potenciais impactos do milho transgênico resistente ao agrotóxico glufosinato de amônio, conhecido comercialmente como Liberty Link. Atualmente, o processo de liberação comercial desse milho geneticamente modificado patenteado pela Bayer CropScience está na pauta da próxima reunião da Comissão agendada para os dias 22 e 23 de novembro.

Um dos documentos enviados pelo Greenpeace à CTNBio é um relatório publicado em outubro de 2006 pelo Ministério da Saúde da Áustria (1), onde o milho Liberty Link está proibido desde 1999. O outro documento é um relatório produzido em 2001 pela ONG Amigos da Terra no Reino Unido (2). Na época, a liberação comercial do mesmo milho resistente ao glufosinato de amônio havia sido pedida naquele país e acabou sendo retirada pela própria empresa.

De acordo com os documentos enviados, a quantidade de resíduo de agrotóxico no milho transgênico é muito maior do que a do milho convencional e pode trazer sérios riscos para a saúde humana, como náuseas, diarréias, nascimento de fetos prematuros e até aborto. Além disso, os documentos apontam para o risco de aparecimento de ervas daninhas resistentes ao agrotóxico e a possibilidade de contaminação de lavouras convencionais por milho transgênico.

“Estamos pedindo que a CTNBio e o governo brasileiro levem em consideração as evidências apresentadas e sigam o Princípio da Precaução”, disse Ventura Barbeiro, da campanha de engenharia genética do Greenpeace Brasil. “O que está em jogo é a saúde do povo brasileiro, a segurança de nosso meio ambiente e a agricultura familiar. O governo não pode permitir que nos usem como cobaia. O milho transgênico que está em pauta não pode ser aprovado”, completou.

Ausência de documentos

A ONG Terra de Direitos solicitou recentemente à CTNBio uma cópia do processo de liberação comercial do milho transgênico da Bayer, resistente ao glufosinato de amônio. No entanto, no pacote recebido, o qual o Greenpeace teve acesso, estão faltando 45 páginas. De acordo com a carta de encaminhamento que antecede as páginas ausentes, estão faltando três documentos referentes à quantidade de agrotóxico que chegará à mesa dos consumidores brasileiros.
Greenpeace, 09/11/2006.

6. O retorno da ilegalidade?
Ficou mesmo para novembro uma possível decisão sobre a liberação comercial do milho transgênico. A notícia aguardada pelo setor privado, e também por muitos agricultores brasileiros, foi adiada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Expectativa frustrada especialmente para as multinacionais detentoras da tecnologia.

A lentidão no processo faz ressurgir o temor da ilegalidade, pois não há consenso entre os 27 integrantes da comissão. O problema é que o milho transgênico poderia repetir a mesma trajetória da soja maradona. O alerta vermelho já foi disparado em solo gaúcho. Na safra passada, ZH localizou vários produtores que já estavam testando o milho geneticamente modificado contrabandeado da Argentina.

Três tipos de milhos encabeçam a lista de pedidos para serem liberados. E o assunto levou praticamente um ano, após a Lei de Biossegurança ter sido oficializada em dezembro de 2005 por meio de decreto, para entrar na pauta de votação da CTNBio no fim da semana passada. Mas quando esta etapa for vencida, ainda será preciso passar pelo crivo do Conselho Nacional de Biossegurança, formado por 11 ministros.

Tudo indica que a morosidade está se sobrepondo à precaução. E a ilegalidade ganhando, indiretamente, um aliado e tanto para a safra de verão 2006/2007.
Zero Hora, 27/10/2006.

N.E. Mais uma matéria panfletária, que além de soar como uma ameaça velada, traz informações imprecisas: 1. as decisões da CTNBio não dependem de consenso; 2. não necessariamente as decisões tomadas pela CTNBio devem “passar pelo crivo” do CNBS; 3. a pauta da CTNBio não é formada só por pedidos de liberação comercial e seu papel não é o de liberar açodadamente os transgênicos; 4. há um acordo na Comissão para  que suas normas internas que detalham os procedimentos para tomada de decisão, que em geral foram feitas há 10 anos, devem ser revistas e atualizadas.

7. Soja transgênica em alimentos
Alunos da UFSC detectam produto geneticamente modificado em itens como salsicha

A indústria nacional está cumprindo as medidas do decreto 4680, que determina limite de 1% de soja transgênica em produtos alimentícios. Em contrapartida, a presença de milho transgênico foi detectada em produtos derivados do grão, cuja utilização ainda é proibida no Brasil.

Legislação

Produtos onde a presença da soja transgênica ultrapassar o limite de 1% devem ser rotulados
As constatações estão nas pesquisas realizadas pelos estudantes Fábio Brod e Andréia Zílio Dinon, do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos, vinculado ao Centro de Ciências Agrárias (CCA), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os alunos foram premiados pelos trabalhos no 20º Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos, entre 8 e 11 de outubro, em Curitiba.

Tendo em vista que amostras realizadas pelo departamento em 2000 e 2001 apontavam a presença de soja geneticamente modificada de até 10% em diferentes produtos, a pesquisa realizada por Fábio mostrou respeito aos direitos do consumidor. “Analisei 37 amostras com produtos de proteína texturizada de soja. Em 25, foi detectada a presença do grão transgênico, mas apenas dois ultrapassaram o limite de 1% e, por isso, devem ser rotulados”, explica o doutorando.

O estudante testou itens como salsicha, mortadela, presunto cozido, hambúrgueres, empanados de frango, salame e almôndegas, temperos e corantes. “O método de detecção do DNA transgênico pode ser útil para indústrias de carnes interessadas em controlar a presença do gene alterado em aditivos utilizados na fabricação de produtos cárneos”, declara.

Fábio esclarece que o objetivo de seus estudos não é polemizar a utilização de gene modificado, mas auxiliar no cumprimento da lei. “A rotulagem é obrigatória e dá ao consumidor o direito de escolha ao adquirir os produtos”, argumenta, lembrando que alimentos transgênicos são muito recentes na alimentação mundial, faltando, ainda, dados sobre seus efeitos.
A Notícia, 05/11/2006.

8. Cade aprova sem restrição operações da Monsanto

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou ontem, sem restrições, duas operações envolvendo a empresa multinacional Monsanto, responsável pelo desenvolvimento e comercialização de produtos das novas tecnologias na agricultura, como defensivos agrícolas e sementes, inclusive geneticamente modificadas.

A primeira operação aprovada foi a da aquisição da empresa Delta and Pine Land Company (D&PL) pela Monsanto, que atua no Brasil no comércio de sementes de algodão e tem 51% do mercado. Segundo o conselheiro do processo no Cade, Paulo Furquim de Azevedo, a operação não traz prejuízos à concorrência no Brasil, porque a Monsanto tem uma participação de apenas 0,7% na comercialização de sementes de algodão.

A outra operação aprovada pelos conselheiros do Cade foi a concessão do direito de uso da tecnologia empregada no plantio e comercialização de milho híbrido (não geneticamente modificado) pela Monsanto à Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola (Coodetec), mediante pagamento de royalties. O conselheiro Abraham Benzaquen Sicsú, argumentou que a operação traz benefícios sociais pela difusão da tecnologia.
Jornal do Commercio, 09/11/2006.

9. Mais transgênicos nos campos
Milho em baixa leva produtor catarinense a preferir plantar soja geneticamente modificada

Nunca se plantou tanta soja transgênica no Estado. A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc) calcula que 90% das sementes que estão sendo jogadas no chão são geneticamente modificadas. E a área plantada está em alta, por causa dos baixos preços do milho. A expectativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de que sejam cultivados 373,5 mil hectares 10% a mais que no ano passado.

O vice-presidente da entidade, Enori Barbieiri, acredita que a maior parte dos agricultores catarinenses vai optar por sementes certificadas, já que o custo, segundo ele, é insignificante, perante os benefícios obtidos. Quem optar por semente certificada está pagando R$ 0,30 em royalties por quilo adquirido. Outro fator que favorece o plantio de sementes certificadas é que, ao contrário do que ocorre no Rio Grande do Sul e do Paraná, os agricultores catarinenses não terão acesso a financiamentos oficiais se optarem por plantar as sementes salvas, aquelas produzidas em casa, sem nenhuma certificação, ou contrabandeadas. A medida visa a coibir as sementes piratas que vieram da Argentina há mais de cinco anos.

O produtor que optar por plantar as salvas fica obrigado a pagar royalties à multinacional detentora da tecnologia, a norte-americana Monsanto, no momento da comercialização da safra. Nesse caso, o valor cobrado é de 2% sobre a produção vendida. Pela cotação de ontem, em Chapecó, seria R$ 0,57 por quilo. “Vai haver fiscalização constante”, diz o delegado do Ministério da Agricultura em Santa Catarina, Francisco Castelli.

O agricultor Paulo Rosina, do interior de Chapecó, produziu as sementes e está custeando a lavoura com recursos próprios, sem depender de financiamento federal. “A semente é a mesma que no ano passado rendeu até 3.300 quilos por hectare”, relembra.

A produtividade média catarinense na última safra foi de 2.409 quilos por hectare, segundo o Centro de Estudos de Safras e Mercado (Cepa/Epagri). O engenheiro-agrônomo da Cooper Rural, em Xanxerê, Edilson Palavro, disse que na região do Alto Irani (Oeste do Estado) a expectativa é de um aumento de 30% na área plantada de soja.

Ele avalia que pelo menos 15% - 85 mil hectares - já foram plantados. Cerca de 70% da soja é geneticamente modificada. “O custo de produção é mais baixo que o milho e os produtores possuem sementes próprias”, justifica. A situação se repete em Ouro Verde, município pioneiro no plantio da soja geneticamente modificada. O secretário da Agricultura, Moacir Mottin, calcula que a área plantada deve crescer 10%, atingindo 7.500 hectares, e diz que 90% da soja é geneticamente modificada em razão da redução nos custos de cultivo. “A maioria dos agricultores produziu a própria semente”, afirma Mottin.
A Notícia, 07/11/2006.


Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Sementes crioulas: um banco de biodiversidade

O presente artigo mostra o trabalho de resgate da biodiversidade desenvolvido pela regional de Tupanciretã do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) através da organização de um banco de sementes crioulas.

A atividade se desenvolve dentro da campanha “Sementes: Patrimônio da Humanidade” da Via Campesina, a qual pretende conscientizar tanto agricultores como a população em geral da importância do controle das sementes por parte dos agricultores familiares.
O trabalho apresenta os passos seguidos por agricultores, técnicos e freis que trabalham em Tupanciretã, que se dispuseram a coletar, selecionar e guardar sementes crioulas para montar um banco que mostre a diversidade existente nos assentamentos da reforma agrária.

INTRODUÇÃO

Diante da grande perda de sementes crioulas e sua conseqüente perda de biodiversidade por parte da agricultura familiar, a Via Campesina lançou durante o III Fórum Social Mundial, a campanha “Sementes: Patrimônio da Humanidade”. A campanha também pretende barrar a entrada de sementes transgênicas dentro da agricultura familiar, considerando elas um novo pacote tecnológico que provocará ainda mais dependência e exclusão nos agricultores.

Dentro desse contexto, o MST, membro integrante da Via Campesina, tem proposto para suas diferentes regionais ações que incentivem a produção de sementes crioulas, lançando cartilhas e propondo ações concretas. A partir daí, surge na regional de Tupanciretã a proposta de criar um banco de sementes organizado por agricultores assentados, a Coptec (Cooperativa de Prestação de Serviços Técnicos Ltda.) e os Freis Capuchinos e Franciscanos moradores do assentamento Santa Rosa.

A HISTÓRIA DAS SEMENTES

Desde começos da humanidade, agricultores e especialmente agricultoras, têm conservado, selecionado e melhorado sementes, dando origem a uma grande diversidade de cultivos e variedades utilizadas na produção agrícola.

Os camponeses e camponesas de todo o mundo têm sido desde sempre os principais responsáveis pela manutenção da biodiversidade de cultivos, mantendo variedades adaptadas a diferentes regiões, por gerações.

Lamentavelmente, hoje em dia está se perdendo grande parte desta biodiversidade devido as sementes tornarem-se uma mercadoria, nas mãos das multinacionais, gerando um grande negócio que produz muito lucro.

Com a “Revolução Verde” a produção agrícola no Brasil passa a depender de insumos externos. Agroquímicos e maquinaria agrícola se fazem cada vez mais comuns no meio rural, gerando tal dependência no agricultor que muitos deles esqueceram como produzir sem eles.

Hoje acontece na nossa frente a segunda fase da “revolução”, onde as multinacionais expandem cada vez mais seu controle na produção e comercialização de sementes.
Esse processo de perda do controle das sementes por parte dos agricultores começa com o desenvolvimento das sementes híbridas e chega o seu cume com o surgimento das sementes transgênicas com suas políticas de royalties e a perda de seu poder germinativo.

Os movimentos participantes da Via Campesina, conscientes dessa problemática decidiram enfrentar este processo, conscientizando tanto agricultores como o resto da sociedade de que “nenhuma nação será soberana se não tiver o domínio da produção de sementes” (Via Campesina, MST, 2002).

Por esse motivo o MST, definiu organizar uma série de atividades que levem os seus agricultores tomar consciência da problemática, impedindo a perda de um dos insumos mais importantes para manter a soberania alimentar dos povos. O desenvolvimento de bancos de sementes regionais entra dentro das pautas discutidas e o primeiro banco que surge dentro desta conjuntura é na regional de Tupanciretã.

RESGATANDO SEMENTES

Os Freis Capuchinos e Franciscanos da Comunidade Pe. Josimo, têm desenvolvido nestes quatro anos de trabalho em Tupanciretã diferentes ações para permitir o resgate de sementes crioulas, produção de mudas de ervas medicinais e trabalhos em agroecologia em vários assentamentos do município, trabalho que se intensifica com a chegada da equipe técnica da Coptec em Tupanciretã há aproximadamente um ano e meio.

Incentivados com o surgimento da campanha “Sementes: Patrimônio da Humanidade”, vários técnicos do movimento junto com os freis e agricultores interessados resolvem montar um banco de sementes que permita mostrar a biodiversidade existente dentro dos assentamentos da reforma agrária de Tupanciretã.

O trabalho começou reunindo a equipe interessada para definir a forma em que se desenvolveria o trabalho. Definiu-se centralizar as sementes na comunidade dos freis, até conseguir identificar e classificar as mesmas.

As sementes foram chegando até a comunidade ou recolhidas nas casa dos agricultores durante visitas da assistência técnica. As mesmas têm como origem assentamentos e reassentamentos do MST, MAB (Movimento doa Atingidos pelas Barragens) e Municipários, estes últimos vinculados ao MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores).

Logo após juntar uma boa quantidade de sementes, optou-se por adquirir potes de plástico transparente e com tampa para colocar as sementes e uniformizar as embalagens. Durante um dia de trabalho, se identificou, classificou, fotografou e colocou-se nos potes mais de 130 variedades de sementes. Posteriormente foram  digitalizados os nomes e impressos em etiquetas adesivas que foram coladas nos potes. Foram utilizados nomes populares para identificar as sementes, proporcionados pelos próprios agricultores.

O banco foi instalado no escritório regional do MST em Tupanciretã e é apresentado em feiras, encontros e congressos, onde distribui-se e realiza-se trocas de sementes.

Acompanhando o banco foi montado um banner que identifica a origem das sementes e mostra uma grade com fotografias e o nome popular de várias sementes classificadas.
O banco atualmente conta com aproximadamente 150 variedades de sementes, destacando-se 60 variedades de feijão, 30 variedades de milho crioulo e variedades de amendoim, soja e diferentes cucurbitáceas.

Atualmente, a prioridade do banco de sementes é a conservação e distribuição de sementes crioulas priorizando os agricultores da reforma agrária de Tupanciretã. Outro objetivo importante é mostrar para a sociedade a importância do resgate da biodiversidade, a necessidade da manutenção das sementes crioulas em mãos dos próprios agricultores e a importância da reforma agrária na construção desse modelo.

Num futuro próximo pretende-se fazer um catálogo impresso e digital (cd-rom) do banco de sementes introduzindo uma classificação taxonômica, anexando nome científico e características de produção. Esse catálogo permitiria escolher as sementes e encomendá-las via correio assumindo um termo de compromisso de devolução de uma quantidade “X” de sementes. Dessa forma as sementes crioulas se espalhariam, sendo o próprio agricultor o reprodutor dessas sementes e garantindo a continuidade do banco.

FREI SÉRGIO GÖRGEN. Biodiversidade e transgênicos. Conceitos básicos. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. 2003. 34 p.
VIA CAMPESINA BRASIL. Via Campesina. São Paulo: Via Campesina. 2002. 62 p.
VIA CAMPESINA, MST. Sementes: Patrimônio da humanidade. São Paulo: Ed. Peres Ltda. 2002. 18 p.
http://www.agroecologiaemrede.org.br/upload/arquivos/P64_2005-05-27_135047_055.pdf


**********************************************************
Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa [Tel.: (21) 2253-8317 / E-mail: [email protected] ]

Para acessar os números anteriores do Boletim e outros documentos publicados pela Campanha, clique em: http://www.aspta.org.br.

Participe! Indique este Boletim para um amigo e envie para nós suas sugestões de notícias, eventos e fontes de informação.

Para receber semanalmente o Boletim, envie uma mensagem em branco para [email protected]

***********************************************************
Caso não deseje mais receber este Boletim, envie uma mensagem em branco para [email protected]

**********************************************************

 

Banco Central   Associe-se  

Rodapé