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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 308 - 21 de julho de 2006

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O Congresso Peruano aprovou na última semana a Lei Geral de Desenvolvimento da Biotecnologia Moderna. O processo se deu sob forte protesto de organizações da sociedade civil, que agora se esforçam para tentar impedir que o presidente Alejandro Toledo sancione a lei.

O próprio nome da lei já diz claramente qual o seu objetivo: impulsionar a “biotecnologia moderna”, eufemismo usado para a técnica criada há 30 anos e cujos resultados obtidos até hoje estão muito aquém do prometido. Para isso, seu artigo 5o atribui ao Estado o papel de promover a “biotecnologia moderna” através de políticas, plano e financiamentos. A lei também cria a CONEBIO - Comissão Nacional Executiva de Biotecnologia, composta por representantes de entidades governamentais, acadêmicas e empresariais “a fim de promover a coordenação entre os setores público e privado”. As questões de biossegurança aparecem de forma marginal na lei. Seu penúltimo artigo institui um Comitê Assessor de Biossegurança. A composição e o funcionamento dependerão de regulamentação pelo poder executivo. Este comitê funcionará como assessor da CONEBIO.

Estes aspectos da nova lei peruana repetem o espírito do recém-lançado aqui no Brasil Fórum de Competitividade em Biotecnologia, onde as empresas do setor cobram do governo amplo financiamento público para suas atividades e fortalecimento dos direitos de propriedade intelectual ao mesmo tempo que ignoram a legislação nacional de meio ambiente e de biossegurança.

A Red de Acción en Agricultura Alternativa, a Red por una América Latina Libre de Transgénicos e a Red de Agricultura Ecológica del Perú divulgaram notas criticando a aprovação da lei e chamando atenção para os impactos negativos que ela trará, tanto para o meio ambiente como para a economia e a segurança alimentar. O Peru é um dos países mais biodiversos do mundo e centro de origem da batata, do tomate e do algodão colorido. Além disso, apresenta ampla diversidade de variedades de milho e de outros cultivos que compõem a base da alimentação dos peruanos.

Mostrando estar de costas para o povo, a  Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Patrimônio Cultural do Congresso Peruano, em seu parecer a favor do projeto de lei, afirmou que “As opiniões vindas da sociedade civil, em sua maioria, expressaram seu apoio à promoção da biotecnologia moderna no país, considerando que sem dúvida é uma das opções mais concretas de se alcançar um maior desenvolvimento econômico no marco da valorização sustentável da riqueza biológica do Peru”.

Para as entidades do Peru que acompanharam o processo, a lei facilita o saqueio da biodiversidade do País e de seu patenteamento, servindo apenas para se enquadrar às normas dos Tratados de Livre Comércio e aos interesses das grandes corporações.

O Brasil que se cuide, pois da mesma forma que em nome da “integração regional” setores do agronegócio estão buscando rebaixar nossas normas para agrotóxicos junto aos países do Mercosul, logo estarão querendo se espelhar na desastrosa lei peruana em busca de uma “harmonização” com os países da Comunidade Andina.
 
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Neste número:

1.
Cresce o cerco em torno do algodão transgênico ilegal
2. Cai embarque de grão em Paranaguá
3. Soja americana perde mercado
4. Grandes empresas revelam por que adotam política não-transgênica
5. Soja brasileira é apreendida no Paraguai
6.
Milho Transgênico - nocivo para o consumo humano?
7. Rotulagem agrada a órgãos de defesa do consumidor

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura

Alimentos orgânicos: melhor para a vida

Dica sobre fonte de informação
“Relatório Brasileiro de Mercado: a Indústria de Alimentos e os Transgênicos”, lançado pelo Greenpeace.
http://www.greenpeace.org.br/transgenicos/pdf/relatorio_2006.pdf
 
Evento
Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental - IV MOSTRA NO RIO
Data: 24, 25 e 26 de julho 
Hora: A partir das 18h
Local: Arte-Sesc, Rua Marquês de Abrantes 99 - Flamengo, Rio de Janeiro
Em cartaz: 10 filmes vencedores do 8° Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental de Goiás - FICA.
Entrada Franca
Classificação 18 anos
Informações: tel. (21) 3138 1343

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1. Cresce o cerco em torno do algodão transgênico ilegal
O Ministério da Agricultura informou ontem (dia 20) à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que ampliou de 20 para 25 as autuações por plantio ilegal de algodão transgênico nos Estados de Mato Grosso, Goiás, Bahia, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. A fiscalização, realizada em 75 propriedades dos cinco estados, encontrou 154 mil hectares com plantio irregular. A área equivale a 18% dos 845 mil hectares de algodão plantados no país. A Coordenação de Sementes e Mudas do ministério informou ao Valor que em 11% da área fiscalizada foram detectadas variedades com a tecnologia Roundup Ready, produzidas pela multinacional Monsanto, que são proibidas no país. Também foram encontradas variantes da semente resistente a insetos Bollgard, da Monsanto, a única autorizada pela CTNBio. “Já foram iniciados os processos de destruição das lavouras, inclusive da pluma de algodão”, disse o coordenador José Neumar Francelino. Em junho, a CTNBio recomendou a destruição do algodão ilegal por meio da aplicação de um agrotóxico dessecante e da trituração de todas as plantas encontradas, além da gradagem das áreas para incorporação do material orgânico ao solo. Em uma reunião de raro consenso, a CTNBio também aprovou quatro liberações planejadas de experimentos em campo que estavam sob avaliação desde a reunião de junho. “Foi uma discussão serena e tranqüila, de consenso”, disse o geneticista Rubens Nodari, representante do Ministério do Meio Ambiente na comissão. Foram autorizadas duas variedades de milho resistente a lagartas Lepidopteras e uma variedade de algodão resistente a insetos, todos produzidos pela multinacional Dow AgroSciences. Também foram aprovados os experimentos de campo com a batata resistente ao “potato virus Y” da Embrapa Hortaliças. O vírus causa enrugamento das folhas e queda na produção. Das quatro aprovações, apenas a Embrapa realizará estudos de biossegurança para avaliar impacto ambiental do transgênico. Os pedidos da Dow incluem só a avaliação da eficiência agronômica. Outros pedidos aguardam diligências para a adequação de isolamento, mas devem ser autorizados na próxima reunião, já que a CTNBio também limpou a pauta na análise de certificados de biossegurança (CQBs) - foram aprovados 40 processos de alteração de titulares de comissões internas das empresas, a extensão e a concessão de novos CQBs. Os membros da CTNBio também aprovaram as regras para o isolamento de milho transgênico, em discussão há muito tempo. Para ser autorizado, os experimentos terão que respeitar uma bordadura de contenção com dez linhas de outro tipo de milho e 400 metros de distância. Se estiver perto de um milho convencional, a exigência aumenta para 20 linhas de outro milho. Também serão necessários 40 dias de intervalo entre as datas de florescimento do transgênico e do convencional. Para estações experimentais com variedades crioulas serão exigidos os dois procedimentos. “Isso é para evitar o escape do transgene antes de sua aprovação comercial”, disse Nodari. Todos os processos terão que se adequar e as empresas serão comunicadas da mudança. A próxima reunião, em agosto, deve aprovar a resolução para níveis de biossegurança, classificação de risco e trabalhos em contenção com dispositivos para impedir a dispersão dos transgênicos.
Valor Econômico, 21/05/2006.

2. Cai embarque de grão em Paranaguá
Os embarques de soja em grão nos portos brasileiros somaram 14,270 milhões de toneladas no primeiro semestre deste ano, 25,2% mais que em igual período de 2005 (11,397 milhões de toneladas), de acordo com levantamento da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) baseado em informações de operadores portuários.
O aumento foi motivado, principalmente, pelo maior volume de soja disponível para exportação em 2006, tendo em vista a forte quebra da produção na região Sul no ano passado, em consequência de uma prolongada estiagem na região Sul. Sinal mais claro disso foi o expressivo incremento de 960% no porto de Rio Grande (RS) na comparação semestral, para 1,632 milhão de toneladas.
Mas o que mais chamou a atenção de Sérgio Castanho Teixeira Mendes, diretor-geral da Anec, foi a acentuada queda da movimentação em Paranaguá (PR). No porto paranaense, segundo a Anec, foram embarcadas 2,380 milhões de toneladas de janeiro a junho, 23,1% menos que nos primeiros seis meses de 2005.
A queda, segundo Mendes, ainda reflete os obstáculos impostos pela administração de Paranaguá ao embarque de soja transgênica, o que continua causando o desvio de cargas para São Francisco do Sul (SC). Procurada, a administração de Paranaguá preferiu não comentar a tendência. No porto catarinense, os embarques de soja em grão aumentaram 69,6% no primeiro semestre e alcançaram 1,976 milhão de toneladas.
Dos portos mais importantes para o escoamento das exportações de soja, o paranaense foi o único que registrou queda no período, conforme a Anec. Santos manteve a liderança nos embarques, com 4,333 milhões de toneladas até junho, 7,1% mais que nos primeiros seis meses de 2005.
O movimento aumentou 33,4% em Tubarão (ES), para 1,589 milhão de toneladas, 9% em Itacoatiara (AM), para 858 mil toneladas, 43,5% em Santarém (PA), para 531 mil toneladas e 63,3% em Ponta da Madeira (MA), para 833 mil toneladas.
Valor Econômico, 18/07/2006.

3. Soja americana perde mercado
A rejeição dos europeus aos produtos geneticamente modificados continua prejudicando as exportações norte-americanas de soja transgênica. As vendas de soja dos Estados Unidos para a Europa registraram queda de 48,20% neste ano, segundo informa o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Enquanto no ano passado, de janeiro a maio, foram exportadas 2,012 milhões de toneladas, neste ano, no mesmo período, foram embarcadas apenas 1,042 milhão de toneladas para o continente europeu.
As exportações para o mercado mundial da soja transgênica dos EUA também estão em baixa, com queda de 10,46% neste ano. O volume embarcado nos cinco primeiros meses de 2006 é de 11,120 milhões de toneladas, contra exportações de 12,419 milhões de toneladas em 2005.
A redução progressiva das vendas dos EUA de soja transgênica para o mercado europeu preocupa a American Soybean Association (ASA), que reúne 25 mil produtores norte-americanos de soja. A associação revela que, desde que a União Européia adotou medidas restritivas a produtos geneticamente modificados, as exportações norte-americanas despencaram de US$ 4,2 bilhões em 1996 para apenas US$ 1,6 bilhão em 2004.
Paraná On Line, 16/07/2006.

4. Grandes empresas revelam por que adotam política não-transgênica
Para atender exigências do mercado, algumas das maiores indústrias de alimentos e redes varejistas que atuam no Brasil já adotaram uma política de não utilização de transgênicos. Essa é a principal conclusão do “Relatório Brasileiro de Mercado: a Indústria de Alimentos e os Transgênicos”, lançado hoje pelo Greenpeace no auditório da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), em São Paulo. O estudo comprova que essa política traz resultados lucrativos, sem implicar em dificuldades técnicas insuperáveis.
O documento, produzido por um jornalista independente e com prefácio do Instituto Ethos, conta a experiência de 13 grandes empresas alimentos que adotaram uma política de não utilizar organismos geneticamente modificados em seus produtos. O estudo se baseia no depoimento de dez fabricantes de alimentos (Batavo, Brejeiro, Caramuru, Ferrero, Imcopa, Josapar, Perdigão, Sadia, Sakura e Unilever) e três redes varejistas (Carrefour, Pão de Açúcar e Sonae). Juntas, têm um faturamento anual de mais de R$ 54,7 bilhões (levando-se em conta apenas as que divulgaram seus dados financeiros).
Apesar da aprovação da Lei de Biossegurança ter aberto caminho para a expansão da soja transgênica no Brasil, muitas companhias perceberam que a produção e a comercialização de produtos sem organismos geneticamente modificados poderia ser uma alternativa vantajosa, inclusive no mercado externo. É o caso da Caramuru Alimentos, a maior processadora de grãos de capital nacional do Brasil, que investe, desde 2000, na produção e exportação de derivados de soja não transgênicos (óleo, farelo e lecitina) para o mercado europeu. A empresa também produz o primeiro e único óleo de soja comprovadamente não-transgênico do mercado brasileiro. “Identificamos uma crescente demanda por produtos não-transgênicos e adequamos nossa estrutura de produção para atender esse novo e mais exigente mercado”, diz César Borges de Souza, vice-presidente da Caramuru Alimentos.
O exemplo da indústria de derivados de soja Imcopa é emblemático de como a opção por produtos livres de organismos geneticamente modificados pode transformar completamente, e para melhor, um negócio. Em 1998, a empresa optou por trabalhar apenas com o grão convencional e, em apenas sete anos, seu volume de soja processada aumentou oito vezes. “O principal benefício dessa política não-transgênica para a Imcopa é sua atuação em nichos de mercado com amplo reconhecimento por parte de seus clientes, notadamente aqueles localizados na Europa e na Ásia”, afirma Luiz Antonio Regi, gerente do departamento de qualidade da empresa.
O relatório mostra também que, apesar de ser difícil mensurar o retorno de marketing ou imagem decorrente da adoção dessa prática, nenhuma das empresas consultadas quis ter seu nome associado aos produtos transgênicos e todas temem a rejeição dos consumidores. “As indústrias e redes varejistas que adotam a política de não usar transgênicos estão atentas à vontade do brasileiro”, diz Gabriela Vuolo, da campanha de engenharia genética do Greenpeace. “Pode ser difícil para algumas companhias calcular esse retorno em valor monetário, mas elas sabem que, se optassem por usar transgênicos, correriam o risco de perder clientes”, avalia. Desde 2002, quando o Greenpeace encomendou a primeira pesquisa sobre a opinião dos consumidores brasileiros a respeito dos produtos geneticamente modificados, o índice de rejeição aos transgênicos é superior a 70%, tendo variado um ou dois pontos ao longo dos anos.
Greenpeace, 18/07/2006.

5. Soja brasileira é apreendida no Paraguai
Uma carreta transportando cerca de 30 toneladas e meia de soja brasileira foi apreendida por fiscais da aduana em Pedro Juan Caballero. O carregamento foi interceptado na terça-feira (18/07), numa estrada vicinal situada a aproximadamente cinco quilômetros da fronteira com Ponta Porã (MS).
O motorista Gustavo Alonzo de Rossi alegou que a carga era paraguaia e estava fazendo o transporte dentro do país. Todavia, durante a fiscalização constatou-se que a soja era contrabandeada  procedente de Mato Grosso do Sul  e poderia ser transgênica.
O caminhão é um Fiat, ano 80, com placas HQN-9958, de Naviraí. Gustavo afirmou que a soja seria de propriedade do produtor José Villalva, residente em Capitán Bado, cidade vizinha a Coronel Sapucaia. (...)
Correio do Estado, 20/07/2006.

6. Milho Transgênico - Nocivo para o Consumo Humano?
O milho transgênico chamado “Mon 863”, produzido pela Monsato, é considerado apto para o consumo humano, no México, desde 2003 tendo sido aprovado pela Secretaria de Saúde daquele país. No entanto, aparentemente, foram comprovadas algumas irregularidades durante o processo, como uma pesquisa que era mantida em segredo.
O experimento em segredo foi realizado com dois grupos de ratos. Um foi alimentado com o milho transgênico, o outro com uma cultivar convencional. O resultado da pesquisa foi que os roedores que comeram o milho transgênico apresentaram anomalia nos rins e na composição sanguínea, sintomas que não foram detectados nos animais alimentados com o milho convencional.
Para a empresa Monsanto, o resultado do experimento é “insignificante” e devem ser atribuídos a “variações normais entre os roedores”, e que “o plantio da “Mon 863” foi aprovado em vários países”, e finalizando “ se qualquer crítico da biotecnologia tiver dúvidas sobre a credibilidade dos estudos, deveria ter se expressado aos reguladores”.
Mundo Orgânico - Edição Internacional - Nº 13  07/2006.

7. Rotulagem agrada a órgãos de defesa do consumidor
Poucas entidades civis comemoraram tanto a obrigatoriedade de rotular produtos transgênicos - uma exigência do governo do Paraná, desde o mês passado - como os órgãos de defesa do consumidor.  
Ontem algumas dessas entidades estiveram reunidas no auditório do Ministério Público, em Curitiba, discutindo o assunto, ao lado de representantes das secretarias da Agricultura, Saúde, Indústria e Comércio, Transportes, além da Casa Civil. O objetivo era, mais uma vez, discutir como o plano de fiscalização será realizado no Paraná.
Desde o mês passado, produtos fabricados ou comercializados no Estado, que contenham mais de 1% de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) em sua composição, precisam ser rotulados - ou seja, apresentar a letra T dentro de um triângulo amarelo, símbolo de transgênico.
“Sempre fomos favoráveis à rotulagem. O consumidor tem o direito de escolher o que comprar. Ele precisa ter acesso a essa informação”, defendeu Rômulo Ferreira da Silva, secretário da Associação de Defesa e Orientação do Cidadão (Adoc). Para ele, a exigência no Paraná pode surtir efeito também em outros estados. “Essa ação pode atingir todo o País”, acredita.
Segundo Silva, ainda existe muita confusão a respeito dos transgênicos e, principalmente, falta de informação. “Pode haver rejeição a esses produtos (rotulados), simplesmente porque as pessoas não conhecem os efeitos dos transgênicos. Acredito que os órgãos de defesa do consumidor e principalmente o Estado, deveriam fazer campanhas informando o consumidor. Aí cabe a ele escolher se quer consumir ou não”, comentou.
O consultor técnico do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Sezifredo Paz, também não tem dúvidas sobre a importância da rotulagem. “O Idec sempre colocou esta questão, desde 98. Chegou inclusive a interpor ação judicial exigindo a rotulagem”, afirmou. Segundo Paz, o Idec trabalha com três frentes no que se refere aos transgênicos -além da rotulagem, o órgão luta para que sejam feitos estudos de impacto ambiental e estudos sobre os riscos à saúde.
Fiscalização
O promotor de Justiça Edson Luiz Peters explicou que a audiência de ontem finalizou a fase de orientação - no início do mês, os setores agrícola, industrial e comercial participaram de um evento semelhante, também no Ministério Público. “A partir de agosto, inicia a fiscalização, a fase mais punitiva. E se forem encontradas irregularidades, as empresas serão notificadas, autuadas”, alertou o promotor.
Paraná Online, 21/07/06.

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
Alimentos orgânicos: melhor para a vida

As primeiras experiências com modelos alternativos de agricultura ocorreram no início do século passado, sendo que o movimento passou a ganhar força a partir dos anos 60/70, com o nome de Agricultura Alternativa.   
 
Este movimento era a soma de diversos grupos distintos, com base em grande diversidade de conceitos e filosofias, todos eles tendo como princípio a busca de uma agricultura ecologicamente sustentável, economicamente viável, socialmente justa, culturalmente adaptada e tecnicamente apropriada.

A partir dos anos 80 e 90, o mercado de alimentos orgânicos passou a se expandir à razão de 30 a 50% ao ano, atingindo atualmente um valor em torno de US$ 40 bilhões. As causas para este aumento são, por um lado do aumento da consciência ecológica a nível mundial, materializada na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), mais conhecida como Eco 92, e por outro devido a diversos problemas de contaminação de alimentos ocorridos na Europa. Entre estes, a contaminação do solo e alimentos pelas nuvens de radiação decorrente do acidente nuclear de Chernobil em 1986; a doença da “Vaca Louca” (Encefalopatia Bovina Espongiforme, BSE), a partir de 1996 na Inglaterra; a contaminação de leite por dioxina na Alemanha, França e Holanda em 1998; a contaminação generalizada dos alimentos por agrotóxicos. Estes acidentes causaram verdadeiros pânicos alimentares, levando os consumidores a procurar alimentos mais seguros.

Alimentos orgânicos são alimentos produzidos a partir de um sistema de produção que não se reduz a uma única cultura, mas leva em conta o conjunto das explorações da unidade produtiva, as interações entre si e com o ambiente do entorno. É baseado no enfoque sistêmico, onde cada cultura ou exploração constitui um subsistema dentro de um sistema maior que é a propriedade, que por sua vez é um subsistema incluído dentro de um sistema maior, como a comunidade ou a microbacia. Na produção orgânica se privilegia a conservação ambiental como um dos componentes da produção, alem de fomentar e destacar a biodiversidade, os ciclos biológicos e a atividade biológica do solo.

Não é permitida a utilização de agrotóxicos tais como inseticidas, fungicidas, herbicidas, nem de antibióticos, hormônios e aditivos artificiais, ou de organismos geneticamente modificados (OGMs ou transgênicos) e a utilização de radiações ionizantes. Os controles de organismos que podem se tornar pragas ou doenças são manejados através de controle ambiental, práticas culturais e, eventualmente em casos de desequilíbrios extremos, utilizam-se pontualmente produtos de baixo impacto toxicológico.

Neste sistema de produção se procura maximizar a recirculação dos nutrientes e da matéria orgânica. Priorizam-se o uso de recursos naturais renováveis, principalmente os localmente disponíveis. Procura-se utilizar eficientemente a energia solar e os processos biológicos para diminuir a dependência por recursos não renováveis.

Visando incentivar o desenvolvimento deste sistema de produção, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, realizou no período de 23 a 30 de junho, em todo território nacional, a II Semana Nacional dos Alimentos Orgânicos. No Mato Grosso do Sul, a semana foi organizada pela Comissão Estadual de Produção Orgânica (CEPOrg-MS) e em Corumbá foi Coordenada pela Embrapa Pantanal, Secretaria Municipal de Pecuária e Agricultura, Idaterra, UFMS e UCBD. Esta semana teve como objetivo o esclarecimento da sociedade em geral, e, mais especificamente, o consumidor urbano, sobre o que é produto orgânico e a importância de seu consumo.

Esta campanha visou, entre outras coisas, trabalhar a idéia do consumo responsável, que subentende um consumidor que considere, na hora de decidir pelos produtos que vai comprar, questões relacionadas à saúde humana, ao meio ambiente e a aspectos sociais, relacionados ao processo produtivo.

A concentração cada vez maior da população nas áreas urbanas aumenta o distanciamento entre quem consome e quem produz os produtos agropecuários. Esse distanciamento dificulta que o consumidor urbano avalie a sua influência sobre o que e como se produz no campo.

Isto fica bastante evidenciado pelo forte aumento da demanda de certificações relacionadas a aspectos de saúde, ambientais e sociais, que vem acontecendo principalmente nos países mais desenvolvidos. Esse aumento é proporcional ao crescimento da consciência dos consumidores que nesses países possuem maiores níveis de escolaridade e de acesso à informação.

Embora não haja dados oficiais sobre a agricultura orgânica no Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento estima que área envolvida com produção orgânica chega a 8,6 milhões de hectares, incluindo o extrativismo sustentável, e envolvendo cerca de 20.000 agricultores. Já segundo o Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), 500 mil hectares são cultivados com produtos orgânicos (excluído o extrativismo), sendo que o mercado brasileiro estimado entre de US$ 150 milhões a US$ 300 milhões ao ano, dos quais entre US$ 100 milhões e US$ 110 milhões, destinados ao mercado externo.

No Mato Grosso do Sul, a produção orgânica começou a ter impulso mais organizado a partir do Primeiro Seminário de Agroecologia no Mato Grosso do Sul, realizado em 2002, e que permitiu a união de esforços dos diferentes atores que atuavam de forma isolada no estado. Atualmente, existe um pólo de produção orgânica se consolidando na região da Grande Dourados, englobando os municípios de Dourados, Glória de Dourados, Ivinhema, Nova Andradina, Rio Brilhante, Caarapó, Douradina, Itaporã e Juti. Outro pólo está iniciando no entorno da capital Campo Grande, principalmente em função da demanda de produtos orgânicos da capital. Além dos dois pólos, algumas iniciativas mais isoladas ocorrem em outros municípios do estado, enfrentando dificuldades devido ao seu isolamento.

Na região de Corumbá, ainda não existe produção orgânica certificada, no entanto como é uma região ecologicamente sensível, o sistema de produção orgânica é altamente indicado para esta situação. Além disso, existe certa facilidade para a conversão dos sistemas de produção existentes para o sistema de produção orgânica já que na maioria dos casos, não se usam intensivamente os insumos químicos que são proibidos nos sistemas orgânicos. Como os índices de produtividade regionais são relativamente baixos, também não haverá grande redução de produtividade das explorações durante a transição, o que costuma acontecer temporariamente nos sistemas de alta produtividade, dependentes de insumos químicos.
Embrapa Pantanal,14/07/06
Alberto Feiden - [email protected], é pesquisador, Engenheiro Agrônomo.
Denise Justino da Silva - [email protected], é TNS, Jornalista. Ambos trabalham na Área de Comunicação e Negócios da Embrapa Pantanal.


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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa [Tel.: (21) 2253-8317 / E-mail: [email protected] ]

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