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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 279 - 18 de novembro de 2005

Car@s Amig@s,

Prova cabal de que inexiste no País uma política de biossegurança foi dada esta semana com a confirmação de que sementes de milho transgênico, também contrabandeadas da Argentina, estão sendo vendidas no Rio Grande do Sul. A denúncia foi feita pelo Deputado Frei Sérgio Görgen (PT-RS) em discurso na Assembléia Estadual.

Por três vezes nos últimos dois anos recebi denúncias anônimas da existência de milho transgênico no Rio Grande do Sul. Porém, conseguida a amostra e testada em laboratório, o resultado foi negativo. A probabilidade foi de agricultores enganados e pagando caro por mais uma fraude neste mundo de espertezas.

Agora, há duas semanas, nova denúncia anônima. Porém, desta vez, as indicações eram muito precisas. Solicitei a um agricultor que procurasse adquirir a semente, o que foi feito. O vendedor afirmava estar vendendo semente de milho transgênica vinda da Argentina.

Diante de tal evidência, encaminhei parte da amostra ao Ministério Público Federal (dia 10/11/05), juntamente com as informações, solicitando investigações. Solicitei também exame laboratorial de outra parte da amostra do milho adquirido. O teste teve resultado positivo com contaminação de 27,5%, de sementes contaminadas com milho GA21, da Monsanto, resistente ao herbicida Roundup [também da Monsanto].

Este milho foi vendido como transgênico, dito importado da Argentina, a preços exorbitantes (aproximadamente R$ 300,00 por saca de 20 Kg.) pela Agropecuária Campesato de Barão do Cotegipe, na região do Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul. Acontece que milho transgênico continua proibido no Brasil para comercialização e  plantio comercial. Então, o que estamos analisando é contrabando, comércio e plantio ilegal, isto é, ilícito penal.

Mas o que vemos é parte de uma estratégia. Quem movimenta as peças é a multinacional Monsanto - acostumada a agir ao arrepio da lei, destruir o meio ambiente e a economia de pequenos agricultores - que cria o fato consumando e depois adquire a legalidade à custa de lobbies e seus acessórios, peças publicitárias, notícias aparentemente independentes e cientistas a soldo. Na ponta, vale-se do desespero e da ilusão de agricultores vítimas das políticas agrícolas e da ambição desmedida de contrabandistas e comerciantes. A Monsanto e outras semelhantes escondem-se de suas responsabilidades e agem (e pagam) nas sombras. Cravam a unha e escondem a mão.

Nos últimos anos, estamos pagando o preço do fracasso da soja transgênica enquanto seus fabulosos lucros com a venda de glifosato e com a arrecadação de royalties só cresceu.

No caso do milho, porém, o caso é gravíssimo, infinitamente mais grave que a soja, pois:

1° - Há uma nova lei, feita a imagem e semelhança das multinacionais dos transgênicos, sob a patética omissão (ou obtusa missão?) do governo Lula. Fizeram uma lei como bem quiseram e agora nem a esta respeitam buscando primeiro legalizar o milho transgênico para depois plantá-lo. O que pensar de quem impõe uma lei totalmente permissiva e nem a esta se digna a respeitar?

2° - No caso do milho o risco de contaminação é infinitamente maior que a soja e pode rapidamente contaminar todo o milho da região e do estado em pouco tempo, pois sua polinização é aberta e cruzada e pode se propagar em até 9 quilômetros através de insetos, pássaros ou correntes de ventos. (...)

3° - O plantio comercial anárquico e desorganizado de milho transgênico coloca em risco toda a avicultura e suinocultura gaúcha que depende de exportação, pois fechará mercados importadores de aves e suínos que não aceitam alimentação transgênica na produção destas carnes. O milho é a base da produção destas carnes e é bom lembrar que a ADM Três Passos encerrou suas atividades naquele município pois a Sadia não mais comprava seu farelo de soja para ração por causa da contaminação rejeitada pelo mercado importador.

4° - Coloca sob suspeita de contaminação boa parte da culinária gaúcha que utiliza o milho como ingrediente. E talvez eu não seja o único que me recuse a consumir polenta transgênica.... (...)

Cabe-nos exigir:

- Do Ministério Público Federal o cumprimento de suas funções constitucionais, encaminhando o que lhe cabe;

- Da Polícia Federal investigação imediata, rigorosa e pública;

- Do Ministério da Agricultura, especialmente do Ministro, um dos grandes responsáveis pelo caos instalado, o fim de qualquer claudicação, o fim do jogo dúbio, o fim da proteção ao ilícito, o fim da mancomunação com a estratégia da Monsanto, vergonha na cara e ação imediata;

- Do Presidente Lula, ação pessoal, direta, rigorosa,  imediata, sem vacilação, sem tergiversação, com a autoridade que a função lhe confere - até porque, o caso do milho, é fruto dos equívocos de seu governo e não herança de FHC como pode ser alegado como desculpa no caso da soja. O mínimo que o Presidente pode fazer é demitir os agentes do lobby da Monsanto encastelados em seu governo, alguns no próprio Palácio do Planalto, no  Ministério da Ciência e Tecnologia e no Ministério da Agricultura, pois são estes que estimulam a instalação do fato consumado com o estímulo de que depois segurarão a barra dentro do governo, como de fato já fizeram com a soja e com o algodão.”

Ainda bem que a CTNBio não está funcionando e sua recomposição depende ainda de o presidente assinar o decreto regulamentador da Lei de Biossegurança. Caso contrário, a tirar por experiências anteriores, como o caso do algodão, não seria de estranhar ver seus membros correrem para propor “em bases científicas” a liberação de um limite de contaminação para as sementes de milho.

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Neste número:

1. Venda ilegal de milho transgênico será apurada
2. Lei de Biossegurança está quase pronta para regulamentação
3. Muitos cálculos antes de fazer a opção
4. Processamento de soja tem futuro incerto no Brasil
5. Testes com ervilhas GM mostram reação negativa em ratos

Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
"A natureza é um modelo tecnológico perfeito"
A produção de verduras e frutas pelo sistema agroecológico está dando certo em Porto União (SC). O trabalho de um agricultor está dando bons resultados e motivando mais gente a investir neste tipo de agricultura.
 
Dica sobre fontes de informação
Agora, chega o milho transgênico contrabandeado
Brasil de Fato, Edição n. 142, 16/11/2005.
http://www.brasildefato.com.br/nacional/142agora%20chega.php
 
Evento
Curso sobre Horta Orgânica Caseira, dia 26/11/2005
Temas: Introdução ao cultivo orgânico de hortaliças / Implantação: localização, limpeza e montagem dos canteiros, planejamento da horta, formação de sementeiras / Cultivo em vasos, floreiras e outros materiais recicláveis / Condução: plantio, tratos culturais, principais pragas / Tipos de compostos e substratos, controle biológico, inseticidas caseiros.
Local: Sede da AAO, Parque da Água Branca / SP
Contatos: Tel: (11) 3875-2625 / organica@uol.com.br / http://www.aao.org.br/horta.asp
 
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1. Venda ilegal de milho transgênico será apurada
O Ministério da Agricultura vai investigar a denúncia feita pelo deputado estadual Frei Sérgio Görgen (PT-RS), de venda ilegal de milho transgênico no Rio Grande do Sul. O superintendente federal da Agricultura no Estado, Francisco Signor, estava ontem (dia 17) em Brasília e não tinha detalhes sobre o caso.
Ele disse que a denúncia será investigada pelo Ministério, mas são necessárias indicações mais precisas sobre a localização de plantações de milho transgênico “Se descobrirmos que alguém plantou, vamos destruir a lavoura, multar e abrir um processo contra o agricultor”, disse.
Görgen encaminhou à Polícia Federal e à Superintendência da Agricultura a denúncia da venda de sementes de milho transgênico resistentes ao herbicida glifosato. O produto foi comprado em uma agropecuária no município de Barão do Cotegipe e teria sido contrabandeado da Argentina.
O deputado disse que pediu a um amigo para comprar as sementes, após receber denúncia anônima. O produto foi analisado pelo laboratório Alac, de Garibaldi (RS), que indicou um índice de transgenia de 27,5%. Görgen também comunicou o fato, por e-mail, ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
“Foi o mesmo que aconteceu com a soja transgênica a partir de 1996. Pequenas quantidades foram contrabandeadas até que se criou um fato consumado”, afirmou. Hoje o plantio de soja transgênica está legalizado no país e a regulamentação da nova lei de biossegurança deve ser publicada nos próximos dias.
Iwao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), disse que o contrabando de sementes de milho já ocorria no estado e o mesmo ocorre  com sementes transgênicas de soja e algodão. Ele disse ainda que hoje o Ministério da Agricultura não fiscaliza as vendas nas agropecuárias.
Narciso Barison Neto, presidente da Apassul (que reúne as sementeiras gaúchas), confirmou que a venda de semente contrabandeada da Argentina é comum e que, neste ano, as vendas de sementes legais no Estado caíram 30% em razão do avanço do uso de produtos “piratas”.
Valor Econômico, 18/11/2005.

2. Lei de Biossegurança está quase pronta para regulamentação
Considerada pela oposição um símbolo da lentidão do governo Lula em resolver questões polêmicas, a regulamentação da nova Lei de Biossegurança do país está pronta para ser publicada após oito meses de brigas de bastidores no governo entre favoráveis e contrários aos transgênicos.
Marcado por divergências de todo tipo, o decreto de regulamentação está emperrado, porém, em um detalhe: não há acordo sobre o quorum mínimo para autorizar a liberação comercial de transgênicos pela remodelada Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Favoráveis aos transgênicos, os ministérios da Agricultura, Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia querem emplacar a maioria simples, o que exigiria 14 dos 27 votos do plenário da CTNBio. De outro lado, os ministérios do Meio Ambiente, Saúde e Desenvolvimento Agrário buscam impor o quorum qualificado de dois terços (18 votos) para dificultar as aprovações. Para a pesquisa científica, valerá a maioria simples dos membros.
O impasse será resolvido pessoalmente pelo presidente Lula, que ontem prometeu regulamentar a lei na próxima semana. A nova CTNBio só terá os membros indicados depois dessa fase.
Apesar das intensas desavenças internas, houve avanços e acordos. O principal deles, segundo apurou o Valor, será a obrigação dos membros de declarar a inexistência de conflito em suas decisões, como, por exemplo, em liberações comerciais de transgênicos. O objetivo é evitar conflitos entre princípios da biossegurança e o interesse das empresas. Segundo João Paulo Capobianco, secretário de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, "isso é fundamental para garantir a transparência do processo e a responsabilização dos membros". Se não se declarar impedido, e seu voto for decisivo para a aprovação de um tema, a decisão da CTNBio poderá ser anulada. O decreto também deverá acabar com a até hoje criticada representação das empresas de biotecnologia no colegiado, em vigor desde sua fundação, em 1995.
O decreto prevê, ainda, a uniformização dos procedimentos de fiscalização com um padrão único para Agricultura, Meio Ambiente e Saúde. "As leis não eram factíveis. Agora, teremos instrumentos para atuar", diz o coordenador de biossegurança da Agricultura, Marcus Vinícius Coelho. E as multas para punir quem desrespeitar à lei serão fixadas entre R$ 1,5 mil a R$ 2 milhões, segundo a infração.
A regulamentação agradou aos ambientalistas ao prever a suspensão da tramitação de uma liberação comercial, por exemplo, quando houver um recurso ao Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), composto por onze ministros. A medida valerá durante todo o prazo de avaliação do processo. Como avanço, também é apontada a regulamentação da realização de audiências públicas em casos de liberação comercial de transgênicos. A decisão dependerá, porém, de votação no plenário da CTNBio.
O novo instrumento também deve permitir outro tipo de participação da sociedade nas decisões da CTNBio. Muito criticada pelos opositores da biotecnologia, a comissão terá seis dos seus 27 membros especializados em direitos do consumidor, saúde pública, meio ambiente, agricultura familiar, direitos do trabalhador e biotecnologia.
Espera-se dar mais transparência às decisões. As indicações, porém, serão feitas pelos ministérios a partir de consultas a instituições de cada área. A CTNBio terá ainda nove membros indicados diretamente pelos ministérios e 12 cientistas. Nesse caso, a indicação terá o crivo da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Todos os 27 membros serão obrigados a ter doutorado em sua área.
Valor Econômico, 17/11/2005.

3. Muitos cálculos antes de fazer a opção
Munidos de planilhas de custo-benefício, produtores americanos escolhem com consciência a semente. Livres para escolher a melhor variedade de soja para a sua propriedade, os agricultores do meio-oeste dos Estados Unidos - importante região produtora de grãos do país - ainda preferem ser cautelosos. Não é difícil encontrar quem separe alguma área para o cultivo do produto convencional e existe até quem aposte em pequenas lavouras de soja orgânica. A opção está longe de bandeiras políticas ou ambientais. É tudo uma questão de custo-benefício.
Do total da produção de soja nos Estados Unidos, 90% são de lavouras transgênicas. Há uma década, a tecnologia está disponível aos produtores que, protegidos pelos subsídios do governo, costumam adquirir o pacote tecnológico da empresa Monsanto, incluindo a semente Roundup Ready e o herbicida. Mas quem observa o quadro de perto identifica uma tendência no comportamento do setor.
Acostumados a fazer cálculos, esses agricultores não negam que o custo da saca da semente geneticamente modificada é maior do que a da convencional. Por isso, em algumas com menos inços - com menor necessidade de aplicação de herbicida - a conclusão é que ainda vale a pena manter alguns hectares com a variedade convencional.
A compensação é o prêmio na hora da comercialização, normalmente de 3% a 5% acima do valor pago pela variedade geneticamente modificada. Mercados como Japão e até União Européia continuam valorizando o alimento não-transgênico.
- Nenhum produtor quer pagar mais pela tecnologia. Aqui mesmo, alguns agricultores levaram de dois a três anos para aceitar a variedade geneticamente modificada - revela o agricultor Fred Yoder, do Estado de Ohio, uma liderança na região.
Yoder está encerrando a colheita nos seus 560 hectares e vê na soja transgênica um facilitador no controle da erva daninha. A sua propriedade, porém, está cercada de vizinhos que plantam até o produto orgânico. Ele mesmo vende sementes convencionais e defende a convivência de diferentes lavouras.
Na sua área, resolveu cultivar soja transgênica e dividir a lavoura de milho entre a variedade convencional e a geneticamente modificada. Não que seja contra a soja orgânica. Apenas não conta com estrutura para o manejo de lavouras sem aplicação de herbicidas. Yoder, 50 anos, e o filho universitário cuidam sozinhos do negócio.
- Se eu quisesse fazer uma lavoura orgânica, precisaria de pelo menos mais cinco pessoas trabalhando. Os meus vizinhos optam pelas variedades convencionais ou orgânicas, de milho ou soja, pelo prêmio que conseguem na hora da comercialização e porque têm estrutura para esse tipo de plantio - afirma.
Foi pesando as vantagens e desvantagens, que o produtor John Adams, do Estado de Illinois, resolveu mudar a característica da sua produção. Avisa que na próxima safra passará a cultivar a soja geneticamente modificada.
A convicção de que as variedades transgênicas atuais têm melhor qualidade agora do que há alguns anos, quando a tecnologia estava surgindo, foi um fato decisivo. Quanto ao custo da semente, ele também sabe que é maior do que a convencional ou mesmo daquela crioula. A diferença, diz Adams, está na redução da aplicação do herbicida. Em áreas transgênicas, os produtores fazem duas aplicações. Nas lavouras não transgênicas, o gasto com herbicidas chega a quatro aplicações. Neste caso, Adams pretende economizar ainda mais, recorrendo ao agrotóxico considerado genérico.
CAROLINA BAHIA*/ Illinois/EUA, Enviada Especial
* Carolina Bahia viajou para os Estados Unidos à convite da US Grains Council
Zero Hora, 04/11/2005.

4. Processamento de soja tem futuro incerto no Brasil
Está chegando ao fim aquele que vem sendo considerado pelas indústrias um dos piores anos dos últimos tempos para o processamento de soja no Brasil. Com margens de esmagamento negativas durante a maior parte de 2005, as empresas que atuam no segmento suspenderam as operações de diversas unidades nos últimos meses e agora começam a parar suas fábricas para manutenções programadas de fim de ano em meio ao reaquecimento do debate sobre o futuro da atividade no país.
Sem os preços internacionais atraentes e o câmbio favorável às exportações que impulsionaram os negócios entre 2001 e meados de 2004, as indústrias multinacionais vêm investindo mais na Argentina, na Ásia e no leste europeu do que no Brasil, que assim se consolida como produtor e exportador de soja em grão e perde cada vez mais espaço nos mercados externos de farelo e óleo de soja - que têm maior valor agregado e que, teoricamente, poderiam oferecer rentabilidades maiores na comercialização.
"Sem câmbio e preços favoráveis, sobraram para as indústrias que atuam no país este ano os problemas logísticos e tributários que tiram rentabilidade das operações", diz Adalgiso Telles, diretor corporativo da Bunge. Multinacional com sede nos EUA, a Bunge conta com 12 unidades de processamento no país, que demandam de 13 milhões a 15 milhões de toneladas de soja por safra. Segundo Telles, com o quadro atual a empresa decidiu antecipar em cerca de um mês as manutenções de fim de ano e todas as fábricas já estão começando a parar. "A safra 2004/05 mais curta [por conta da quebra da produção de grãos no Sul] também colaborou para a antecipação das paradas", afirma o executivo.
Telles garante que a fábrica de Cuiabá (MT), cujas operações foram suspensas no início de outubro, voltará a operar, como as demais unidades, entre o fim de fevereiro e o início de março, quando começará o processamento da soja produzida na safra 2005/06. Fontes do mercado dizem, contudo, que Cuiabá será desativada. As mesmas fontes desconfiam que outras unidades de outras indústrias terão o mesmo fim. Nesta lista estão as plantas das americanas ADM em Paranaguá (PR) e Cargill em Mairinque (SP). A primeira, que tem capacidade para 1,3 mil toneladas por dia, foi paralisada no fim de setembro; a segunda, para 2,2 mil toneladas diárias, teve as operações suspensas em maio passado, mas voltou a operar nas últimas semanas. Em abril a ADM também fechou temporariamente sua planta em Três Passos (RS), que terá o futuro reavaliado na volta para 2005/06.
A Cargill, que além de Mairinque tem outras cinco fábricas no Brasil - estas com capacidade conjunta para processar cerca de 10 mi toneladas de soja por dia -, não vai antecipar as paradas programadas por conta da conjuntura adversa, mas, em média, está rodando com cerca de 70% de sua força total. "A Argentina tem custos menores e câmbio melhor para trabalhar com óleo e farelo. Sobra para o Brasil, com isso, o preço do grão. Para os derivados, teríamos de ter prêmios no mercado interno que compensassem as operações, mas isso não está acontecendo", lamenta José Luiz Glaser, diretor do Complexo Soja da múlti. Segundo ele, as paralisações de fim de ano (entre 10 e 15 dias) vão começar normalmente em 15 de dezembro.
De uma maneira geral, fontes ligadas às companhias calculam que as margens no esmagamento foram no mínimo 5% negativas durante a maior parte do ano, em uma atividade que quando obtém margem positiva de 2% costuma comemorar. "Tivemos prejuízo com farelo e óleo o ano inteiro, e a situação não é pior porque cresceu a demanda doméstica em razão do avanço do setor de carnes", observa César Borges de Sousa, vice-presidente da Caramuru Alimentos. Conforme ele, a "tábua de salvação" da companhia em 2005 foram os prêmios obtidos com a venda certificada de farelo e lecitina não transgênicos. Ainda assim a unidade de São Simão (GO) parou 20 dias em outubro e vai parar novamente em dezembro ou janeiro. A planta de Itumbiara (GO) também vai entrar em fase de manutenção nas próximas semanas. A Caramuru deverá faturar R$ 1,5 bilhão neste ano, ante R$ 1,8 bilhão em 2004.
O Valor já tratou do futuro do esmagamento de soja no Brasil em diversas oportunidades, e constata que consultores, analistas e executivos do setor estão cada vez mais convencidos de que tal futuro será guiado pela demanda doméstica do setor de carnes - que no médio prazo não exigirá ampliação significativa da capacidade de processamento atual -, e pelo desenvolvimento do biodiesel, uma vez que a soja é uma das culturas agrícolas que podem alimentar esse mercado. Para as exportações, contudo, é quase consenso que farelo e óleo pesaram cada vez menos na balança nacional.
Para muitos, o divisor de águas foi a Lei Kandir, de 1996. "As fábricas normalmente são distribuídas ou em função da produção de soja ou da localização dos portos. Daí a migração de muitas plantas do Sul para o Centro-Oeste, onde a soja começou a ganhar destaque na década de 1970. Mas, em situações normais de mercado, a Lei Kandir praticamente inviabilizou o transporte interestadual do produto. Antes, o ICMS de 12% pago de um Estado para outro virava crédito e era descontado na exportação; depois a exportação deixou de pagar ICMS e não há mais como compensar. Na prática, cada Estado virou um país diferente", explica uma fonte das indústrias. E o efeito colateral desse movimento foi a redução de investimentos em novas fábricas de processamento.
Em 1995, quando o Brasil colheu menos de 26 milhões de toneladas de grãos, a capacidade doméstica de processamento de oleaginosas era de 116.280 toneladas por dia, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Em 2004, quando a colheita rendeu quase 50 milhões de toneladas, a capacidade era de 131.768 toneladas diárias. Ou seja: a produção aumentou 92% na comparação, e a capacidade cresceu 13,3%. Enquanto isso, a Argentina, cuja produção de soja ainda é inferior a 40 milhões de toneladas, alcançou uma capacidade de processamento de 108.508 toneladas por dia em 2004. Levantamento da corretora J.J. Hinrichsen mostra, ainda, que há fábricas em fase de montagem que devem elevar a capacidade platina em 22,7 mil toneladas por dia, e projetos que agregarão outras 26.725 toneladas.
Termômetro das vantagens logísticas e cambiais do vizinho é a Cargill. A múlti, que tem três unidades na Argentina (capacidade total de 18 mil toneladas por dia), está construindo uma quarta planta de 12 mil toneladas - a soma das capacidades de suas seis fábricas brasileiras.
Valor Econômico, 12/11/2005.
 
5. Testes com ervilhas GM mostram reação em ratos
Os cientistas do CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization) abandonaram um projeto sobre produção de transgênicos desenvolvido ao longo de uma década, em seus últimos estágios da pesquisa, após terem constatado que as ervilhas modificadas para resistir a insetos tinham causado uma inflamação nos tecidos do pulmão de ratos.
Os resultados, publicados esta semana no Journal of Agricultural and Food Chemistry, sugerem que a reação alérgica nos ratos foi desencadeada porque a proteína foi alterada.
(...)
Os cientistas adicionaram um gene do feijão que pudesse produzir uma proteína nas ervilhas que atacasse as larvas de determinados insetos. Os seres humanos têm comido a proteína natural do feijão por anos.
Mas uma equipe na escola de John Curtin de pesquisa médica descobriu que quando os ratos foram alimentados com as ervilhas transgênicas, sofreram uma reação adversa e seu tecido de pulmão ficou inflamado.
Entretanto, um representante da CSIRO disse que a busca para as ervilhas resistentes as larvas e aos fungos continuaria usando o sistema de transferência do gene que foi desenvolvido no CSIRO, como parte de um projeto de US$3 milhões.
(...)
The Australian, 18/11/2005.
http://www.theaustralian.news.com.au/common/story_page/0,5744,17283002%255E2702,00.html
O resumo do estudo está disponível na página:http://pubs.acs.org/cgi-bin/abstract.cgi/jafcau/2005/53/i23/abs/jf050594v.html
 
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
"A natureza é um modelo tecnológico perfeito"
 
O casal Aires e Maria Madalena Niedzielski trabalha há mais de 10 anos no município de Porto União, região do Planalto Norte de Santa Catarina, com a produção de verduras e hortaliças e sua comercialização em feiras livres. Passaram de um modelo agroquímico para um sistema agroecológico, isto é, utilizando recursos mais baratos e de menos impacto ambiental. O resultado é que agora estão tendo mais saúde e também oferecendo produtos mais saudáveis aos consumidores.
Além de produtor, Aires é técnico agrícola e presta assessoria ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto União, ao Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CEPAGRI-Caçador) e a outros grupos de agroecologia na região. Já faz diversos anos que ele tem contato com pessoas e entidades que procuram uma forma diferente de trabalhar. Até então ele apenas trabalhava com assessoria aos outros. Mas sua idéia, além deste trabalho, era ter um local para também passar a produzir.

Espécies produzidas e renda da família
Esse desejo se efetivou quando conseguiu emprestada uma área de 14,5 hectares do pai, local onde resolveu apostar firme na agroecologia. Utilizando apenas a mão-de-obra familiar (duas pessoas adultas e uma criança), eles produzem de 25 a 30 variedades por ano de olerícolas como alface, cenoura, temperos verdes, couve, beterraba, repolho, etc. Além disso comercializam na feira: ovos, nata, leite, requeijão, diversos tipos de sucos naturais, algumas espécies de flores, entre outros produtos caseiros.
A renda média semanal do casal é de aproximadamente R$ 150,00 no inverno e de R$ 300,00 no verão. Isso acontece devido a maior diversidade de produtos existentes no verão como tomate, melancia e outros. Como enfrenta problemas de falta de capital, uma dificuldade que o casal pretende superar é a falta de uma estufa, tecnologia que permitiria uma produção maior no inverno. "Aqui tenho maior liberdade do que se fosse empregado. Trabalho na minha propriedade, invisto naquilo que acredito e minha renda é maior do que se fosse assalariado como técnico agrícola", explicou Aires.
Maria Madalena, a esposa, abandonou um curso superior para ajudar o marido nos trabalhos e diz que não se arrependeu. "Eu teria de estudar ainda vários anos para me formar. Depois meu futuro seria ser professora, uma profissão muito desvalorizada", explicou. Tanto na propriedade como na feira, ela está sempre acompanhando o marido nos trabalhos. Além disso é ela a responsável pela produção dos sucos naturais e pelo trabalho com leite e seus derivados, bem como das galinhas poedeiras.

Maioria dos insumos é da propriedade
Como insumos para a produção o casal Niedzielski utiliza só produtos naturais. No solo são utilizados adubos verdes, cama de aviário e fosfato natural. Outra prática é a rotação de culturas e o consórcio, ou seja, o cultivo ao mesmo tempo e na mesma área de duas ou mais espécies. O consórcio permite um melhor aproveitamento do espaço, maior ganho de tempo na implantação das espécies e uma diversidade que é útil no controle das pragas. Aires está experimentando as espécies que se adaptam para o consórcio. "Não dá para misturar qualquer tipo de planta. Nós estamos testando. Na medida que dá resultado voltamos a repetir as combinações", explicou.
Para o controle das doenças são aplicadas calda sulfocálcica e calda bordalesa. Já no fortalecimento das plantas ele utiliza biofertilizantes e o supermagro. Os insumos que vêm de fora da propriedade são poucos, tais como: cama de aviário, sementes das verduras e os produtos para o preparo das misturas. "A natureza é um modelo tecnológico perfeito. A gente não deve utilizar nenhuma prática que contrarie a sua lógica", declarou Aires.

Produtores de frutas ecológicas
O trabalho de assessoria do Aires e de outras pessoas está fazendo surgir, em Porto União, uma associação dos produtores de frutas ecológicas. Em pouco mais de um ano de funcionamento já são 20 famílias envolvidas, principalmente jovens, todos com algum pomar já implantado ou em fase de plantio. O produto predominante é o pêssego com mais de mil árvores já implantadas. Mas existem alguns sócios que estão investindo em laranja e caqui. O objetivo dos sócios é ambicioso. No começo eles pretendem vender essas frutas "in natura" no município ou em cidades próximas. Mais adiante pretendem implantar uma pequena indústria de tranformação, para agregar maior valor e melhor aproveitar a produção.
De acordo com Carlos Cendron, um dos sócios, o grupo estabeleceu alguns critérios rígidos para o pessoal seguir. São eles: todos devem produzir sem qualquer espécie de agrotóxico; todos devem fazer o trabalho de recuperação dos solos; aquisição das mudas e dos insumos em conjunto; primeiramente comercializar os produtos "in natura", de forma conjunta, e mais adiante implementar uma pequena indústria de transformação coletiva. "Nós precisamos destas regras porque o consumidor quer a garantia de que o produto é agroecológico", explicou Alcir Freislieber, outro jovem pertencente à associação.
Alguns pomares de pêssego já produziram nesta última safra. Mas a maioria está fazendo um trabalho para melhorar as condições dos solos e também no manejo do pomar que foi implantado há pouco tempo. Eles utilizam adubação verde e roçadas nas áreas dos pomares. Também aplicam super magro e misturas à base de fumo, calda sulfocálcica e calda bordaleza.
 
Endereço para contato: Aires Niedzielski e Associação dos Produtores de Frutas Ecológicas de Porto União - Caixa Postal 194 - CEP: 89400-000 - Centro - Porto União (SC) - Fone: 042-522-4741 (endereço é da Paróquia N.Sra.das Vitórias - A/C Frei André - que apóia estas iniciativas)

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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos

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