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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Número 486 - 23 de abril de 2010

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O ISAAA (Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia, na sigla em inglês) é uma ONG das empresas de biotecnologia que anualmente divulga um relatório apresentando dados sobre o cultivo de transgênicos em todo o mundo. Os dados são amplamente divulgados como verdadeiros pela imprensa nacional e internacional. Entretanto, como já dissemos no Boletim 478, a organização em geral não divulga suas fontes -- o que torna as informações questionáveis. O Brasil, por exemplo, não possui dados oficiais sobre a área plantada com transgênicos. Por que deveríamos supor que o ISAAA não superestimaria os números buscando atender os interesses da indústria?

A ONG estadunidense Food First publicou este mês um artigo justamente questionando os dados apresentados pelo ISAAA em seu último relatório. Confira abaixo a tradução feita pela AS-PTA:

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A ciência da esperança: relatório do ISAAA sobre lavouras transgênicas

“O mundo em desenvolvimento abraça a controversa tecnologia”, declarou o título de um artigo recente da revista Economist, referindo-se às lavouras geneticamente modificadas. Esta é uma afirmação um tanto chocante a ser atribuída tão categoricamente ao mundo desenvolvido como um todo. Certamente deve estar fundamentada em um conjunto de dados provenientes pesquisa rigorosa e eticamente sólida...

O artigo apresenta o relatório recentemente divulgado pelo ISAAA. (...) Embora a Economist classifique o grupo como uma “organização não governamental que monitora o uso de sementes transgênicas”, o ISAAA é na verdade um grupo financiado pelas indústrias para exercer influência política, cuja missão é promover a adoção das sementes transgênicas em países em desenvolvimento. Entre os financiadores passados e atuais estão a Monsanto, Syngenta, Pioneer Hi-Bred, Cargill, Dow, DuPont, Bayer CropScience e CropLife International. Desde a divulgação do relatório “Situação Global” em fevereiro último, as estatísticas do ISAAA já foram citadas em artigos do New York Times, Financial Times, Wall Street Journal e USA Today. Dos quatro, apenas o USA Today observa que o ISAAA é “financiado pela indústria de biotecnologia”.

E, enquanto a indústria, governos e a mídia continuamente citam as estatísticas do ISAAA, uma análise mais cuidadosa dos últimos relatórios revelaram números altamente exagerados baseados em ciência duvidosa. Por exemplo, a revista Science in Society relatou as seguintes discrepâncias:

- O relatório do ISAAA de 1998 alegava aumentos de produtividade da soja transgênica em relação à soja convencional da ordem de 12%. Entretanto, uma revisão dos resultados de mais de 8.200 testes de campo feitos em universidades mostraram uma redução média de 7% para a produtividade da soja transgênica.

- Em 2003, o ISAAA listou a Índia como um “produtor chave de transgênicos” baseado na primeira lavoura transgênica do país, o algodão Bt. De acordo com o ministério de agricultura da Índia, no entanto, em 2002/2003 “o algodão Bt cobriu uma área de apenas 38.038 hectares, representando apenas 0,51% da área plantada com algodão naquela safra. Em 2003/2004, safra que foi beneficiada por boas chuvas, a área de algodão Bt aumentou para 92.000 hectares. Esta área é quase insignificante comparada aos 9 milhões de hectares cultivados com algodão no país. Isto mostra a baixa aceitação do algodão Bt entre os agricultores.

- Analisando a produção de algodão transgênico na África do Sul em 2003, Aaron de Grassi, do Instituto para Estudos em Desenvolvimento da Universidade de Sussex, no Reino Unido, notou que os números do ISAAA eram 20 vezes maiores do que aqueles alegados por outras fontes da própria indústria de biotecnologia e mais de 30 vezes maiores do que aqueles oriundos de pesquisas acadêmicas realizadas pela Universidade de Reading, também no Reino Unido.

No relatório, o ISAAA atesta que as lavouras transgênicas na África do Sul têm sido um inconteste sucesso, com o total da área plantada com sementes transgênicas aumentando de 1,8 milhão de hectares em 2008 para 2,1 milhões de hectares em 2009 -- um incremento de 17% “atribuído principalmente a um aumento na área plantada com milho transgênico”. O relatório deixa de mencionar a quebra de produção de 80% sofrida por variedades transgênicas de milho da Monsanto na África do Sul em 2008/2009. Segundo a ONG African Center for Biosafety, da África do Sul, a informação do ISAAA sobre o país se baseia em dados do FoodNCropBio, uma empresa privada de consultoria sobre biotecnologia, que obtém seus dados de registros confidenciais de vendas de sementes e estimativas baseadas na “intenção de plantar”. Como o governo não realiza o levantamento do número de hectares plantados com sementes transgênicas no país -- e como os grãos transgênicos e não transgênicos não são armazenados separadamente -- é praticamente impossível se verificar os números.

Acima de tudo, o ISAAA observa um aumento de 9 milhões de hectares da área plantada globalmente com transgênicos entre 2008 e 2009 -- um aumento de 7%. Um olhar mais de perto sobre os números mostra que a esmagadora maioria deste aumento ocorreu em apenas um punhado de países. O Brasil sozinho responde pelo aumento de 5,6 milhões de hectares em 2008 -- 62% do aumento “global” total. Os três maiores produtores de transgênicos -- EUA, Argentina e Brasil -- contabilizam 82% (7.4 milhões de hectares) da área plantada com transgênicos. Dificilmente alguém poderia alegar um fervor global pelas lavouras transgênicas baseado nesses três países. (...)

Em uma brilhante estratégia de Relações Públicas, as indústrias químicas e de sementes conseguiram transformar propaganda em ciência através de organizações “sem fins lucrativos” como o ISAAA. A cobertura não crítica da mídia sobre o relatório anual “Situação Global” proporciona propaganda grátis para estas corporações e perpetua o mito da aceitação global aos transgênicos.

Talvez pior que isso, medir o “sucesso” das lavouras transgênicas com base no número de hectares plantados se apoia na falácia de que agricultores e consumidores fizeram uma escolha livre e informada sobre plantar e consumir produtos transgênicos. Na verdade -- como sugerem as batalhas em torno da rotulagem de alimentos transgênicos -- uma cidadania informada e empodeirada é o pior pesadelo da indústria de biotecnologia.


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Neste número:

1. Pesquisador que observou efeitos nocivos do glifosato é vetado em evento
2. Manifestação contra transgênicos em Madri reúne 15 mil
3. Resíduos de agrotóxicos: o consumidor tem direito de saber o que come
4. Alimento orgânico é mais barato na feira

A alternativa agroecológica

Jovens rurais produzem peças para rádio
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1. Pesquisador que observou efeitos nocivos do glifosato é vetado em evento

Andrés Carrasco, o pesquisador argentino do CONICET (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas - Argentina) que comprovou através de pesquisas com anfíbios efeitos nocivos à saúde provocados pelo glifosato -- princípio ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, usado nas lavouras transgênicas Roundup Ready (ver Boletim 437) -- denunciou como ato de censura o veto à sua palestra prevista para a Feira do Livro 2010, na Argentina.

Em carta à presidenta do CONICET, a Dra. Marta Rovira, Carrasco sugere que o caso implique “censura de uma pesquisa científica realizada no país para bloquear sua difusão pública”, e o considera um “bloqueio que prejudica a liberdade acadêmica ao subordinar-se a interesses alheios à ciência, ao mesmo tempo em que é uma mensagem de disciplinamento para todos aqueles que tentem fazer uma crítica, desde o sentido da ciência, a critérios e políticas instituídas pelo poder econômico e seus porta-vozes. A Feira do Livro é um evento de marketing que acontece todos os anos no âmbito da Sociedade Rural Argentina.

Leia a íntegra da matéria publicada pela Argenpress.info e da carta enviada por Carrasco à Dr. Rovira em: http://www.argenpress.info/2010/04/argentina-fumiguen-la-ciencia.html

N.E.: Não é a primeira que um pesquisador que divulga dados sobre efeitos danosos de produtos das multinacionais do agronegócio é boicotado no meio científico. O primeiro caso -- e o mais famoso -- é o do pesquisador Arpad Pusztai, que em 1998 foi demitido do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, após divulgar efeitos do consumo de batatas transgênicas em ratos de laboratório. Aliás, não só foi demitido: sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados, e também foi proibido de falar com a imprensa. Em seu livro e documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, a jornalista francesa Marie-Monique Robin descreve com detalhes este e outros casos.

2. Manifestação contra transgênicos em Madri reúne 15 mil

15 mil pessoas se manifestaram este mês em Madri, na Espanha, sob o lema “Por uma Alimentação e uma Agricultura Livre de Transgênicos”. Agricultores, ecologistas e consumidores de todo o estado foram à cidade exigindo do governo que siga o mesmo caminho tomado por países como a França, a Alemanha e a Áustria e proíba o cultivo de milho transgênico na Espanha.

A Espanha é o único país da União Europeia que cultiva transgênicos em grande escala. No ano passado foram 76 mil hectares cultivados com milho GM. Este cultivo se desenvolve sob uma absoluta falta de transparência e controle, com numerosos casos de contaminação de colheitas e alimentos.

Segundo os manifestantes, este é o semestre de Presidência da Espanha na União Europeia e o governo tem ainda mais responsabilidade para impulsionar um outro modelo de agricultura e alimentação. Apesar disso, quando a Comissão Europeia aprovou há poucas semanas o cultivo de uma batata transgênica, a Espanha foi um dos poucos países que apoiou a decisão.

Extraído de:
Amigos da Terra - Espanha.

3. Resíduos de agrotóxicos: o consumidor tem direito de saber o que come

Cenário preocupante sobre o uso de agrotóxicos no País foi retratado em mesa redonda promovida pelo Idec e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em São Paulo, na terça-feira, 13, por Reinaldo Skalisz, representante do Fórum Nacional de Entidades Civis de Defesa do Consumidor (FNECDC) e consultor da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária (Amar).

Funcionário aposentado da Secretaria da Agricultura do Paraná e com larga experiência na fiscalização do uso de agrotóxicos, Skalisz apontou que o número de ingredientes ativos aprovados para aplicação são muito mais numerosos do que os que são de fato monitorados. Isso sem falar na série de agrotóxicos que já foram banidos e continuam sendo detectados.

“O consumidor está vulnerável. Há muita informação que afeta diretamente sua saúde que não chega ao seu conhecimento”, disse. “Cabe ao consumidor exercer sua cidadania e cobrar pelos seus direitos e cabe ao governo criar meios que façam essa informação chegar de forma mais eficiente para o consumidor”, acrescentou Skalisz.

Daniela Macedo Jorge, especialista em regulação e vigilância sanitária da Gerência Geral de Toxicologia da Anvisa, apresentou dados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos e Alimentos (PARA), revelando os altos índices de contaminação de alimentos que vêm sendo detectados ano a ano pelo programa. A especialista relacionou o alto volume de compras de agrotóxicos no país no primeiro trimestre de 2010 (cerca de R$60 milhões) com o excesso de resíduos do produto encontrado nos alimentos.

O uso indiscriminado de agrotóxicos afeta tanto a saúde humana, colocando em risco agricultores e consumidores, quanto o meio ambiente. Para a saúde, o veneno pode provocar desde náuseas, tonteiras, dores de cabeça ou alergias até lesões renais e hepáticas, cânceres, alterações genéticas etc.

A principal conclusão da mesa redonda foi a de que, além de fiscalização eficiente, é necessário garantir ao consumidor o acesso à informações claras sobre a qualidade e a segurança da comida que chega à sua mesa.

Extraído de:
Idec, 14/04/2010.

4. Alimento orgânico é mais barato na feira

Segundo dados do Idec, supermercados cobram até 115,29% mais por produto sem agrotóxicos

O consumidor de produtos orgânicos que se preocupa não apenas com uma alimentação saudável, mas também com os preços, deve fazer compras nas feiras. Nas bancas de rua, é possível achar os mesmos itens por valores bem abaixo dos praticados por supermercados e empresas que entregam em domicílio.

Esta é a conclusão da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que verificou o custo de alimentos orgânicos nos três canais de vendas. O resultado foi uma variação de até 115,29% entre os preços cobrados pelas feiras especializadas neste tipo de alimento e pelos supermercados, como é o caso do tomate.

"As feiras são o canal preferencial de venda das frutas, verduras e legumes orgânicos", admite Ivo Gramkow, vice-presidente da Associação Brasileira de Orgânicos (BrasilBio). Segundo ele, o produtor costuma vender diretamente ao consumidor na feira - já que 70% dos orgânicos do Brasil são cultivados no modelo de agricultura familiar. "E, por não ter os custos de intermediação que existem em supermercados, os produtos tendem a ser mais baratos", diz.

Para a pesquisadora do Idec, Adriana Charoux, os supermercados cobram mais caro porque embutem uma margem de lucro excessiva nos orgânicos. "Como se trata de um tipo de alimento mais consumido por pessoas de maior poder aquisitivo, as empresas acabam apostando nesse nicho e aproveitam para cobrar mais", avalia Adriana. (...)

Martinho Paiva Moreira, vice-presidente de comunicação da Associação Paulista de Supermercados (Apas), conta que os orgânicos são mais caros nas grandes redes por conta dos custos de investigação de cada um dos produtores, e, assim, certificar se a produção é realmente orgânica. "A estrutura de verificação é mais cara", diz Moreira. "Porque o supermercado tem uma responsabilidade grande, não pode anunciar que o produto é orgânico se ele não for." (...)

Fonte:
Jornal da Tarde - SP, 21/4/2010.

- Confira a íntegra da matéria e os endereços das principais feiras orgânicas da cidade de São Paulo em: http://pratoslimpos.org.br/?p=965

A alternativa agroecológica

Jovens rurais produzem peças para rádio

Uma oficina de rádio realizada com jovens rurais do Sertão do Pajéu, em Triunfo - Pernambuco, entre os dias 08 e 09 deste mês, deixou como resultado três peças para veicular nos programas de rádios das instituições Diaconia e Centro Sabiá. Um spot, uma radionovela e um mini programa foram os frutos da oficina. A atividade reuniu 21 jovens assessorados/as pelas duas entidades e contou com a facilitação da jornalista do Núcleo de Comunicação do Sabiá, Laudenice Oliveira, e da comunicadora popular e radialista Adriana Amâncio. A oficina teve como objetivo capacitar jovens para lidar com as atividades em rádio, desde a apuração de notícias, realização de entrevistas, até a apresentação de programas. Neste evento, para compor as peças para rádio, eles trabalharam com as temáticas “combate à desertificação” e “mudanças climáticas”. Estas duas questões estão sendo aprofundadas no projeto de formação para jovens multiplicadores em gestão do conhecimento realizado pelo Centro Sabiá, Diaconia e Caatinga, com o apoio da cooperação internacional GTZ.

As temáticas escolhidas já haviam sido trabalhadas com os jovens durante encontros realizados entre fevereiro e março passados. Para dinamizar as peças, foram realizadas entrevistas com representantes de entidades como o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Triunfo, o Lar Santa Elizabeth -- que trabalha com crianças e adolescentes --, e a Adessu Baixa Verde, que é uma associação de agricultores/as agroecológicos/as que atua na região. Para o jovem Tony, de São José do Egito, ir realizar as entrevista com os/as representantes dessas instituições foi uma das melhores etapas. “Eu achei muito bom ir fazer as entrevistas. No início parecia difícil, mas a gente foi muito bem recebido e realizar essa tarefa foi importante, fez a gente perceber que é possível fazer um programa envolvendo outras pessoas, pegando opiniões, etc.”, explica Tony.

Produção de roteiro e texto, entrevistas, escolha de trilha sonora e locução dos materiais foram assumidas pelos/as jovens, ficando as facilitadoras com o papel de coordenar os processos. A parte técnica de edição das peças ficou por conta das radialistas Adriana Amâncio e Rafaella Sabino, que são técnicas da Diaconia. No final da oficina os trabalhos foram exibidos para avaliação do grupo, que expressou seu contentamento com o resultado final. “Eu achei o resultado muito bom, porque a gente conseguiu colocar em prática os conhecimentos que veio acumulando nos encontros passados”, avalia Rosana Barbosa de Lima, de Triunfo.

Extraído de:
Centro Sabiá, 13/04/2010.

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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos

Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.

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