Cadê as sementes

Frutas sem caroço, sem fiapos e com apresentação diferente ganham espaço em feiras livres, mas levantam dúvidas sobre transgenia e composição nutricional

[...] Segundo o IAC, quase todas as frutas que se compram hoje são melhoradas


TATIANA DINIZ, DA REPORTAGEM LOCAL

Melancia, uva e tangerina sem sementes. Manga sem fiapo. Banana de casca vermelha. Abacaxi que se come em gomos. Um monte de frutas que há alguns anos ninguém nunca havia visto está invadindo feiras e mercados. São sedutoras, mas, além da novidade, também trazem dúvidas do tipo "de onde vêm?" e "será que são transgênicas?".

Transgênicas, não, mas melhoradas geneticamente, sim, explicam produtores e pesquisadores da fruticultura brasileira. Para agregar às frutas características que sempre foram sonhadas pelo consumidor, cientistas trabalham observando as variações genéticas existentes em cada espécie e em gêneros similares e promovem exaustivos cruzamentos.

As técnicas de melhoramento genético se encarregam de dar uma "mãozinha" para que as fruteiras cresçam produzindo frutos que sempre apresentem os melhores traços observados na natureza, sem perder as propriedades nutricionais.

Entre as mangas, por exemplo, há algumas que têm fibras curtas e macias em vez daquelas longas e ásperas (os incômodos "fiapos"), outras que têm caroço menor e mais polpa e outras que apresentam sabor mais adocicado.

Esses traços são perseguidos pelos pesquisadores, que combinam técnicas de melhoramento genético convencional -como a transferência de pólens de uma planta para outra seguida de coleta e plantio das sementes dessa "planta-mãe"- a modernos recursos de biotecnologia -como a clonagem em laboratório de embriões que não nasceriam em larga escala.

"Praticamente todas as frutas que se compram hoje são melhoradas", diz o engenheiro agrônomo e diretor do centro de fruticultura do IAC (instituto agronômico da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo).

Além da manga sem fiapo, tangerinas e uvas sem semente e um abacaxi que contém gomos similares aos de uma jaca e que pode ser descascado com as mãos estão entre as frutas melhoradas que pesquisas do IAC já trouxeram ao mercado.

Waldelice Paiva, doutora em melhoramento de plantas pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), esclarece por que as novas frutas não são transgênicas.

"Na transgenia, pega-se uma parte do DNA de qualquer espécie para inserir em outra espécie. É possível trazer uma característica de resistência a pragas que exista num sapo para uma planta. Aqui, não ultrapassamos os limites do que já existe na natureza de alguma forma", explica a especialista.

O melhoramento contorna barreiras que, na natureza, desfavorecem certos cruzamentos, fazendo com que alguns tipos de fruta se tornem mais raros que outros. É o caso da melancia sem semente (apelidada nos mercados de "melancia baby"), ou triplóide, produzida a partir do cruzamento de uma diplóide com uma tetraplóide -sendo que esses dois tipos são mais freqüentes.

[...] O boom das frutas melhoradas vem com o aumento na exportação para a Europa


Clonagem

Também é muito utilizada a técnica de resgate de embriões, que permite retirar o embrião de uma planta no tempo de uma a seis semanas após a polinização e transferi-lo para cultivo in vitro, a fim de garantir a sua sobrevivência.

Nesse sistema, a semente e o embrião acabam de se formar. A partir da multiplicação (clonagem) de pequenas partes desse embrião, novas plantas podem ser formadas. É o que acontece na produção das uvas sem semente -se fosse deixado na uva, o embrião desse tipo de fruteira seria abortado ao final das seis semanas.

Na Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza, Waldelice Paiva pesquisa um tipo de melão que possa ser cultivado com sucesso no clima semi-árido. "Além de focar na demanda do consumidor, promovendo alterações de aspecto, o melhoramento genético também atende a produtores e atacadistas, aumentando a capacidade de conservação das frutas. Pode ainda aumentar os teores de vitamina delas, fazendo com que seu consumo signifique mais proteção", diz.

O boom das frutas melhoradas vem na esteira do crescimento na exportação, principalmente para os países da Europa. Lá fora, esses tipos "menos trabalhosos" de comer são os que fazem mais sucesso nas prateleiras dos supermercados.

Transgênico

Por enquanto, frutas transgênicas não são uma realidade no país, mas já há pesquisas em andamento. No Cenagen (Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia), da Embrapa, em Brasília, um grupo de pesquisadores se dedica há cerca de cinco anos a analisar a biossegurança de diversos alimentos transgênicos em desenvolvimento, entre eles uma variedade de mamão.

"No caso do mamão, a transgenia entrou para somar à fruta a resistência a uma virose que devasta as plantações", conta Francisco Ricardo Ferreira, pesquisador do centro. O mamão transgênico, no entanto, ainda está bem longe de chegar às prateleiras.

"Ainda serão feitos muitos testes para checar qualquer possibilidade de risco de segurança à saúde e ao ambiente", afirma Ferreira. E, se isso ocorrer, o produto deverá ir com um selo que o classifica como organismo geneticamente modificado. É só conferir.

Fonte: Folha de São Paulo, quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007, caderno Equilíbrio

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