Uma bomba contra os transgênicos

por Natalia Viana

Ex-executivo americano denuncia que cientistas foram demitidos por terem pesquisado os riscos dos alimentos transgênicos e que a FDA americana libera os alimentos geneticamente modificados a partir de pesquisas precárias patrocinadas pelos próprios fabricantes.


Se há alguém que incomoda as grandes empresas produtoras de alimentos transgênicos, é Jeffrey M. Smith (foto), que em setembro último lançou nos Estados Unidos o livro Seeds of Deception-Exposing Industry and Government Lies About the Safety of the Genetically Engineered Foods You're Eating ("Sementes da enganação - as mentiras da indústria e do governo sobre a segurança dos alimentos transgênicos que você está comendo"). Durante seis anos, esse americano formado em administração de empresas pesquisou os bastidores do marketing das empresas de biotecnologia e a íntima ligação delas com o governo e a FDA (Food & Drug Administration), órgão responsável pela liberação de transgênicos no país. Descobriu suborno, milhões de dólares, ameaças, demissões políticas, pesquisas viciadas. Em outubro, esteve no Brasil, e nos concedeu esta entrevista.

Trecho 1


Como você começou a pesquisar os transgênicos?

Foi em 1995, e em 1996 passei a dar palestras sobre os perigos que eles trazem para a saúde e o meio ambiente. Depois trabalhei junto a partidos políticos ONGs e ajudei a propor uma legislação que remova os transgênicos das merendas escolares e proteja os agricultores de processos de contaminação de não-transgênicos por meio de polinização. Trabalhei então, por dois anos, como vice-presidente de marketing de um laboratório que detecta transgênicos nos alimentos.

Você decidiu escrever o livro logo que saiu?

Sim. Comecei a contatar outros especialistas, como o doutor Arpad Pusztai, o maior expert em teste de segurança de Uma bomba contra os transgênico.ems transgênicos, que em 1996 recebeu um financiamento do governo britânico para, com a sua equipe do Rowett Institute, na Escócia, elaborar testes de segurança para transgênicos. Dois anos após o início da pesquisa, em 1998, ele verificou que os ratos alimentados com um tipo de batata geneticamente modificada, supostamente própria para o consumo humano, sofriam graves danos no sistema imunológico, desenvolviam cérebro, fígado e testículos menores, problemas digestivos e de crescimento das células intestinais, que poderia ou não ser pré-cancerígeno, não sabemos. A essa altura, foi à televisão. Dois dias depois, o diretor do Instituto, professor Phillip James, o demitiu e desagregou a equipe de vinte membros que trabalhava no projeto. Além disso, foram recolhidos todos os dados da pesquisa e disseram a Arpad que não poderia mais falar sobre isso ou iriam processá-lo, porque ele havia assinado um contrato de sigilo. Segundo Arpad, funcionários do Instituto revelaram que, na véspera da demissão dele, houve duas ligações do gabinete do primeiro-ministro para o diretor. O Instituto tentou proteger a indústria divulgando uma série de informações falsas, dizendo que Arpad tinha misturado os resultados, que a batata não era destinada à alimentação humana, esse tipo de coisa... Aconteceu que o parlamento convocou Arpad para um testemunho e ele pôde reaver os seus dados e falar em público. As informações eram tão contundentes e precisas, que foram publicadas na The Lancet, a conceituada revista científica britânica. É o estudo sobre alimentação animal com transgênicos mais aprofundado que já houve.

E o órgão americano para aprovação de alimentos, a FDA, é mais rigoroso?

Não! Acontece que a FDA tem trabalhado muito próximo à indústria. Dou um exemplo: Michael Taylor era advogado particular da Monsanto e depois se tornou o diretor da FDA, revisando as diretrizes para aprovação de transgênicos em 1992. Depois voltou para a Monsanto, tornando-se vice-presidente. E isso é muito comum, pessoas que trabalhUma bomba contra os transgênico.ems am para a indústria, depois para o governo, para a indústria... Quando Taylor revisou as diretrizes, o estatuto da FDA passou a dizer que nenhum teste é necessário, se a indústria considera que os alimentos são seguros, não fazem mais perguntas. As empresas não precisam nem mesmo fazer testes de segurança, e mais: não têm nem de informar a FDA que estão introduzindo um novo transgênico no mercado. Isso está escrito no estatuto de 1992, está no site da FDA.


Trecho 2

Se a FDA não faz pesquisa, como é o processo para liberar um novo produto transgênico?

Há uma consulta voluntária, nem é obrigatória. Um representante da empresa tem uma reunião com a FDA 120 dias antes de o alimento ser liberado, para conversar sobre segurança. Só conversar. Depois, a FDA escreve a eles uma carta que diz: "Tal empresa teve uma reunião conosco e afirmou que tal produto é seguro".

Essas diretrizes de 1992 ainda são válidas?

Sim.

Então, os únicos que estão fazendo avaliações científicas sobre OGMs são as empresas?

Não os únicos. Há muitos acadêmicos que fazem pesquisa em biotecnologia, mas muitos deles são financiados por empresas de biotecnologia. Algumas universidades recebem dinheiro para pesquisa, mas a empresa financiadora tem acesso a todas as informações e também tem o direito de controlar quais estudos devem ser feitos e quais não devem. O cientista David Crunfeld escreveu algumas cartas e artigos sobre rbGH, e a sua universidade, Virginia Politechnic Institute, disse ter recebido uma notificação da empresa financiadora ameaçando retirar o financiamento se ele continuasse.

Essas empresas que financiam pesquisa podem escolher o que é publicado?

Algumas vezes. Elas podem também atrasar a publicação.

Trecho 3

E o que está acontecendo nos Estados Unidos com as pessoas que se posicionam contra a indústria biogenética?

Há uma pressão muito grande, e muito dinheiro sendo gasto pelUma bomba contra os transgênico.ems as empresas de biotecnologia para promover os transgênicos, as cinco maiores empresas gastam cerca de 50 milhões de dólares por ano em propaganda. Apenas em 2001, 142 milhões de dólares foram gastos pelas empresas de biotecnologia para fazer lobby em Washington. E isso é verdade, porque os lobistas têm de tornar essa conta pública, já que lobby é legal.

É legal dar dinheiro?

Não, mas é legal as empresas terem seus lobistas todo dia conversando com gente do governo. Elas contratam pessoas que antes trabalhavam para o governo. A Monsanto contratou para sua diretoria, após a administração Clinton, William Ruckelshaus, ex-diretor administrativo da EPA - Environmental Protection Agency -, e Mickey Kantor, ex-secretário do departamento de comércio dos Estados Unidos. E é legal também contribuir para campanhas políticas, e não é o mesmo dinheiro que gastam com lobby. As quatro maiores empresas de transgênicos - a Syngenta, antiga Novartis, a Dow, a DuPont e a Monsanto - doaram mais de 3,5 milhões de dólares para campanhas políticas entre 1995 e 2000, sendo três quartos para os republicanos. E muitas pessoas importantes na administração Bush tinham antes posições em empresas de biotecnologia.

Quem?

A secretária de Agricultura, Ann Veneman, foi advogada de corporações de biotecnologia, e também representava a Calgene. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, foi presidente de outra subsidiária da Monsanto, a Searle, que faz o adoçante geneticamente modificado aspartame. O diretor do Management and Budget Office (Secretaria de Planejamento e Administração), Mitch Daniels, foi vice-presidente da indústria farmacêutica Eli Lilly & Company, parceira da Monsanto. E até o juiz da Suprema Corte, Clarance Thomas, já foi advogado da Monsanto. Tem mais: Tommy Thompson recebeu 50.000 dólares de empresas de biotecnologia para sua campanha a governador de Wisconsin. Outro que recebeu muito dinheiro foi John Ashcroft, advogado do governo, que foi o maior captador de fundos de cUma bomba contra os transgênico.ems ampanha da Monsanto para a eleição presidencial de 2000.

Há nos Estados Unidos uma resistência forte aos transgênicos?

Há bastante resistência. Mas, como a mídia tem sido cuidadosamente controlada, há muito pouca discussão sobre o fato de os alimentos serem geneticamente modificados. E, apesar de os americanos comerem costumeiramente transgênicos, em todas as refeições, a maioria não sabe disso. E também não sabem que é essa a política da FDA. A grande mídia nunca fala a respeito, e foi por isso que escrevi o livro.

Natalia Viana é jornalista.

 

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