Rumo à segunda revolução verde:

A PRIMEIRA REVOLUÇÃO BENEFICIOU QUEM JÁ TINHA VÁRIOS TRUNFOS E MARGINALIZOU PEQUENOS CAMPONESES*

Encontrei o pai da primeira revolução verde, o agrônomo norte-americano Norman E. Borlaugh, prêmio Nobel da Paz, numa reunião preparatória da Conferência Mundial de Alimentação em 1974. Fiquei chocado com a maneira como atacou os que ousavam apontar para os limites sociais e ecológicos da estratégia por ele preconizada, pedindo a aceleração das reformas agrárias e um maior cuidado com o meio ambiente. No dizer de Borlaugh, os seus críticos assumiriam uma grave responsabilidade perante a história ao condenarem milhões de pessoas à morte por fome.

Sabemos hoje que a revolução verde não é uma panacéia. Ela trouxe um extraordinário aumento da produtividade de grãos lá onde estavam reunidas as condições para a sua aplicação: acesso à terra de qualidade razoável, às sementes selecionadas, à água abundante e energia para bombeá-la, ao capital necessário para adquirir e aplicar grandes quantidades de adubos sintéticos e de defensivos. Em outras palavras, a revolução verde beneficiou aqueles que já tinham vários trunfos na mão. Deixou de lado, porém, extensas áreas geográficas e marginalizou centenas de milhões de pequenos camponeses.

As apreensões a respeito dos seus impactos ambientais negativos foram confirmadas na maioria dos casos: a agricultura intensiva em insumos químicos polui as águas e os solos, a irrigação malfeita desperdiça muita água e provoca a salinização dos solos.

Por fim, a luta contra a fome não se reduz ao aumento da oferta de alimentos. Os que passam fome devem ter condições de adquirir ou de auto produzir o seu sustento, o que nos remete ao emprego gerador de renda, ao auto-emprego e à reforma agrária.
Estas questões não se resolvem pela aplicação das tecnologias da primeira revolução verde.

Não obstante estas evidências, amplamente documentadas pela FAO e por numerosos institutos de pesquisa, Norman Borlaugh não mudou o seu discurso.

Em artigo recente ("Biotechnology Will Be the Salvation of the Poorest", International Herald Tribune, de 15 de março de 2000) persiste em apregoar as virtudes do pacote tecnológico da revolução verde enriquecido por novas mbiotecnologias, única maneira de garantir a segurança alimentar às camadas mais pobres da população mundial. Na opinião de Borlaugh, deve-se evitar uma preocupação excessiva com a problemática ecológica: somente os ricos se podem dar ao luxo de adotar uma posição elitista e pagar mais caro por alimentos produzidos pelos assim
chamados métodos naturais.

A teimosia de Borlaugh contrasta com a evolução do pensamento do pai da revolução verde na Índia, M.S. Swaminathan. Em 1974, ele estava alinhado com Borlaugh. Hoje, é um dos principais proponentes da segunda revolução verde, a "revolução sempre verde" (evergreen revolution), também chamada por pesquisadores franceses de "revolução duplamente verde".

A revolução sempre verde busca simultaneamente maior produtividade agrícola e sustentabilidade ambiental, combinando-as com uma opção social pelos pobres e pelas mulheres. Swaminathan considera que tudo que se faz em favor do pequeno agricultor é benéfico para todos os agricultores. Tudo que se faz em favor da mulher na família beneficia a família toda ("For an Evergreen Revolution",entrevista publicada por Frontline,de 7 de janeiro de 2000).

Ele insiste sobre a urgência das reformas agrárias e a necessidade de se trabalhar mais sobre a agricultura de sequio. Um novo contrato social entre os cientistas e os protagonistas da agricultura familiar vai materializar-se em pesquisas realizadas com a participação ativa dos camponeses.

Estamos diante de uma proposta de modernização do mundo rural bem diferente daquela embutida na primeira revolução verde. Não há tempo a perder. Em 1950, cada hectare cultivado no mundo alimentava dois habitantes.

Atualmente, são quatro por hectare. Em 2050, serão de 5 a 8, dependendo das hipóteses demográficas.

A prioridade passa a ser a adequação dos pacotes tecnológicos às necessidades da pequena agricultura familiar, inclusive no que diz respeito às biotecnologias suscetíveis de aumentar a produtividade da biomassa e de abrir o leque dos produtos dela derivados.

As multinacionais procuram ocupar rapidamente este terreno, alocando importantes recursos às pesquisas sobre o aproveitamento da biodiversidade.

Cabe aos cientistas nacionais, devidamente amparados pelo Estado, esboçar uma reação em vez de capitular antes da batalha.

Por coincidência, a Cargill Dow Poliners, poderosa empresa norte-americana, e a Copersucar, cooperativa brasileira de produtores de açúcar, anunciaram quase ao mesmo tempo projetos de produção de plásticos biodegradáveis a partir de cereais e da cana-de-açúcar. Mesmo sabendo que as forças dos dois competidores são desiguais, vamos torcer pela Copersucar.

IGNACY SACHS

Fonte:Jornal Estado de São Paulo, em sábado, 29 de abril de 2000

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