Estudo verifica que exposição ao pesticida atrazina muda sexo de rãs


Estudo analisou desenvolvimento de rãs da espécie Xenopus laevis

Um estudo [Atrazine induces complete feminization and chemical castration in male African clawed frogs (Xenopus laevis)] publicado nesta semana verificou que a exposição a um pesticida comum pode levar rãs do sexo masculino a mudarem de sexo, tornando-as capaz de se relacionar com outros machos e a botar ovos viáveis.

O estudo, publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, se concentrou sobre o herbicida atrazina, amplamente usado em plantações de milho e cana-de-açúcar há várias décadas.

Segundo os pesquisadores, da Universidade da Califórnia, as rãs macho expostas ao pesticida sofreram com redução de testosterona, diminuição do tamanho das glândulas reprodutoras, desenvolvimento feminizado da laringe, supressão do comportamento de reprodução, redução da produção de espermatozoides e queda na fertilidade.

Em 10% das rãs estudadas, houve uma mudança completa de sexo após a exposição ao químico. Estudos anteriores com pássaros, peixes, camundongos e mesmo rãs já haviam identificado o desenvolvimento de indivíduos hermafroditas (características de ambos os sexos) após a exposição a pesticidas, mas esta é a primeira vez que um estudo verifica uma mudança de sexo total.

Segundo o pesquisador Tyrone Hayes, coordenador do estudo, os resultados podem ajudar a explicar o declínio da população de rãs em todo o mundo.

Críticas

O estudo foi questionado pela indústria química suíça Syngenta, uma das principais fabricantes do pesticida. Segundo a companhia, outras pesquisas teriam comprovado que o uso da atrazina não traz efeitos danosos para animais ou para pessoas.

A União Europeia proibiu a atrazina em 2004, mas o químico ainda é usado em países como o Brasil e os Estados Unidos.

Segundo os pesquisadores, o pesticida é o contaminante mais comumente encontrado no solo e na água nos Estados Unidos.

A agência americana de proteção ambiental (EPA, na sigla em inglês) anunciou em outubro uma revisão dos impactos do uso da atrazina sobre o ambiente.

Desenvolvimento

A pesquisa da Universidade da Califórnia analisou o desenvolvimento de 40 rãs africanas com cromossomos masculinos, desde a fase em que eram girinos, expostas a água com uma concentração de atrazina ainda dentro do limite considerado seguro pela EPA.

Esse grupo de rãs foi comparado com outro grupo de controle, também com 40 rãs do sexo masculino, desenvolvidas em água sem nenhum traço de atrazina.

Entre as rãs desenvolvidas na água com o pesticida, 10% se tornaram “fêmeas funcionais”, capazes de copular com machos e botar ovos viáveis.

Os outros 90%, apesar de terem mantido características básicas do sexo masculino, apresentaram baixos níveis de testosterona e fertilidade.

Segundo os pesquisadores, esses machos tiveram um menor índice de sucesso na competição com outros machos não expostos à atrazina na competição pela atração de fêmeas.

Uma possível explicação para o fenômeno, segundo Hayes, é que a atrazina absorvida pelas rãs seria capaz de ativar um gene normalmente inativo em rãs do sexo masculino.

Isso produziria uma enzima com a capacidade de converter o hormônio masculino testosterona no hormônio feminino estrogêneo.

O artigo “Atrazine induces complete feminization and chemical castration in male African clawed frogs (Xenopus laevis)” está disponível para acesso integral, no formato PDF. Para acessar o artigo clique aqui.

Para maiores informações publicamos, abaixo, o abstract.

Atrazine induces complete feminization and chemical castration in male African clawed frogs (Xenopus laevis)
Proceedings of the National Academy of Sciences
Published online before print March 1, 2010, doi: 10.1073/pnas.0909519107

Abstract
The herbicide atrazine is one of the most commonly applied pesticides in the world. As a result, atrazine is the most commonly detected pesticide contaminant of ground, surface, and drinking water. Atrazine is also a potent endocrine disruptor that is active at low, ecologically relevant concentrations. Previous studies showed that atrazine adversely affects amphibian larval development. The present study demonstrates the reproductive consequences of atrazine exposure in adult amphibians. Atrazine-exposed males were both demasculinized (chemically castrated) and completely feminized as adults. Ten percent of the exposed genetic males developed into functional females that copulated with unexposed males and produced viable eggs. Atrazine-exposed males suffered from depressed testosterone, decreased breeding gland size, demasculinized/feminized laryngeal development, suppressed mating behavior, reduced spermatogenesis, and decreased fertility. These data are consistent with effects of atrazine observed in other vertebrate classes. The present findings exemplify the role that atrazine and other endocrine-disrupting pesticides likely play in global amphibian declines.

Reportagem da BBC Brasil, publicada, com informações complementares, pelo EcoDebate, 03/03/2010

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Fonte: Portal EcoDebate, março 3, 2010
[Segue a campanha da PAN nos EUA, na esperança de bater os pregos no caixão desse veneno. No Brasil, ele continua registrado, com monografia toxicológica em pleno vigor, inclusive em ambientes frequentados por sapos: http://www.anvisa.gov.br/toxicologia/monografias/a14.pdf ]

 


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