Quanto mais agrotóxico, pior', afirma oncologista sobre relação com câncer

A partir do estudo do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) mostrar que a Região Noroeste do Rio Grande do Sul é a que mais usa pesticidas no Brasil, e ao mesmo tempo é a que concentra as maiores taxas de mortalidade por câncer - acima da média do estado, que já é a maior do país -, especialistas reiteram que a relação entre agrotóxicos e a doença realmente existe.
Agrotóxicos também são chamados de defensivos agrícolas, e são produtos químicos, físicos ou biológicos para o controle de plantas invasoras (herbicidas), insetos (inseticidas), fungos (fungicidas), bactérias (bactericidas), ácaros (acaricidas) e ratos (rodenticidas).

 

Em Porto Alegre, o coordenador do setor de oncologia do Hospital Santa Casa diz que não há dúvidas sobre essa relação. "A visão que nós temos é que, quanto mais agrotóxico, quanto mais isso entrar em contato, mesmo através da alimentação, isso é pior. Esse produtos fazem quebras cromossômicas no nosso organismo, podendo ocasionar qualquer tipo de neoplasia [tumor]. Sem dúvida, o uso do agrotóxico, o contato com o agrotóxico indiscriminado, sem o cuidado devido, aumenta esse risco e aumenta o risco de neoplasia também”, afirma o médico Carlos Eugênio Escobar.

Somente no Hospital de Caridade de Ijuí, no Noroeste do estado, 23 mil pessoas fazem tratamento contra o câncer. A instituição atende 120 municípios da região.

O agricultor Renaldino Weideimonn é um dos pacientes. Ele não tomava nenhum tipo de cuidado na hora de aplicar agrotóxicos nas plantações. "Não botava no nariz. Nada, nada, luva... Ele não usava nada aquele tempo", conta a filha do produtor rural, Nocilde Weideimonn. "Depois chegava em casa e me lavava. Tomava um banho, né", conta Renaldino.

O oncologista Fábio Franke, coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) do Hospital de Caridade de Ijuí, disse em ebtrevista à BBC Brasil que "diversos estudos apontam a relação do uso de agrotóxicos com o câncer".
De acordo com o chefe da divisão de insumos do Rio Grande do Sul, o risco é ainda maior para os agricultores que deixam de lado os equipamentos de segurança, obrigatórios para quem manuseia agroquímicos.

"Nós identificamos nas ações que nem todos os produtores fazem uso e, quando fazem, fazem uso de uma proteção precária", conta o fiscal estadual agropecuário Rafael Friedrich de Lima.

Assunto polêmico

Em entrevista ao Jornal do Almoço, o engenheiro agrônomo da Emater Ênio Todeschini reconheu que o assunto é "polêmico por natureza". "A própria denominação vai desde remédio até veneno", salientou.
"Mas tem questões importantes à destacar. A econômica, tem indústrias, registros, tributação, vendas. E tem a questão agronômica. Ainda hoje, é uma ferramenta importante na produção de alimentos. A questão é como se usa essa ferramenta", acrescenta.
O especialista faz uma comparação com um utensílio essencial para o dia a dia. "É o exemplo da faca na cozinha. Imagina uma cozinha sem faca. Mas essa mesma faca na mão de uma criança ou de uma pessoa pouco prudente, vira uma arma perigosíssima. Então, é uma ferramenta importante, que quando bem usada não oferece riscos, tanto para o produtor, quanto para o meio amiente e para o consumidor desses alimentos", completa o agrônomo.

Fiscalização intensificada

Além da segurança dos agricultores, que ficam em contato direto com os defensivos, os níveis de agrotóxicos que vão para os alimentos também estão na mira dessa discussão. A Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul intensificou o monitoramento e, em um projeto piloto, que serve de exemplo para todo o país, amostras de alimentos prontos para consumo foram coletadas direto nas propriedades.

Em 2015, fopram analisadas 12 culturas diferentes. Apenas duas delas não apresentaram agrotóxicos acima do tolerado, com produtos que não são permitidos para aquela cultura ou até proibidos. "Nesse caso, a gente retorna nas propriedades, orienta o produtor e, em algumas propriedades, a gente faz fiscalização de uso de agrotóxicos", explica Fabíola Boscaini Lopes, da divisão de inspeção de produtos de origem vegetal.
Na Assembleia Legislativa gaúcha, três projetos de lei que buscam mais rigor no uso de agroquímicos esperam para serem votados. Um deles trata da proibição da fabricação e comercialização de um dos venenos mais tóxicos que existe no mercado.

"O outro, nós queremos a rotulagem dos produtos. O Código de Defesa do Consumidor dá o direito do consumidor saber o que ele está levando para a sua casa. E, por fim, nós estamos questionando a pulverização aérea. O nosso projeto trata a proibição. Nós queremos que o agricultor permaneça no campo produzindo, tendo renda, mas que ele não morra antes do tempo", reforça o deputado estadual Edegar Pretto (PT).

Mais dados

Um estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comparou o número de mortes por câncer da microrregião de Ijuí com as registradas no Estado e no país entre 1979 e 2003 e constatou que a taxa de mortalidade local supera tanto a gaúcha, que já é alta, como a nacional.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa de mortalidade pela doença. Em 2013, foram 186,11 homens e 140,54 mulheres mortos para cada grupo de 100 mil habitantes de cada sexo.

O índice é bem superior ao registrado pelos segundos colocados, Paraná (137,60 homens) e Rio de Janeiro (118,89 mulheres).

O estado gaúcho também é líder na estimativa de novos casos de câncer neste ano, também elaborada pelo Inca - 588,45 homens e 451,89 mulheres para cada 100 mil pessoas de cada sexo.

Em 2014, 17,5 mil pessoas morreram de câncer em terras gaúchas - no país todo, foram 195 mil óbitos.
À BBC, a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) enviou uma nota em que afirma que "toda substância química, sintetizada em laboratório ou mesmo aquelas encontradas na natureza, pode ser considerada um agente tóxico" e que os riscos à saúde dependem "das condições de exposição, que incluem: a dose (quantidade de ingestão ou contato), o tempo, a frequência etc." O texto afirma ainda que "o setor de defensivos agrícolas apresenta o grau de regulamentação mais rígido do mundo".

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37041324 em 23-08-2016


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