Anuncia-se que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) vai investigar a relação entre alguns tipos de agrotóxicos
e a incidência de suicídios, depressão e distúrbios
de comportamento em agricultores - em seguida a informações da
revista Galileu sobre altas taxas de suicídio, muito acima da média
nacional, entre agricultores nas regiões de Santa Cruz do Sul (RS), considerada
a "capital do fumo", Ipuiúna e Estiva (MG). A causa apontada
seria o uso de organofosforados e ditiocarbamatos. Em 2001 registraram-se em
Santa Cruz do Sul 21 suicídios, numa população de 100 mil
habitantes - taxa muito acima da média brasileira, que é de 3,8
suicídios para 100 mil pessoas. O Ministério Público anunciou
que também vai investigar.
A notícia é bem-vinda. Porque o problema não é novo,
principalmente nas regiões de produção de fumo. Em 1996,
por exemplo, em Venâncio Aires, vizinho de Santa Cruz do Sul, registraram-se
37,22 suicídios por 100 mil.
A pesquisa poderia até ser mais ampla e abranger outros ângulos
da questão dos agrotóxicos. Poderia começar - um entre
muitos exemplos possíveis - em Goianápolis (GO), antigamente considerada
a "capital brasileira do tomate" (seu filho mais conhecido, o cantor
Leandro, foi plantador de tomate e morreu de câncer). Nos últimos
tempos, cerca de 90% dos plantadores deixaram essa que era praticamente a única
cultura no município e se transferiram para terras dos municípios
vizinhos. O intenso uso de agrotóxicos nessa cultura - até uma
pulverização por dia, sem planos de manejo integrado - levaram
à queda de fertilidade, ao aumento de custos e à geração
de pragas super-resistentes, contra as quais já não têm
efeito os pesticidas. A queda de renda e o desemprego no município são
muito altos.
Não houvesse esses sinais de alerta no horizonte, poder-se-ia lembrar
a recente ameaça (Estado, 8/11) da União Européia de impedir
a entrada de suco de laranja do Brasil se os níveis de resíduos
de dimetoato (que entra na composição de acaricidas e inseticidas)
não forem reduzidos em cem vezes (!) em relação aos níveis
atuais - o que pode afetar um mercado da ordem de US$ 1 bilhão/ano para
o suco brasileiro. A Associação Brasileira de Exportadores de
Cítricos argumenta que os produtos que utiliza estão entre os
320 defensivos agrícolas aprovados pela Organização Mundial
de Saúde (OMS).
No âmbito da Organização para a Alimentação
e Agricultura (FAO), da ONU, representantes de cem governos propõem acrescentar
à relação de pesticidas perigosos para a saúde humana
(podem provocar depressão respiratória, convulsões, mortes)
e animal (aves e mamíferos) os produtos à base de monocrotofos,
encontráveis no Brasil sob várias denominações comerciais.
Outra campanha em âmbito mundial pede a proibição de produtos
à base de paraquat, também comercializados aqui.
A FAO está até revendo seu código internacional de conduta
sobre uso e distribuição de pesticidas, de modo a reduzir os riscos,
especialmente nos países ditos em desenvolvimento. O novo código
quer deixar mais claras as responsabilidades de governos, da indústria
química e de alimentos, assim como dos organismos internacionais.
Hoje estão disponíveis no mundo cerca de 70 mil substâncias
químicas e a cada ano mais 1.500 se somam à lista. Muitos produtos
já proibidos nos países industrializados continuam à venda
nos demais. E ainda não entrou em vigor o Tratado de Rotterdam, que bane
várias substâncias: foi aprovado por 72 países, mas ainda
não chegou ao mínimo de 50 ratificações. A preocupação
especial com os países em desenvolvimento se deve a que neles ocorrem
99% das mortes por pesticidas, embora eles consumam menos de um terço
do total desses produtos comercializados a cada ano.
Segundo a OMS, registram-no no mundo a cada ano 25 milhões de casos de
envenenamento por agrotóxicos e cerca de 20 mil mortes involuntárias
pela mesma razão. Nos países em desenvolvimento, a carência
de equipamentos e roupas adequadas para agricultores que usam esses produtos
é uma das causas principais. Más condições de armazenamento,
outra. Utilização de organofosforados e carbamatos, já
banidos, uma terceira. E, na África, a existência de 500 mil toneladas
de pesticidas obsoletos, vencidos, proibidos.
No Brasil, o consumo continua crescendo - tanto de fertilizantes como de pesticidas.
Os primeiros passaram de 69,44 quilos por hectare em 1992 para 128,83 quilos
em 2000 (mais 85,5%), segundo o IBGE. Os agrotóxicos, de 2,27 quilos
por hectare em 1997 para 2,76 quilos em 2000 (mais 21,5% em três anos).
No total, o consumo na área cresceu 31,8% nos cinco primeiros meses deste
ano.
Estudo do Instituto de Nutrição do Estado do Rio de Janeiro mostrou
que 90% dos legumes e verduras consumidos pelos fluminenses têm alguma
contaminação microbiológica ou química. E estudo
da própria Anvisa, publicado por este jornal (10/11), mostra que, em
análises feitas em quatro Estados (SP, MG, PR e PE) com 1.295 amostras
de nove tipos de alimentos, 83% continham resíduos de agrotóxicos
e 22% estavam em desacordo com a legislação: 79 com resíduos
não autorizados para aquele tipo de alimento, 94 com resíduos
acima do permitido e 65 com os dois problemas.
E, embora esteja em vigor desde maio a lei que exige a implantação
de centrais - a cargo dos produtores e comerciantes - para recolhimento de embalagens
vazias de agrotóxicos (após a tríplice lavagem obrigatória
pelos consumidores), a aplicação está muito atrasada, com
poucas unidades por Estado abertas - nos que as estão implantando.
É um quadro muito preocupante, que exige atuação competente
e enérgica.
Ameaça lavradores, consumidores e o próprio comércio externo
do País, em momento crucial para a balança comercial e o balanço
de pagamentos.
Podemos ser mais modernos. Não precisamos continuar presos à mentalidade
que aponta segurança alimentar e meio ambiente como obstáculos
ao progresso.
* Washington Novaes é jornalista E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Fonte: O Estado de São Paulo, Sexta-feira, 15 de novembro de 2002 - ESPAÇO ABERTO, por Washington Novaes
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