Apicultores suspeitam que agrotóxico matou abelhas em Iacanga

 

Iacanga - Apicultores da região de Bauru se reuniram ontem para discutir possível contaminação por agrotóxico que, em menos de duas semanas, teria causado o extermínio de cerca de 250 colmeias, um prejuízo estimado em cerca de R$ 30 mil. Pela manhã, amostras de galhos, flores e folhas da plantação de laranja suspeitas de terem sido atingidas pelo agrotóxico conhecido como Regent, foram encaminhadas para análise do laboratório da Unesp de Botucatu. O resultado do laudo poderá respaldar os apicultores na denúncia-crime que eles pretendem fazer para o Ministério Público (MP).

"Se ficar comprovado que as abelhas morreram em função da pulverização do produto, eu acho que é crime ambiental", afirma o presidente da Associação Bauruense de Apicultores Meliponicultores e Ambientalistas (Abama), Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes.

De acordo com ele, as denúncias partiram de cinco apicultores da região de Iacanga que, desde a terça-feira da semana passada, tem verificado a morte dos enxames. "As abelhas não conseguiam sequer voltar para a colmeia, morriam no campo, em grande quantidade", revela.

Em conjunto, os apicultores iniciaram investigação e descobriram que uma plantação de laranja de Iacanga estava sendo pulverizada. "Eles questionaram o funcionário, que confirmou que estava aspergindo um produto, suspeita-se que seja o Fipronil (Regent), na florada de laranja", conta.

O suposto crime ambiental teria sido denunciado na delegacia da cidade, Polícia Ambiental e Casa da Agricultura, mas nada foi feito. Na última terça-feira, os produtores contrataram um advogado, que levou o caso à Promotoria de Justiça de Ibitinga.

O apicultor Nivaldo Vitte Guion diz que o sintoma de envenenamento por Regent é diferente dos demais. "Ele destrói a colmeia em pouco tempo. As abelhas morrem muito rápido. Outros agrotóxicos matam mais lentamente", declara.

Ele diz não acreditar nas informações que estão no rótulo do produto. "Eu acredito que esse produto tenha algum fungo ou bactéria que se prolifera na colônia porque as abelhas vão até as flores que receberam o produto e se contaminam. Quando conseguem voltar para a colmeia, matam todas as outras. Quatro abelhas contaminadas conseguem matar cerca de 80 mil", denuncia.

Para Guion, outra hipótese a ser investigada é o uso de algum defensivo novo do qual ainda não se tem conhecimento dos efeitos sobre os insetos. "Em qualquer lugar do mundo é proibida a pulverização na época da florada. Mas no Brasil tem quem faz (a aplicação de agrotóxico)", diz.

Para o presidente da Abama, o produtor de laranja não deve esquecer o papel das abelhas na produção do fruto. "A abelha faz a polinização das flores nos pomares. No caso da laranja, o trabalho delas pode aumentar de 30 a 100% a produção do fruto", lembra.

O apicultor Paulo Grigoletti, que perdeu cerca de 90 colmeias, calcula que o prejuízo dos produtores gire em torno de 250 colmeias. Para se ter uma ideia, cada colmeia possui de 50 mil a 80 mil abelhas. Com a morte das abelhas, até o final do ano, deixarão de ser produzidas 10 toneladas de mel, o equivalente a R$ 50 mil.

Caso o laudo da Unesp aponte que o agrotóxico Regente foi o responsável pelas mortes, ele diz que vai entrar com ação de reparação de danos contra o proprietário da fazenda de laranja.

O presidente da Abama, Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes, enfatiza que o agrotóxico que pode ter provocado o extermínio das abelhas tem o uso controlado por ser fortíssimo. "Só pode ser comprado por usinas de açúcar e ser colocado no solo, e não aspergido. Toda compra tem um agrônomo responsável. Porém, o que estamos percebendo é que há um mercado paralelo, fruto de cargas roubadas, e contrabando do Paraguai", denuncia.

Ele frisa que a abelha infectada voa por uma área de até cinco quilômetros. "O apicultor descarta o mel, mas a laranja, eu não sei. O resíduo chega a durar até 15 anos. Se mata abelha, um inseto resistente, pode até matar o homem. Por isso, estamos pedindo providências às autoridades", afirma.

Nunes não descarta a possibilidade de uma pessoa sofrer danos por intoxicação. "Uma pessoa menos avisada pode se alimentar do mel encontrado em uma colmeia no mato e sofrer danos a sua saúde. Não sabemos até que ponto esse produto afeta o homem", diz.

Dificuldade

A dificuldade dos apicultores é a materialização do suposto crime ambiental. Isso significa que, para que as autoridades tomem providência em relação ao uso de um produto, é preciso provar que ele está realmente contaminando e matando as abelhas.

Com esse objetivo, munido de boletins de ocorrência, fotos e depoimentos, o advogado contratado pelos apicultores fez um pedido de ação cautelar na Justiça. No final da tarde de anteontem, o juiz concedeu autorização para a entrada na propriedade e nomeou uma engenheira agrônoma, funcionária da Casa da Agricultura da cidade, para coletar amostras da plantação de laranja e abelhas mortas próximas ao local para análise em laboratório.

O exame laboratorial será custeado pelos apicultores, apesar de considerar a ocorrência problema de saúde pública.

Aplicação em citrus não pode

O Fipronil é o princípio ativo de uma vasta gama de pesticidas utilizados contra formigas, cupins, pulgas e até baratas. Comercialmente é encontrado com o nome "Regent" "Termidor", "MaxForce", ou "Frontline", entre outros.

Segundo as assessorias de imprensa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso do produto só é autorizado para o controle de pragas e tratamento de sementes em plantações de algodão, arroz, cevada, feijão, soja, trigo, cana-de-açúcar, batata e pastagens.

A aplicação em citrus, de acordo com o orgão, é considerada desvio de uso por parte do produtor e pode se configurar em crime ambiental. Nesses casos, o produto pode ser substituído por outros dois inseticidas, Tiametoxam e Inidacloprido, que pertencem ao mesmo grupo químico do Regent.

Fonte: Jornal da Cidade, Bauru 20/08/2010 por Rita de Cassia Cornelio/Com Lilian Grasiela

 


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