CURITIBA - Um levantamento da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) feito com nove produtos agrícolas vendidos
em supermercados de Curitiba revela que 15% das amostras coletadas estavam
contaminadas com agrotóxicos. Os níveis encontrados ultrapassaram
o limite permitido por lei ou então o alimento tinha a presença
de algum defensivo proibido para aquela cultura.
"Para o consumidor há riscos de saúde", diz o gerente-geral
de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles. Pesquisas científicas
mostram que o consumo freqüente de alimentos com contaminação
acima dos limites previstos pela lei, ao longo de anos, pode propiciar o desenvolvimento
de câncer, doenças do sistema nervoso ou alterações
nos hormônios, com implicações como a perda de esterilidade.
O grande vilão do levantamento foi o morango. Quase metade das amostras
(48,6%) estavam irregulares. Em seguida, veio o tomate, com 28,9% de amostras
contaminadas.
O levantamento realizado em Curitiba, nos anos de 2001 e 2002, faz parte
do Programa Nacional de Análise de Resíduos de Agrotóxicos.
A Anvisa também pesquisou os mesmos produtos em São Paulo, Belo
Horizonte e Recife e divulgou os resultados nacionais no início do
mês. O índice de irregularidades nas quatro capitais juntas chegou
a 22%.
O objetivo da Anvisa é ampliar o programa para outros estados. "A
idéia é estabelecer um monitoramento constante em todo o país",
diz Meirelles. Segundo ele, esses dados servirão para orientar a fiscalização
no campo, para estabelecer políticas de controle do uso indiscriminado
de defensivos agrícolas e também vão munir os consumidores
de informações para que exijam produtos de melhor qualidade.
O diretor no Paraná do departamento de aprendizagem rural do Serviço
Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), José Carlos Gabardo, explica
que os níveis de contaminação acima do permitido por
lei podem ser evitados mediante a correta aplicação do agrotóxico.
Segundo ele, um defensivo às vezes é indicado para uma cultura
e não para outra. Se a pessoa não tiver conhecimento técnico
também pode errar na dosagem do veneno. Há também agrotóxicos
que exigem uma espécie de quarentena. Depois de aplicados, o produto
não pode ser colhido e vendido até que um determinado tempo
se passe. "O tempo de carência chega a ser de 90 dias", diz
ele.
"A educação do agricultor é fundamental",
afirma Gabardo. Desde 1993, o Senar já treinou 58 mil trabalhadores
rurais no Paraná a fazerem a aplicação correta do agrotóxico.
Mas, segundo ele, antes de os alunos passarem pela sala de aula, o nível
de informação e de conscientização é muito
baixo.
Outro problema é o desrespeito deliberado à lei. "No interior,
há muitos casos de venda de defensivos sem a receita do agrônomo",
diz o chefe da seção de fiscalização do receituário
da Secretaria Estadual da Agricultura, Reinaldo Skalisz. A extensão
da área agrícola é outro obstáculo para a fiscalização.
O Paraná tem 300 mil propriedades rurais e apenas 80 fiscais na secretaria.
Da Gazeta do Povo, Terça-feira, 21 de Janeiro de 2003
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