Pesquisa indica contaminação de agrotóxicos em águas subterrâneas

O risco de contaminação de águas superficiais e subterrâneas provocada pelo uso de agrotóxicos é um fato que não pode ser desprezado. Ainda mais porque o período de aplicação de agrotóxicos coincide com as chuvas mais intensas na região do cerrado. O alerta e da doutora em Saúde e Ambiente, Eliana Freire Gaspar de Carvalho Dores, do Departamento de Química da Universidade Federal de Mato Grosso [UFMT]. Sua tese de doutorado identificou traços de metribuzina e metolaclor [princípios ativos de agrotóxicos comumente aplicados na agricultura] no município de Primavera do Leste, um dos pólos de produção de soja no estado.

“É preciso atenção para a aplicação de determinados agrotóxicos em áreas vulneráveis”, alerta a pesquisadora. Áreas vulneráveis são aquelas onde, por exemplo, o solo tem permeabilidade média a alta, podendo permitir que sustâncias químicas possam contaminar águas subterrâneas. A preocupação aumenta quando essas águas são utilizadas para o consumo humano, por meio de poços artesianos.

Para efeito da elaboração da tese, a pesquisadora fez o levantamento de cinco ingredientes ativos. Os resultados apontaram que o grau de presença dos ingredientes é considerado dentro dos limites aceitáveis pela legislação brasileira atual. Entretanto, Eliana explica que, embora existam estudos que avaliem o risco de contaminação dos agrotóxicos antes deles serem registrados, sendo autorizados apenas aqueles considerados de baixo impacto, o problema persiste. “O fato é que os estudos para autorização são geralmente desenvolvidos em países de clima temperado onde as características ambientais são bastante diversas”, argumenta.

Em outro estudo, feito pelo Departamento de Química da UFMT com a Embrapa Pantanal, que tem sede em Corumbá [MS] foi detectado em uma análise preliminar que sedimentos e água dos principais rios que atravessam regiões agrícolas e correm para o Pantanal também apresentaram contaminação, embora, novamente, em proporções pequenas. “Mas ainda é um trabalho preliminar, uma vez que é preciso levar em conta a própria dinâmica do ciclo hidrológico e do volume d’água presente no Pantanal”, complementa.

A professora lembra que resultados semelhantes foram encontrados num estudo publicado pelo Projeto Ecologia do Gran Pantanal, da UFMT, em parceria com a Universidade de Bayreyth, da Alemanha. Dos trinta e dois ingredientes ativos pesquisados, vinte e dois apareceram pelo menos uma vez nos rios da sub-bacia do Rio Tenente Amaral e baía de Siá Mariana, no Pantanal mato-grossense. “Todos esses dados provam que são necessários mais estudos para gerar dados que possam servir de orientação aos produtores rurais”, conclui.

Efeitos na saúde

Para Eliana Dores o problema mais grave se refere à questão ocupacional, ou seja dos trabalhadores que lidam diretamente com a aplicação dos agrotóxicos do que com a ambiental. “Apesar de todas as informações disponíveis, ainda existem tantos desrespeitos com os cuidados necessários na aplicação dos produtos, principalmente em relação aos equipamentos obrigatórios”, adverte.

Embora seja obrigatório o uso dos equipamentos de proteção individual [EPI], que são óculos, máscara, avental, botas, chapéu, camisa de manga comprida, luvas e calça comprida, é comum observar que em muitas propriedades trabalhadores sem um ou mais itens necessários a sua segurança. Outra ocorrência comum é o trabalhador fazer a aplicação de agrotóxico e permanecer com a mesma roupa durante todo o dia, acentuando o risco de contaminação e, conseqüentemente, provocando doenças.

“Os efeitos agudos são relativamente fáceis de diagnosticar pelas próprias análises que autorizam e orientam a utilização de determinados produtos”, explica. De acordo com ela os dados de doenças crônicas, como por exemplo as alergias, as que atacam o fígado e a coordenação motora são mais difíceis de detectar. “Além disso, poucos são os trabalhadores que procuram um posto de saúde quando são acometidos de alguns sintomas, como dores de cabeça, enjôo, etc preferindo tratar com remédios caseiros, o que não nos permite ter estatísticas de casos de intoxicação por agrotóxicos confiáveis”, adverte.

fonte: Estação Vida, CIÊNCIA E TECNOLOGIA - 14/3/2003 09:47 por André Luís Alves


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