Agrotóxicos matam o equivalente a uma tragédia de Brumadinho por ano

Adelso Rocha Lima, do MST, lembra que os agrotóxicos circulam não só no mercado, mas no corpo das pessoas

“Não é uma opinião de um indivíduo, de uma organização”, avisa Adelso Rocha Lima, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no início desta entrevista. E segue elencando números já conhecidos, que pautam nossa conversa.

Em 2019, o Brasil, que há uma década já é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tem um presidente da República que lidera uma overdose tóxica contra a nação. “Em 47 dias de governo, liberou 54 novos agrotóxicos para o mercado!”, surpreende-se Adelso.

E lembra: “a quantidade de agrotóxicos em circulação no Brasil não circula apenas no mercado, na agricultura, mas também no sistema nervoso, na mesa e no organismo das pessoas, nas mamadeiras das crianças e até no leite materno”, relaciona.

“Existe uma tentativa de camuflar os perigos dos agrotóxicos de forma cotidiana. Mas seus efeitos se tornam cada vez mais explícitos, a partir das intoxicações, das tentativas de suicídio, que se tornam cada vez mais frequentes”, alerta. “Os agrotóxicos atacam o sistema nervoso das pragas, mas também afeta o sistema nervoso do ser humano e isso leva ao suicídio com o agrotóxico como instrumento”, diz.

Nos últimos dez anos, foram mais de 12 mil brasileiros que recorreram aos agrotóxicos para se suicidarem, sendo que mil morreram, segundo o Atlas do Uso de Agrotóxicos no Brasil, da professora Larissa Bombardi, da Universidade de São Paulo (USP), lançado no final de 2017.

“São efeitos desastrosos. Mil e oitocentas morreram por agrotóxicos. Um crime de Brumadinho por ano, nos últimos dez anos. Ou 9,6 crimes da Vale em Mariana por ano”, compara o líder do MST, ressaltando que, para cada caso de intoxicação confirmado, há mais 50 que não são constatados.

As contradições desse pacote de maldades, esses crimes que têm sido cometidos nos últimos anos, e agora com mais evidência, têm colocado a sociedade e a classe trabalhadora em situação de risco permanente, afirma Adelso. “E o próprio agronegócio, que ajudou a eleger o atual presidente, também vem sofrendo as consequências, porque os preços dos agrotóxicos e dos adubos químicos têm subido muito mais do que os preços dos produtos agrícolas”, conta.

Resistência

Em resposta ao envenenamento institucionalizado no país, o MST tem feito resistência. “Uma resistência ativa, uma resistência em luta, uma resistência de esclarecimento e enfrentamento a esse processo. Resistência também se dará no sentido da formação da base assentada e acampada e uma resistência também de esclarecimento no conjunto da sociedade”, declara Adelso, relembrando que as famílias assentadas no sul do país formam um coletivo que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e o maior produtor de sementes agroecológicas do Brasil, por meio da Bionatur, principalmente sementes de hortaliças. No Rio Grande do Sul, vendidas pela internet, também produzindo no norte de Minas Gerais.

No Espírito Santo, destacam-se os chamados assentamentos e acampamentos produtivos, onde a agroecologia e a agroflorestal são práticas cada vez mais difundidas, principalmente em municípios como Linhares, Aracruz e Montanha. “Onde havia produção de pastagens e monocultivos de eucaliptos, agora produzimos uma diversidade de alimentos, que atende não apenas as famílias acampadas, mas que esses alimentos cheguem a outras famílias desses municípios por meio das feiras”, relata.

Formação agroecológica

A formação, o conhecimento, o esclarecimento, são fundamentais para expandir essa conquista. As escolas de assentamentos são referências regionais em formação agroecológica, com bons exemplos em Prado, no extremo sul da Bahia, em São Paulo, em Santa Catarina...

Na educação capixaba, o momento é de lutar pela manutenção e melhoria das escolas do campo que não foram fechadas pelo governo Paulo Hartung. E inserir conteúdos e disciplinas que trabalhem o esclarecimento sobre os riscos dos agrotóxicos e o incentivo à produção de alimentos saudáveis.

“Um desafio nosso, da sociedade como um todo, é que as escolas, as instituições públicas busquem incluir no seu currículo os efeitos dos agrotóxicos e também a forma de produção de alimentos saudáveis. Não só as escolas do campo, mas também as das cidades, as escolas públicas de modo geral. Porque a sociedade precisa conhecer os perigos dos agrotóxicos”, conclama o líder camponês.

Territórios livres

Outro desafio, acrescenta Adelso, é a criação de territórios livres de analfabetismo e de agrotóxicos. E que não seja apenas uma pauta de camponeses. “Mas que seja uma pauta das pessoas e das famílias que vivem os efeitos dos agrotóxicos, que é toda a sociedade”.

Nesse sentido, as políticas públicas precisam ser fortalecidas. No Estado, as famílias assentadas estão há mais de oito anos sem assistência técnica, repudia Adelso.

"Enquanto avançam os incentivos aos agrotóxicos, reduzem as políticas públicas às famílias camponesas”, protesta, citando a falta de assistência técnica, a redução do acesso a programas de comercialização de alimentos como o PAA e o PNAE, que estão cada vez menores, a dificuldade de acesso ao crédito agrícola, a ausência de ações de redução dos efeitos da estiagem que os camponeses sofrem até hoje, a escassez de pesquisa sobre produção de alimentos saudáveis e os efeitos dos agrotóxicos no ambiente e no organismo. “A gente conhece pouco, porque a pesquisa pública não cumpre esse papel”, denuncia.

Fonte:Seculo diário em 05 de março de 2019, 11:03

Etiquetas (Categorias - tags)

Leia Mais:



SIGA-NOS

TwiiterfeedFacebook"Whatsapp 88 9700 9062"pinterestlinkedinInstagramYoutube