Agrotóxicos causam danos ao DNA ignorados por Ministério da Saúde

Agrotóxicos causam danos ao DNA ignorados por Ministério da Saúde

Pesquisa da UFG revela que agrotóxicos causam lesões no material genético, o que pode ocasionar câncer, mas seu uso é imprescindível para o agronegócio


O pediatra Zacharias Calil tem percebido aumento na quantidade de gêmeos siameses e bebês com malformações congênitas, principalmente entre a população de áreas rurais. Desde 1999 o médico suspeita que isso tenha ligação com a exposição dessas pessoas a agrotóxicos. Com a liberação de 169 produtos pelo Ministério da Agricultura (Mapa), o Dr. Calil, que também é deputado, tem pedido na Câmara Federal mais esclarecimentos sobre o efeito nebuloso dos agrotóxicos na saúde humana antes de sua adoção nas fazendas.

Para que um agrotóxico seja autorizado, ele deve ser aprovado por três órgãos governamentais: o Mapa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Os produtos, que estão sendo chamados de “defensivos agrícolas”, são aprovados com velocidade crescente pelo Ministério da Agricultura. Foram 450 registros formalizados no ano passado, 169 até maio deste ano – 31 destes em apenas um dia. O presidente Jair Bolsonaro já afirmou que, se dependesse dele, o Ministério da Agricultura decidiria sozinho a aprovação ou não dos agrotóxicos.

A disputa da liberação versus proibição de agrotóxicos ganhou ainda mais força com a publicação interativa Por Trás do Alimento, feita pelas organizações Repórter Brasil, a Agência Pública e a suíça Public Eye. Com base em dados públicos (mas divulgados de forma críptica em relatórios técnicos), foi encontrado que um quarto das cidades brasileiras têm todos os 27 pesticidas testados na água do abastecimento público. Apenas 8% das cidades estão livres de agrotóxicos na água de suas torneiras. Em Goiânia, a Companhia Saneamento de Goiás (Saneago) distribui vinte agrotóxicos na água, oito deles associados a doenças crônicas como câncer.
Interditando a saúde pública

A polarização política atingiu o tema em cheio, com a defesa aguerrida dos dois lados como bandeiras da militância. O próprio deputado Zacharias Calil afirma que a questão é complexa: “Encontrei outros deputados que se posicionam como eu, mas é preciso cuidado. Por exemplo, tem sido usado como argumento o fato de que um supermercado sueco deixou de comercializar produtos brasileiros por conta dos agrotóxicos. Mas é um supermercado pequeno que vende comidas orgânicas, então não é justo propagar isso assim”.

Além disso, o médico lembra que grande parte do problema não são os produtos liberados, mas os ilegais, geralmente obtidos clandestinamente via Paraguai: “Não se pode descartar corretamente as embalagens de agrotóxicos clandestinos, sem nota fiscal. Esses produtos, muitas vezes mais tóxicos do que os permitidos, são jogados em qualquer lugar”. Logo, a mera proibição dos defensivos tem sido insuficiente para combater o problema.

Por isso, Zacharias Calil se animou e reportou em plenário os resultados de uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) que relacionou a exposição à misturas de agrotóxicos com lesões no DNA de trabalhadores rurais de municípios goianos. No Laboratório de Mutagênese do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, a doutora Daniela de Melo e Silva e a doutoranda Jheneffer Sonara Aguiar estudam, distanciadas do debate ideológico, os efeitos dos agrotóxicos na saúde humana.

Após divulgação dos resultados preliminares de seu doutorado na mídia, Jheneffer Sonara Aguiar relata decepção com a forma como a pesquisa foi recebida. “As pessoas pensam que somos contra o agronegócio. Não é isso; nós sabemos da importância econômica do agronegócio. Queremos que a informação verificada seja entendida de forma honesta, que o controle de pragas seja transparente, que trabalhadores não sejam levados a se intoxicar. Não são os pesquisadores da UFG contra o agronegócio – é a sociedade unida em favor da saúde”.
Além da opinião

Desde 2010, Daniela de Melo e Silva realiza os testes clássicos de análise clínica recomendados aos agricultores pelo Ministério da Saúde. Por meio de um protocolo sobre a saúde do trabalhador exposto, o órgão recomenda exames como hemogramas para verificar os efeitos dos agrotóxicos. Entretanto, o que a pesquisadora verificou ao longo de nove anos foi que os exames de análise clínica são insuficientes para se medir a saúde dos agricultores.

No Laboratório de Mutagênese, Daniela de Melo realiza (além de hemogramas, lipidogramas, medições de acetilcolinesterase) também ensaios cometa, testes de micronúcleo, extração do DNA e análises de polimorfismos genéticos. Desta forma, ela verificou que trabalhadores expostos a agrotóxicos de fato apresentam lesões no DNA, mesmo quando exames de análise clínica indicam normalidade. Segundo a pesquisadora, os exames indicados no protocolo só têm alterações quando o paciente já está muito doente.

Jheneffer Sonara Aguiar entrou na linha de pesquisa com seu projeto de doutoramento, no qual estuda 200 trabalhadores expostos a agrotóxicos e compara seus materiais genéticos os de 200 outros indivíduos, com estilos de vida semelhantes, mas que não manejam defensivos agrícolas. Sua tese inclui a avaliação do sistema imune, estudo inédito no Brasil quando associado à influência de agrotóxicos. A doutoranda verifica se há variação no número de células linfocitárias através da citometria de fluxo.

O estudo será publicado no ano que vem, na Itália, em parceria com um médico especializado no estudo de agrotóxicos. Mas, preliminarmente, Jheneffer Sonara Aguiar já verificou que pessoas expostas têm mais lesões no DNA e menos células imunológicas. Segundo a pesquisadora, trabalhadores da agricultura familiar estão em situação mais preocupante por duas razões. Primeiro, nem todos utilizam equipamentos de proteção individual (EPIs), pois estes são caros e alguns só podem ser utilizados por tempo determinado. Em segundo lugar, grandes propriedades frequentemente têm agrônomos que aplicam os defensivos de forma orientada.

“Os pequenos produtores sabem que aquilo é tóxico”, afirma Daniela de Melo e Silva, “mas aplicam sem EPI e misturado”. Este é mais um problema, segundo a pesquisadora, já que a toxicidade é alterada pela interação entre agrotóxicos e os testes da Anvisa são realizados em produtos individuais. “Em outro trabalho, avaliamos sojicultores de Rio Verde trabalham, em média, com 48 agrotóxicos”, diz Daniela de Melo. “Eles usam classes diferentes – inseticida, herbicida, fungicida; só aí vão pelo menos dez. Para a praga não se tornar resistente, misturam outros”, completa Jheneffer Sonara Aguiar.

Muitos dos agrotóxicos utilizados nas lavouras são ilegais. Alguns dos defensivos autorizados pelo Governo Federal já estiveram presentes no mercado brasileiro, foram banidos e retornaram às prateleiras recentemente. Na prática, diversos agricultores nunca deixaram de usá-los ou passaram a importar defensivos baratos ilegalmente. “Não pudemos incluir esses produtos na nossa pesquisa pela questão ética; não sabemos quanto dano causam.”

Jheneffer Sonara Aguiar conclui informando qual o objetivo do Laboratório de Mutagênese da UFG com a publicação da pesquisa. “Como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás e como meu trabalho é fomentado pelo SUS, queremos mostrar que o sistema de análises clínicas preconizado pelo protocolo do Ministério da Saúde não está dando resultados. Outros exames genéticos são melhores. É um dinheiro que, na prática, é reinvestido em resultados para o SUS”.

Não há como comprovar a suspeita do Dr. Zacharias Calil de que os agrotóxicos são os culpados pelo aumento na quantidade de malformações congênitas, já que é impossível testar essa hipótese em laboratório. Entretanto, estudos como o do Laboratório de Mutagênese acumulam dados acerca da relação entre agrotóxicos e mutações genéticas.

As pesquisadoras também encontraram, na ocasião da seleção do grupo controle, que não podiam comparar células dos trabalhadores expostos com as células de seus familiares. “Por morarem nas mesmas propriedades, aquelas pessoas também estavam contaminadas. Esposas que lavam as roupas dos maridos têm danos iguais, e às vezes maiores, aos de seus maridos”, afirma Daniela de Melo. Portanto, o problema não fica constrito à saúde dos trabalhadores rurais.

O dilema dos produtores

Leonnardo Cruvinel Furquim, coordenador técnico no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), associado Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), afirma que produtores rurais aplicam agrotóxicos de acordo com a necessidade. Segundo ele, excesso de defensivos na água e nos alimentos são um efeito indesejado. “Não é interessante usar defensivos demais. O produtor perde economicamente com a deriva ambiental. Existe intoxicação, mas não é proveniente do produto, e sim de produtores que não usam os EPIs e se contagiam”.

Segundo o coordenador técnico, a melhor solução para a intoxicação colateral seria a orientação dos agricultores. Ele afirma que trabalhadores rurais compram pacotes com altas quantidades de agrotóxicos e seguem uma bula cegamente. “O ideal seria que o agricultor acompanhasse sua, dosando corretamente de acordo com suas necessidades agronômicas. Aplicar a dose errada induz a resistência das pragas, causa uma bola de neve pois terá de aplicar cada vez mais produtos. O correto é o manejo integrado, evitar monoculturas, alterar defensivos”.

Leonnardo Furquim acrescenta ainda que o Senar oferece gratuitamente instrução para evitar acidentes com aplicação de defensivos agrícolas. “Temos um treinamento aberto aos produtores rurais, com duração de 24 horas, em que explicamos todos os riscos, quais EPIs e procedimentos necessários para evitar a intoxicação. A saída para essa situação é a informação”.

Ele conclui afirmando que o glifosato, o agrotóxico mais utilizado há 40 anos, é barato pois já não tem mais patente. Uma proibição desta classe de produto daria um prejuízo de 25 bilhões; já que passar a utilizar defensivos mais caros aumentaria o custo de produção e isso seria repassado para o consumidor, além de fazer o mercado nacional perder sua competitividade. “A discussão tem ser através da técnica e da ciência, e ter menos caráter ideológico; até porque, sem defensivos agrícolas é impossível ter agricultura”.

Fonte:Jornal Opção em 16/06/2019 por Italo Wolff

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