Controle Biológico da broca do café obtém sucesso em lacuna deixada por agrotóxico banido

Produtores atestam a eficiência de bioinseticida na região da Alta Mogiana paulista e mineira.

Desde que o agrotóxico endosulfan foi banido no Brasil, em julho de 2013, e de mais outros 45 países àquela época, a cafeicultura nacional ficou ‘órfã’ daquele que era até então o único meio eficiente conhecido para controlar a praga agrícola broca do café que, quando não tratada, pode comprometer até 100% de toda uma lavoura.

Com a proibição do uso e venda do endosulfan, tomada em conjunto pelo Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura, em função principalmente de sua associação com a intoxicação da mão-de-obra envolvida em sua aplicação nas lavouras de café, os produtores da cultura relataram deste então tentativas inócuas para controlar a Hypothenemus hampei, nome científico da popular broca do café, que compromete principalmente a qualidade dos grãos da planta, derrubando os valores de mercado pagos pelas sacas.

“Enquanto o controle químico estava disponível, com endosulfan, resolvia o problema. A partir do momento em que esse produto foi proibido, notamos a ocorrência de muitos danos. Pela eficácia duvidosa, resolvi não usar outros produtos”, lembra Sérgio Roberto Reis, produtor de café na região de Coromandel (MG). Ele tentou opções que classificou como paliativas, pois não resolveram a questão. “Nas áreas mais afetadas com problema de broca, creio que tive uma desvalorização por saca, no ano passado e retrasado, de até 20%, porque alteraram a bebida e o aspecto físico, e a qualidade foi lá embaixo”.

Reis está apostando agora no controle biológico em oito de seus 44 hectares plantados com café. “Um agrônomo da Cooxupé [Cooperativa Regional de Café de Guaxupé] disse que estava entrando com um produto [nas lavouras de café da região] com uma abordagem mais específica, com uma aplicação um pouco diferente das opções na época. Ouvi de um pessoal que havia usado em anos anteriores e deu um resultado muito bom”, relata o produtor. Para Reis, entre as pragas que incidem na cultura do café, a broca tem sido a mais problemática. “Precisamos de um produto que resolva esse problema pra nós”, deseja o cafeicultor.

O produto para controle biológico da broca do café aplicado na lavoura de Sérgio Reis é o Boveril. “Trata-se de um bioinseticida de alta eficiência que, quando usado preventivamente, apresenta controle da praga acima de 80%, além de ser seletivo aos inimigos naturais, ou seja, não traz problemas ao meio ambiente, aos animais e à saúde humana. Também é uma excelente opção para realizar o conceito de Manejo Integrado de Pragas [MIP]”, explica Diego Ramos Bicudo, supervisor da Koppert do Brasil, empresa com sede em Piracicaba (SP), e que desenvolveu o produto.

Os princípios ativos deste inseticida microbiológico são conídios do fungo Beauveria bassiana, que germinam na superfície do inseto-praga, penetrando em seu tegumento, colonizando-o internamente. A liberação de toxinas no interior deste inseto reduz sua mobilidade até a morte. Todo o processo ocorre em até 12 dias após a aplicação (por pulverização terrestre ou aérea), dependendo das condições climáticas.

André Siqueira Rodrigues Alves, engenheiro agrônomo e diretor da Casa do Café, em Franca (SP), avalia que a empresa tem hoje um mercado potencial de 40 mil hectares de café. “Estimamos que a broca do café representa problema entre 20 e 30% das áreas com esta cultura. Isso gera um mercado potencial para controle da broca entre oito e 12 mil hectares”, calcula o agrônomo.

A Casa do Café também optou pelo controle biológico com o bioinseticida da Koppert. “O controle da broca atendeu nessas expectativas em relação à performance, custo e aplicação. Na maioria das áreas atendidas foram feitos, no início, monitoramentos com o uso de armadilhas e, depois, monitoramento por amostragem dos frutos. O Boveril foi posicionado de maneira preventiva onde os índices de pragas foram maiores. Em algumas áreas onde o produtor optou por fazer o controle mais tardio, combinamos o inseticida microbiológico com outras ferramentas disponíveis no mercado”, explica o diretor da empresa. Para André Alves, o controle biológico atingiu o nível esperado em praticamente todas as áreas onde foi posicionado, se mostrando uma alternativa viável para o controle da broca do café.

Essa metodologia de manejo consciente preventivo é compartilhada por Diego Bicudo, supervisor da Koppert na região da Alta Mogiana. “Os melhores resultados com Boveril partem da aplicação preventiva, onde obtemos acima de 80% de eficiência de controle, quando realizada já nas primeiras chuvas, em meados de setembro e início de outubro, considerando também aspectos ambientais, com 60% de umidade e 30oC de temperatura. O importante é pensarmos no sistema, sendo assim o MIP é a forma mais assertiva para condução de uma lavoura consciente, preservando os inimigos naturais, para que não ocorra um desequilíbrio do meio ambiente, além de ajudar na longevidade das moléculas do produto”, detalha Bicudo.

A eficiência do fungo Beauveria bassiana no controle da broca do café está sendo muito festejada nas propriedades da família de Jean Vilhena Faleiros, que se estendem na área rural pelas cidades mineiras de Ibiraci, Claraval, Cássia e Capetinga. “Eu estou muito satisfeito com o produto. Acho que este ano posso dizer que o Boveril conseguiu sua excelência aqui e, graças ao nosso trabalho conjunto com a Koppert, temos tudo pra fechar com chave de ouro. Estamos na fase final da produção se café e sem broca alguma”, comemora Faleiros, que também é o gerente geral dos empreendimentos.

Mas, assim como para outros cafeicultores da Alta Mogiana, tanto nos trechos produtores da cultura em São Paulo como em Minas Gerais, o período sem o controle químico pelo banido agrotóxico endosulfan também foi de aprendizado em relação às novas tecnologias e principalmente na quebra da barreira cultural na adoção do controle biológico de pragas.

Assim como nos índices registrados pela Casa do Café, a lavoura de Faleiros chegou a ter entre 20 e 30% de infestação por broca, com desvalorização de 10% no preço da saca do café. A indicação do bioinseticida foi feita ao produtor por um primo que havia trabalhado na própria Koppert e que já possuía experiência com o produto. “De início eu fiquei bem desconfiado porque eu não acreditava. Eu havia usado tanta coisa e nada havia feito controle, que pensei que o controle biológico não ia dar conta de jeito nenhum. Meu primo me convenceu a fazer algumas áreas como experimento. Então comecei a usar para ver o resultado”, detalha o cafeicultor.

“Eu comecei o trabalho em 2014 fazendo testes. No primeiro ano não foi muito legal porque eu comecei tarde demais e não deu resultado bom, pois não estava fazendo monitoramento também. A partir de 2015 já fiz uma área bem certinha e deu resultado. Fiz uma área pequena. A partir de 2016 eu comecei a fazer uma área maior e monitorar bem as áreas, fazendo armadilhas e, a cada duas semanas recolhendo as mesmas, verificando se o número de brocas estava aumentando ou diminuindo e, conforme a incidência, íamos pulverizando. Fui aprendendo a trabalhar com o produto. Hoje estou com um controle excelente com o Boveril”.

Faleiros revela que a área de 800 hectares de plantação de café está 100% livre de broca. E ele dá a dica de excelência: “Para fazer o controle de broca com controle biológico tem que ser bem ‘Caxias’, ter o monitoramento muito bem feito, tem que alinhar o MIP com o monitoramento das armadilhas, porque é importante. O que eu notei é que as áreas onde eu tenho grandes pressões de broca, esse ano fizemos uma preventiva mesmo. Quando saiu do estágio chumbinho, nem tinham broca nas armadilhas ainda, mas entramos com uma aplicação. Já estou com a terceira nessa área”.

O gerente geral ressalta as vantagens do controle biológico: “É muito grande porque você não desequilibra a lavoura e, além de controlar a broca, está me dando outros controles também em menor ocasião, pois está me ajudando no controle de lagartas. Eu tinha muito problema de lagartas comendo e perfurando as folhas. Nesse período diminuiu demais. Também diminuiu, por conseqüência, o bicho mineiro. Acho que é só vantagem. A questão é mais perder o medo de usar e acreditar no produto, fazendo da forma correta, com monitoramento, com MIP, aplicando sempre na época certa. Tenho certeza que o produto vai funcionar 100%”, garante Jean Faleiros.

Outro motivo de alegria para o produtor se dá pela retomada da qualidade do café produzida agora em sua lavoura via controle biológico: “Este ano será o primeiro ano em que eu volto a fazer mesma a qualidade de café que eu tinha na época do antigo controle químico”.

Fonte:Portal Fator Brasil em 01-03-2018


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