Eles Não Usam Agrotóxico

Matéria publicada na Revista ÉPOCA, Sábado, 24 de junho de 2000 http://www.epoca.com.br/semanal/_materias/brasil11.htm

 
Preocupados com a saúde, milhões de consumidores adotam os produtos orgânicos sem abrir mão do sabor
 
Quando se cansa da maratona de gravações, o ator Marcos Palmeira busca refúgio na serra de Teresópolis, uma das regiões mais bonitas do Estado do Rio de Janeiro. Há quatro anos, comprou uma fazenda de 150 hectares, onde cultiva hortaliças seguindo um ritual cuidadoso. Toda semana são plantadas 20 mil mudas de alface, rúcula, agrião e repolho, irrigadas com água de mina e adubadas com esterco animal. Os produtos são orgânicos. Vicejam com adubo natural, sem pesticidas nem fertilizantes químicos. A colheita não só abastece a despensa da casa do ator, como também é vendida em supermercados e quitandas do Rio. "Zelo pela qualidade do que como, mas não quero ser radical", explica. Palmeira não se dedica à lavoura alternativa interessado em grandes lucros, mas descobriu que a busca de alimentação saudável é partilhada com um contingente cada vez maior de brasileiros
 
Negócios em ascensão
 
O mercado de alimentos orgânicos cresce em todo o mundo As vendas no varejo foram de US$ 18,2 bilhões no ano passado O mercado avança 20%, em média, ao ano. No Brasil, expande-se ao ritmo de 40% Existem 250 mil fazendas credenciadas, a maioria delas na Europa fonte: International Trade Center ====== Entre eles se inclui o deputado federal José Genoíno (PT-SP), que reserva as manhãs de sábado para fazer compras na feira de alimentos orgânicos do Parque da Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo. Tem razões fortes para isso. Hipertenso, tenta compensar a maratona de sanduíches e almoços políticos de Brasília quando se senta à mesa com a família. Descobriu benefícios na comida sem agrotóxicos. "A aparência não é encantadora, mas o conteúdo é bem melhor", pondera Genoíno. A alimentação sem adubo químico já foi a peça de resistência dos hippies, nos anos 70, e de tribos esotéricas, nos 80. Palmeira e Genoíno nem de longe se encaixam nesses modelos. O novo consumidor não trata o assunto como dogma. Uma pesquisa da Associação dos Agricultores Orgânicos de São Paulo revelou que 60% dos adeptos comem carne vermelha com regularidade. Não abrem mão da feijoada ou do churrasco no final de semana. A preocupação com a dieta equilibrada se soma aos cuidados com o corpo, o lazer e a qualidade de vida. Hoje, os orgânicos já respondem por 2% da produção agrícola brasileira. O índice era insignificante há quatro anos. A nutricionista Cecília Holland, de 50 anos, preza a vida saudável. Não fuma, não bebe álcool, evita açúcar. Pratica natação e faz ginástica. Come carne vermelha a cada dez dias e frango de granja com mais freqüência. Gosta mesmo é de arroz integral e vegetais cultivados sem aditivos químicos. "Além de ser mais nutritivo, o sabor do brócolis orgânico é muito melhor que o do tradicional", diz. Desde que se tornou mãe, a atriz Marisa Orth passou a comprar na feira da Água Branca. Uma vez por semana, recebe em casa uma cesta repleta de produtos. Marisa tem preferência por carne de frango e ovos caipiras. "Os ovos tradicionais têm muitos hormônios", adverte. A atriz Lavínia Vlasak, de 23 anos, concorda. "Os produtos orgânicos contêm mais nutrientes porque o solo onde são cultivados é mais rico", explica. Os adeptos de hoje sustentam bons argumentos. A explosão dos orgânicos segue a trajetória dos produtos diet. A princípio, estes ficaram restritos a diabéticos. Mais tarde, foram incorporados ao cardápio de várias pessoas em nome da boa forma e da prevenção de doenças degenerativas. Além de se relacionarem à qualidade de vida, os produtos orgânicos têm forte apelo ecológico. As fazendas produtoras não recorrem a queimadas, zelam pelas nascentes de água e reflorestam áreas desmatadas, preocupadas em preservar os animais e a vegetação nativos. Uma pesquisa do Instituto Gallup mapeou o mercado emergente. O estudo, realizado em São Paulo no ano passado, revelou que mais de 70% da população considera nocivos à saúde os alimentos cultivados com pesticidas. Sete em cada dez entrevistados pagariam até 30% a mais por produtos sem aditivos químicos, desde que não houvesse dúvidas sobre sua procedência. Tamanho interesse multiplica negócios pelo país. Além de alimentos de largo consumo, como arroz, feijão e verduras, o Brasil produz erva-mate, castanha de caju, soja, manga e até guaraná. Tudo orgânico. É crescente o número de agricultores que abandonam o cultivo químico. Para incentivar esse segmento, o Banco do Brasil abriu linhas de crédito para a agricultura saudável. Desde o ano passado, fechou 830 contratos de financiamento, no valor total de R$ 6,5 milhões. O empresário Pierre Landolt, herdeiro da família que controla a multinacional farmacêutica Novartis, cria 600 cabeças de gado numa fazenda no interior da Paraíba. Chega a produzir 1.800 litros de leite "orgânico" por dia. As vacas são vacinadas normalmente, mas tratadas com homeopatia. Agora, Landolt prepara a produção de queijos orgânicos, dos tipos Saint Paulin e Reblochon, tradicionais na França. Nascido na Suíça e naturalizado brasileiro, o empresário também planta em solo paraibano manga e abacaxi para exportação. Ele é dono do Banco Axial, especializado em financiar negócios na agricultura sem defensivos químicos. Alguns produtos, como o amido de mandioca orgânica, valem duas vezes mais no mercado externo. Itens semi-industrializados, entre os quais flocos de banana, suco de abacaxi e creme de mamão, também são vendidos acima do preço. Atentos ao novo nicho de consumo, grandes redes de supermercados, como Pão de Açúcar, Carrefour, Sé e Wal-Mart, dedicam prateleiras a orgânicos nas principais cidades. Há feiras regulares em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. As perspectivas do mercado são tão animadoras que, no ano passado, o Carrefour decidiu tornar-se também produtor. Começou pelas uvas, tradicionalmente cultivadas na Itália e em Israel. A fruta foi semeada em Petrolina, às margens do Rio São Francisco, em Pernambuco. A empresa investiu R$ 6 milhões. Inicialmente foram plantados 140 hectares. Este ano, a extensão da área inicial quase dobrou. A primeira colheita est prevista para o ano que vem. "Vamos vender metade da produção no Exterior e o restante aqui no Brasil", anuncia Arnaldo Eijsink, diretor de agronegócios do Carrefour. Tudo foi realizado dentro dos princípios ecológicos. Até as estacas de madeira que sustentam as parreiras vieram de um reflorestamento legalizado. Um dos maiores inimigos da uva é a mosca branca. Como o inseto só enxerga o amarelo, grandes bandeiras de lona amarela revestidas de cola são estendidas ao lado das plantações. As moscas são atraídas pela cor, ficam presas e morrem. Para melhorar a baixa qualidade do solo da caatinga, foram cultivados 11 tipos de leguminosas entre as parreiras. Ricas em nutrientes, elas são misturadas a esterco de bode e incorporadas à terra para adubá-la.
 
Química da produção
 
Os agrotóxicos garantem comida a bilhões de pessoas Não existem pesquisas científicas conclusivas que atestem que os agrotóxicos, se ingeridos em pequenas doses através dos alimentos, causam males à saúde. Sabe-se que os pesticidas produzidos à base de fósforo podem acarretar danos cerebrais. Outras substâncias químicas potencializam o câncer de rim. Há casos em que reduzem o número de espermatozóides. "Esses efeitos foram observados em pessoas expostas a pesticidas, em sua maioria agricultores", explica o cancerologista Luis Fernando Lopes, do Hospital do Câncer de São Paulo. "O problema é que nem sempre se seguem corretas formas de uso". O emprego de aditivos para elevar a produtividade das lavouras é milenar. Manuscritos chineses indicam o uso de arsênico e de enxofre para matar pragas no ano 3000 a.C. Os agrotóxicos industriais começaram a ser utilizados durante a Segunda Guerra Mundial. Pesquisadores receberam o Prêmio Nobel pela contribuição à ciência de alimentos. "Hoje, a produção em grande escala sem agrotóxicos é impossível", explica a professora Elizabeth Nascimento, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. "Nem por isso temos epidemias por intoxicação.
 
Longe do risco Como se proteger dos agrotóxicos
 
Lave e esfregue frutas frescas e vegetais sob água corrente. Depois, deixe os alimentos de molho em uma solução de água com vinagre por 20 minutos. A acidez ajuda a neutralizar as toxinas. Descasque frutas e vegetais. Jogue fora as folhas externas das verduras. Retire a gordura das carnes e a pele do frango e do peixe. Algumas substâncias tóxicas se acumulam em tecidos adiposos. Coma alimentos diversos, de vários fornecedores. Além de propiciar uma boa mistura de nutrientes, isso reduz a chance de exposição a um mesmo pesticida empregado pelo agricultor fonte: Agência Americana de Proteção Ambiental e Prevenção de Pesticidas e Substâncias Tóxicas
 
O mercado atrai o interesse de outros gigantes da indústria da alimentação.
 
A Nestlé não admite oficialmente, mas procurou fornecedores para viabilizar a produção de uma bolacha para crianças preparada apenas com ingredientes orgânicos. A Parmalat seleciona fornecedores de açúcar sem agrotóxicos. A Mars, marca de chocolate, quer comprar cacau sem pesticida para fabricar confeitos. Na Europa, McDonald's e Danone utilizam leite orgânico. A Whole Foods Sale, rede com 100 lojas de produtos naturais nos EUA, cresce num ritmo veloz. Em dez anos seu faturamento saltou de US$ 92 milhões para US$ 1,3 bilhão. A abundância de lucros gera novidades. A paisagem da cidade de Sertãozinho, no interior de São Paulo, está mudando. Entre os extensos canaviais surgem matas verdes em que árvores frondosas atraem bandos de andorinhas e anuns-pretos. Nascentes de água cristalina voltam a brotar, formando pequenas corredeiras. É o resultado do trabalho pioneiro do agrônomo Leontino Balbo Júnior, diretor agrícola da Usina São Francisco. O mercado mundial de açúcar orgânico somou 40 mil toneladas em 1999. A usina paulista produziu 55% desse volume, em 13 mil hectares de canaviais. O produto é vendido para a Europa e os Estados Unidos e acaba de conquistar o mercado brasileiro. Ao contrário do que ocorre no plantio tradicional, o cultivo orgânico elimina o trabalho extenuante dos cortadores de cana - que normalmente fazem a colheita manual, depois de ser ateado fogo à plantação. No novo sistema, aboliram-se as queimadas. A cana é colhida verde por máquinas especialmente desenvolvidas para a tarefa. "Agora, tenho de convencer as pessoas a pagar mais pelo açúcar porque estou protegendo os passarinhos", diz Balbo Júnior. "É trabalhoso, mas dá resultado". O caminho foi longo. No início, a conversão para o sistema orgânico fez surgir 12 pragas novas. Para combatê-las, a empresa montou um laboratório de insetos, em que são criados predadores capazes de reequilibrar a lavoura. O resíduo das usinas de álcool, tóxico, passou por tratamento especial e agora serve como adubo. É aplicado com os equipamentos de irrigação. A palha da cana é lançada ao solo. Protege contra a erosão e responde por metade das necessidades nutritivas do canavial. Leontino Balbo abandonou os branqueadores químicos à base de fósforo e enxofre. O custo de produção é o dobro do tradicional, mas os dividendos compensam. O quilo do produto livre das substâncias químicas vale US$ 3,5 no mercado internacional. Isso é pelo menos o dobro da cotação do açúcar comum. "Vamos faturar R$ 15 milhões neste ano", comemora. O café segue o mesmo caminho. Em 1998, a Associação de Cafeicultores Orgânicos tinha apenas seis membros. Hoje, são 50. Atenta à expansão do negócio, a empresa Café Bom Dia, terceira maior indústria de torrefação do Brasil, decidiu apostar no mercado há dois meses. O grupo faturou R$ 54 milhões no ano passado e investiu R$ 6 milhões na nova linha. A empresa já converteu metade dos cafezais e ainda compra boa parte da produção de café orgânico de fornecedores do sul de Minas. "Nosso alvo é o consumidor tradicional, que agora se interessa por alimentos naturais", explica Sidnei Marques de Paiva, diretor-presidente da Café Bom Dia. =

 Três gerações de pesticidas As substâncias são cada vez menos agressivas à saúde Os primeiros agrotóxicos surgiram em 1938. Eram produzidos à base de cloro, como o popular DDT. Por contaminar solos e águas de modo acumulativo, foram proibidos na década de 70 Em 1950, surge a segunda geração de defensivos, fabricada com fósforo. Eram extremamente tóxicos aos seres humanos e levavam, em casos extremos, à destruição do sistema nervoso Dez anos mais tarde a indústria criou os piretróides, compostos sintéticos semelhantes aos encontrados nas flores do crisântemo. Esses produtos químicos causam menos danos aos solos e às pessoas. Largamente utilizados no Brasil, provocam alergias, como asma e rinite, em cerca de 5% da população fonte: Elizabeth Nascimento - USP =======

== A agricultura convencional gera uma escala de produção capaz de alimentar os 6 bilhões de habitantes do planeta. E isso só é possível com a utilização dos pesticidas. Não há indícios de que a agricultura orgânica possa obter resultados semelhantes caso seja praticada em larga escala, em grandes propriedades. A prática alternativa é indicada a pequenas lavouras porque o controle de pragas e a adubação orgânica são mais complexos. "A produtividade em pequenos lotes está se expandindo", afirma o professor João Carlos Galvão, da Universidade Federal de Viçosa, que participa de uma pesquisa sobre o cultivo de milho sem o emprego de defensivos. O sucesso do plantio orgânico depende muito das soluções específicas encontradas pelo agricultor. Tradicional produtor de laranja em Monte Azul Paulista, Vanderlei Rodas converteu 1.200 hectares há oito anos. Os custos de produção subiram 50%, mas ele consegue um preço apenas 20% maior que o da laranja comum. Nos primeiros anos de produção, perdeu 20% da lavoura. Estava no vermelho quando descobriu uma forma mais barata de reproduzir fungos que combatem os ácaros da laranja. Ainda reclama da falta de lucros, mas não pensa em voltar ao velho sistema. "Acredito que as coisas vão melhorar no futuro", diz. O que ainda atrapalha a adesão aos orgânicos é a desconfiança quanto à procedência dos produtos. A olho nu, as diferenças são imperceptíveis, sobretudo no caso de legumes e hortaliças. Como é possível ter certeza de que o alimento foi mesmo produzido sem substâncias químicas? Um orgânico deve ter selo que ateste a qualidade. No Brasil, os mais respeitados são os fornecidos pelo Instituto Biodinâmico (IBD) e pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO). O Greenpeace também certifica, e existem selos regionais em vários Estados. Informações sobre a credibilidade dos produtos podem ser obtidas nas secretarias da agricultura locais. As empresas credenciadoras cobram taxas dos agricultores. Parte desse dinheiro custeia o trabalho de fiscalização. Durante a inspeção, os técnicos verificam se o processo atende às normas orgânicas, colhem amostras da terra e da água para análise em laboratório e checam as notas fiscais do produtor para verificar se as compras atendem aos requisitos ecológicos. "Garanto que quem desrespeita as regras perde o direito de usar o rótulo", explica Alexandre Harkaly, diretor do Instituto Biodinâmico. É um desafio que terá de ser cumprido à risca. Tornou-se ponto de honra conquistar e preservar a confiança de quem está descobrindo os benefícios de zelar pela saúde à mesa. Mesmo que pague mais caro por isso. =

====== Para todos os gostos Mercado brasileiro de orgânicos começa a se diversificar O consumidor brasileiro ainda não foi brindado com a fartura de produtos orgânicos disponíveis em alguns países da Europa, com a Alemanha à frente. No Primeiro Mundo a tendência j alcança o setor de guloseimas: chocolates, cereais matinais, sorvetes e biscoitos são inteiramente produzidos com ingredientes sem aditivos. Empresas especializadas procuram fabricantes para tentar convencê-los a produzir réplicas orgânicas de seus campeões de vendas. No Brasil começam a surgir iniciativas importantes, algumas ostentando grifes internacionais, entre elas a do Greenpeace. Em Curitiba, o empresário Rogério Konzen possui uma linha de mais de 20 tipos de produtos, como aveia, farinha de trigo e feijão. Ele também procura persuadir agricultores a converter suas lavouras químicas. Em São Paulo já podem ser encontrados pizzas prontas, tortas de cogumelos ou de cebola, iogurte e queijo de leite de cabra. Também há geléias de frutas, café instantâneo e até flores do campo.

Eduardo Junqueira


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