Plantando há 100 anos em São Paulo, agricultores adotam cultivo orgânico


No bairro Chácara Santo Amaro, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, famílias vivem da agricultora há mais de 100 anos. Massue Shirazawa, 71, mudou-se para região em 1971, ao casar com um agricultor paulistano. Viveu a infância em Quintana, interior de São Paulo. Sempre trabalhou no plantio, mas não foi pioneira por essas bandas.

“Diziam que em São Paulo não existia agricultor. Essa área era quase toda de agricultores”, lembra dona Massue. “Eles só não eram reconhecidos”. A surpresa que a existência de fazendas causa em quem pensa que na cidade só tem prédios também é antiga. “Quando minha sobrinha veio pela primeira vez para cá, veio aqui dentro do mato e levou um susto. Pensava que em São Paulo não tinha um lugar assim”, diz a agricultora.

Muitas coisas mudaram no campo com o passar dos anos. Uma delas pode ser observada nas hortas. Quem vê os canteiros coloridos, com pés de rúcula, alface, cenoura, cebolinha, mirá e kinkan, olha para um novo tempo. Nele, a ordem é deixar para trás tudo que se usou até então: o plantio pouco variado, como o de batatas, e os agrotóxicos da agricultura convencional.

No passado, eram comuns grandes propriedades, de “plantadores de batata e repolho”, como conta dona Massue. Hoje, muitos proprietários de terrenos extensos arrendam pequenos lotes para agricultores familiares. Os produtores Valéria Maria Macoratti, 46, e Daniel Petrino dos Santos, 35, alugam um pequeno terreno de um grande proprietário de terras. Em parte da horta, eles cultivam de forma orgânica.

Valéria estima que existam mais de 400 produtores na zona rural de São Paulo. “Alguns maiores, entregam para o Ceasa. Estes não se importam com agricultura orgânica, não querem nem saber”, diz. Mas um pequeno movimento de migração para o orgânico está em curso entre alguns agricultores. E uma das pioneiras, nesse caso, foi dona Massue.

“Desde que mudei pra cá, plantei repolho e batata, tudo de forma convencional. Aos poucos fui mudando para verduras, para fazer entregas em supermercados. Começamos a plantar mais verduras, ainda convencional. Em 2007, iniciei um curso de agricultura orgânica”, conta dona Massue. O aprendizado proporcionado pela ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares), vinculada à USP (Universidade de São Paulo), foi logo levada para a horta.

Em 2008, sua família conseguiu um cliente próximo, a igreja Messiânica do bairro do Grajáu. “Os funcionários de lá só consomem orgânico, e eles pegam uma quantidade boa”. A clientela foi aumentado. Dona Massue começou a vender seus produtos orgânicos na feira do parque Burle Marx, na zona sul, e no início de 2010, a transição estava completa. Em 2013, veio a primeira certificação, através da uma OCS (Organização de Controle Social) de que participa, com mais 5 agricultores da região – produtores de orgânico precisam desse documento para conseguirem vender.

Como a produção, a exigência dos clientes também cresceu. “Antes o orgânico era coisa pequena, os clientes não reclamavam [da qualidade]. Hoje, o orgânico está dando quase igual ao convencional”, diz dona Massue. “E todo mundo fala que dura mais, que tem mais sabor”.

A clientela cresce, mas para dona Massue, poderia ser maior. “Ainda precisa de muita divulgação do orgânico. Eu acho que o consumidor precisa ser muito consciente para mudar”, completa.

Alimento sem veneno – Um desafio imposto pelo orgânico é o de plantar sem o uso de adubos químicos e agrotóxicos. “Adubando e passando veneno, com certeza você colhe o convencional. No orgânico não tem toda essa certeza”, diz. Nesse tipo de cultivo, elementos da própria horta, como mato, e substratos naturais, como esterco de vaca, são usados para adubar o solo. O solo, sempre coberto dessas “sujeiras”, se aproveita da decomposição. A diversidade de gêneros cultivados garante variedade de pragas, promovendo competição entre elas e equilibrando o sistema.

Só de ver a mudança em seus canteiros, ela não se arrepende de ter abandonado os agrotóxicos. “A vantagem do orgânico é que quanto mais a gente planta e aduba usando composta [adubação verde], mais a verdura fica bonita. Quando se usa o adubo químico, a terra vai ficando cada vez pior. Com o orgânico, fica cada vez melhor”.

Segundo dona Massue, a terra de sua propriedade está sendo recuperada aos poucos, com a produção orgânica, dos anos de plantio convencional. Com a renda das vendas, conseguem o suficiente para pagar as despesas. Nada para investir como na troca do trator. Na horta, conta com a ajuda do marido e dos três filhos – que enviavam dinheiro nos tempos difíceis quando estavam morando no Japão.

“Até o ano retrasado tinha um funcionário. Achou ruim que começamos a plantar orgânico, começou a reclamar”, conta a agricultora. Perseverante na causa que abraçou, cuida de sua horta de seu jeito, sem pressa ou competição. “Ele comparava com o do vizinho, que é convencional. Dizia, ‘olha lá, já está colhendo, e o nosso não’. E eles jogam ureia, jogam muito veneno. Colhe mais rápido mesmo”.

Comendo tomate no pé – Dona Massue se orgulha de dois produtos de sua horta: o tomate e o morango. “Se for convencional, é o que mais vai veneno”, explica. Ela tem motivo para se gabar por possuir tomate e morango orgânicos. Dedica um cuidado especial em seu cultivo. Nos morangos, telinhas para proteger os frutos de bicadas de passarinhos. Para o tomate, ela adaptou uma antiga estrutura que se tornou sem serventia.

Quando fazia agricultura convencional, tinha uma estufa de hidroponia – técnica de cultivo sem solo que usa água e agrotóxicos. Com a ajuda do marido e dos filhos, dona Massue aproveitou os pilares da estufa desativada para construir um ambiente totalmente protegido contra a entrada de bichos. E aí plantou tomate. “Tomate orgânico, como não usa veneno nem nada, precisa tudo telado para não ter inseto”, diz.

Da primeira colheita de tomate orgânico, ela tem lembranças cheias de sabor. “Quando plantei quatro anos atrás, enchi só até a metade [da área]. Mas deu tomate bonito! Veio gente aqui, nossa, só limpavam e já comiam. É um tomate saboroso que dá, porque tem o sabor do tomate”.

O morango fica em canteiro aberto, mas Massue não teme insetos. “Planta sadia não vem inseto, não tem ataque. Como falam sobre gente, que ser estiver saudável, não pega doença”. A bronca mesmo acabou para os passarinho. “Eles comem porque só tem gosto de morango. O passarinho comer um grandão desse dá um prejuízo”.

Fonte:UOl em 23 Jul 2014

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