Tecnologia transforma alcatrão em fertilizantes e alimentos

 

Existem pessoas esbanjadoras que fazem dinheiro virar fumaça. Outras, procuram fazer exatamente o contrário e ainda contribuem para garantir a vida no planeta. A Biocarbo Indústria e Comércio, com sede em Itabirito (MG) e unidade industrial piloto em Curvelo (MG), é um bom exemplo. A empresa processa, pioneiramente no país, o alcatrão da siderurgia para produzir desde fertilizantes a insumos da indústria de alimentos. O alcatrão é obtido no processo de despoluição das fumaças liberadas na queima do carvão vegetal.

A idéia tem tudo para dar certo e crescer exponencialmente. Afinal, o Brasil é o único país no mundo cujas siderúrgicas adotam em larga escala – aproximadamente 20% do parque industrial instalado – a energia à base da tecnologia de carvão vegetal. Todos os outros países empregam carvão mineral (coque). O alcatrão vegetal, portanto, é uma matéria-prima com potencial de ser abundante no país, apesar de sua grande utilidade ainda ser pouco explorada.

Além de lucrativo, o alcatrão faz parte de uma atividade econômica ecologicamente correta. Hoje, mais de 70% da madeira utilizada na produção de carvão vegetal é proveniente de reflorestamentos. Dessa forma, matas nativas são preservadas, beneficiando a manutenção e a recuperação da diversidade vegetal e da fauna silvestre.

O carvão vegetal é, ainda, uma fonte de energia renovável. Devido a fatores climáticos e pela própria limitação territorial, a Europa abandonou definitivamente, no século XX, a siderurgia a carvão vegetal, substituída pela siderurgia a carvão mineral. No Brasil, a utilização do carvão vegetal continuou a renovar-se tecnologicamente, apoiada na ampla disponibilidade de mão-de-obra e de terras apropriadas à exploração florestal e, principalmente, no alto rendimento da floresta tropical, vinte ou trinta vezes superior ao que se pode obter nas regiões temperadas e frias do Hemisfério Norte.

O modelo nacional de siderurgia, que aproveita a biomassa (matéria orgânica) como fonte de energia, contribui para a redução de gases causadores do efeito estufa. O excesso de gás carbônico na atmosfera dificulta a dissipação do calor do Sol, o que aumenta a temperatura no planeta e ocasiona alterações climáticas, que degelam as calotas polares e comprometem a agricultura e a sobrevivência de espécies animais e vegetais.

Na siderurgia, o uso de coque libera um saldo de 1.8 toneladas de CO2, ou seja, gás dióxido de carbono, em cada tonelada de ferro gusa produzida. No caso do carvão vegetal não há saldo, todo o CO2 é reciclado como "alimento" para a produção de madeira nas áreas de reflorestamento. Enquanto crescem e aguardam a idade de corte, as florestas estocam o gás dióxido de carbono, o que equilibra a emissão de indústrias e de atividades poluidoras. O fenômeno é conhecido tecnicamente por "sink" (sorvedouro).

Idealizada em 1993 e implantada no ano seguinte, a Biocarbo Indústria e Comércio obtém a sua matéria-prima, o alcatrão vegetal, da siderúrgica V & M Tubes do Brasil, a única de Minas Gerais que promove a despoluição das fumaças liberadas na produção do carvão vegetal. Se a demanda por alcatrão ainda é pequena, no futuro pode ser grande, especialmente em Minas, cujo parque siderúrgico absorve 70% da produção de carvão vegetal do país.

"Como o Brasil produz 6 milhões de toneladas anuais de carvão vegetal, podemos produzir no país até 2 milhões de toneladas de alcatrão por ano, dependendo das melhorias na tecnologia de carbonização e na de recuperação de subprodutos", diz a engenheira química Maria Emília Rezende, idealizadora e dirigente da Biocarbo.

Nos Estados Unidos e na Europa, os subprodutos do carvão vegetal, entre eles o licor pirolenhoso, para a produção de substâncias químicas – como o metanol, o ácido acético e os acetatos – eram conhecidos, mas foram deixados de lado há algumas décadas. Os produtos passaram a ser fabricados a partir de derivados do petróleo. Segundo Maria Emília, para os americanos, a síntese petroquímica apresenta vantagens de custo e de escala de produção. O caso brasileiro tem tudo para ser diferente. Aqui o carvão vegetal é produzido em grande escala e apresenta-se vantajoso economicamente para a siderurgia, tanto em custo quanto em desempenho.

A Biocarbo deu a largada para aproveitar esse potencial. Em 2001, faturou US$ 360 mil com a venda de produtos à base de alcatrão, no Brasil e nos Estados Unidos. Com a desaceleração da economia americana, no entanto, o faturamento neste ano deve ser menor. Segundo Maria Emília, a empresa prevê um cenário positivo em 2003, com a abertura de outros mercados no país, nos Estados Unidos e na Europa.

Um dos subprodutos do alcatrão é o extrato pirolenhoso, uma solução aquosa comercializada com o nome de Biopirol. Diluída em água e aproveitada em área agrícola, a solução funciona como um bio-estimulante em culturas como soja e café e na fruticultura (laranja, caqui, maracujá, etc). O extrato é uma ferramenta eficaz para a saúde e a boa produtividade das culturas orgânicas, sem a aplicação de agrotóxicos. Na cultura do feijão irrigado, o produto elimina a presença do fungo "fusarium", e na do café, controla a larva do "bicho mineiro", nesse caso sendo 40% mais barato do que os métodos convencionais.

As qualidades do Biopirol são conhecidas há décadas no Japão e foram difundidas no Brasil por imigrantes daquele país, reunidos especialmente na Associação de Produtores da Agricultura Natural (Apan), de São Paulo.

Na agricultura convencional, o Biopirol também tem se mostrado útil. "Pesquisadores têm observado que, com ele, é possível reduzir em até 50% o uso de agrotóxicos e de adubos químicos sem perda de eficiência", diz a engenheira química.

Correspondente de 15% a 25% do alcatrão, o extrato pirolenhoso vem sendo melhor estudado pela comunidade acadêmica, considerando a realidade brasileira. A Biocarbo tem parcerias com a Universidade Federal de Lavras (Ufla), a Escola Superior de Agricultura e Ciências de Machado (MG) e com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Jaboticabal (SP), esta firmada recentemente. A cidade de Bebedouro (SP), a capital da laranja no Brasil, o Biopirol, misturado a 50% da medida usual de agrotóxico, apresentou resultados bastante satisfatórios em teste de campo. "Trabalhos como esse irão fundamentar cientificamente o produto", explica Maria Emília.

Outra aplicação positiva do alcatrão é a produção de óleos que garantem aromas simuladores de defumação. "Essa técnica elimina produtos cancerígenos comuns na defumação natural, sem perda de sabor, com melhor apresentação e a uma velocidade de produção compatível com os novos sistemas da moderna indústria de alimentos", diz a dirigente da Biocarbo. Assim, a empresa já exportou o produto para os Estados Unidos, onde foi empregado para simular a defumação de salgados, embutidos e carnes.

Um terceiro produto é o "Biobiche", utilizado como liga de massa refratária em fornos de indústrias siderúrgicas. As 35 toneladas produzidas são destinadas a uma empresa especializada nesse tipo de massa. "Se as características do material forem melhor trabalhadas, poderemos substituir o piche mineral e abrir um grande mercado", afirma. De largo emprego na produção de refratários, de eletrodos e vedantes, o piche mineral está com demanda crescente e, a produção, estagnada pela queda na produção de coque em nível mundial.

Outros produtos também são fabricados ou pesquisados pela Biocarbo, que conta com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). A empresa mostra que, com criatividade e perseverança, é possível que o país aproveite melhor as suas potencialidades. (Minas faz ciência)

fonte: Brasília, 16 (Agência Brasil - ABr) - Radiobrás


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