Portugueses estão a consumir mais biológico

Em 2009 o valor de venda de produtos biológicos em Portugal terá rondado os 10 milhões de euros. A garantia é do presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (AGROBIO) que afiança que o consumo de produtos provenientes desta prática tem vindo a aumentar no nosso país. Jaime Ferreira fala das dificuldades que o sector atravessa, das vantagens deste tipo de agricultura e lamenta que a aposta do Estado português nesta área fique «muito aquém do desejável».
Ana Clara | sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Jaime Ferreira começa por explicar ao Café Portugal que a agricultura convencional enfrenta «sérios problemas» para além de ser poluente, produzir alimentos com resíduos perigosos para a saúde e ser «altamente» dependente do petróleo. Não é ambientalmente e socialmente sustentável».

Tendo em conta que Portugal importa 70% dos alimentos que consome, o responsável defende que «devemos apostar na produção e consumo local. O Governo deve apostar numa nova agricultura, a biológica, que gera bens de alto valor». Jaime Ferreira lamenta que a aposta na agricultura biológica por parte do Estado esteja «muito aquém do desejável».

Em termos de custos directos, o responsável da AGROBIO reconhece que a agricultura biológica pode ser mais cara, sobretudo na fase inicial do projecto, que exige mais investimento. No entanto, os custos «tendem a diminuir com o desenvolvimento da exploração em modo de produção biológico, devido à não incorporação de pesticidas e adubos químicos de síntese altamente dependentes do custo do petróleo».

Acrescenta que «é preciso não esquecer que a agricultura convencional não incorpora no preço dos seus produtos os custos com a poluição gerada e os danos na saúde humana. Estes custos são pagos por todos nós», salienta.

Questionado sobre a procura dos portugueses no que respeita ao consumo de produtos biológicos, Jaime Ferreira revela que as pessoas «estão cada vez mais atentas ao valor de consumir produtos biológicos. O consumo tem vindo a aumentar. Embora não haja valores estatísticos, temos conhecimento deste incremento pela organização dos mercados ao longo do País», afirma, dizendo que no ano passado, «o valor de venda de produtos biológicos em Portugal pode ter atingido os 10 milhões de euros».

«Os portugueses estão cada vez mais convencidos dos benefícios destes produtos na saúde e no ambiente», realça.

A exigência da sustentabilidade
Sobre o futuro da agricultura biológica em Portugal, Jaime Ferreira considera que o mesmo «é promissor», realçando que a política agrícola «vai exigir cada vez mais sustentabilidade e responsabilidade social e ambiental à actividade agrícola». «E claramente é a agricultura biológica que está mais próxima dessas exigências», sustenta.

«A dependência da agricultura convencional dos combustíveis fósseis (petróleo) não é sustentável, e também aqui a agricultura biológica é mais eficiente e sustentável», sublinha.

Num futuro próximo, «o elevado preço da energia vai colocar em causa muitas formas de produção e distribuição de alimentos. Será insustentável estarmos a consumir uvas da África do Sul e maçãs do Chile».

Além disso, revela que «a produção local vai tornar-se mais acessível e assim, mais uma vez a agricultura biológica está na linha da frente para assumir este papel».

Sobre a forma como tem evoluído a promoção deste tipo de agricultura em Portugal, o presidente da AGROBIO refere que desde a constituição da associação, em 1985, quando surgem os primeiros agricultores atentos ao biológico, este modo de produção nunca parou de crescer. «Hoje temos 1949 operadores numa área próximo aos 230 mil hectares [6,6% da área agrícola (2007); média europeia: 4,5%]».

«As pastagens e o olival ocupam maiores áreas em modo de produção biológico. Na pecuária, o gado ovino é o mais representado seguido do bovino. Em termos de mercado nacional e, embora não existam dados disponíveis, podemos dizer que a procura é crescente e maior que a oferta, sendo sobretudo verdade nas frutas e legumes», explica.

Estes produtos, realça, podem ser encontrados «na rede crescente de mercados de rua implementados pela AGROBIO, em lojas específicas e grandes superfícies».

Vantagens:
A verdade é que os produtos biológicos são mais saudáveis, seguros e saborosos. De acordo com a AGROBIO, os alimentos biológicos têm níveis mais elevados de vitaminas e de minerais essenciais(como o cálcio, o magnésio, o ferro e o crómio), de hidratos de carbono e de proteínas; mais antioxidantes que ajudam a prevenir o cancro; não contêm aditivos alimentares que agravam problemas de saúde como as doenças de coração, a osteoporose ou as simples dores de cabeça.

Além disso são produtos que não usam pesticidas sintéticos, herbicidas e fertilizantes químicos, hormonas de crescimento ou antibióticos, que originam alergias, asma e outras doenças.

Jaime Ferreira sublinha que estes produtos são, pois, «seguros, pela forma como são produzidos». «É a terra que é mais sã e se torna mais equilibrada, porque é fertilizada com matéria orgânica. Os produtos da agricultura biológica sabem melhor. Neles reencontramos sabores que pareciam perdidos, verdadeiramente produzidos pela natureza», argumenta.

Criada há 25 anos, a AGROBIO tem 5300 associados, entre produtores, transformadores, técnicos e consumidores. É uma instituição de utilidade pública e constitui uma Organização Não-Governamental de Ambiente, sendo que a sua missão principal é promover e desenvolver a Agricultura Biológica. «Em Portugal é a entidade com mais experiência em Agricultura Biológica», afiança Jaime Ferreira.

A AGROBIO promove várias actividades no país, desde o apoio técnico e comercial aos agricultores, desenvolve a formação profissional em agricultura biológica para técnicos, agricultores e consumidores, promove e desenvolve os mercados biológicos de rua: Lisboa, Oeiras, Cascais, Aveiro, Matosinhos e divulga as chamadas «hortas biológicas» que estão a nascer nos núcleos urbanos.

Actualmente a AGROBIO tem ainda em curso dois projectos no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural (PRODER) : um de promoção e divulgação dos produtos biológicos e outro relacionado com a experimentação e desenvolvimento para a introdução da cultura do arroz em modo de produção biológico nos estuários do Tejo e Sado.

Fonte: http://www.cafeportugal.net/pages/dossier_artigo.aspx?id=2785

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