Consciência sustentável: conheça Juca, um dos primeiros produtores orgânicos de Porto Alegre

“Uma informaçãozinha, só”. Aurélio se aproxima do portão de madeira. “Tu que é o Juca?”, pergunta. “Te vi na televisão no final do ano passado. Eu queria começar a produzir orgânicos, só preciso de uma informaçãozinha”.

Juca é Eliseu da Silva Rosa. Ganhou o apelido na infância, não porque houvesse qualquer relação com seu nome. “Eu caia com a minha própria sombra”, lembra bem humorado. Os amigos começaram: “Ô, seu juca”, “Juquinha”, “Ele é muito juca”. Assumiu-se Juca. “Minha mãe que detestava, mas eu até gosto do apelido”.

Juca é agricultor. Há 20 anos trabalha exclusivamente com a produção orgânica. Sozinho, capina, semeia, planta, molha, cuida. “Graças a Deus. Eu gosto, ainda não achei ninguém que goste tanto quanto eu pra fazer esse trabalho também”.

No verão, chega a trabalhar até 14 horas por dia. No resto do ano, a média fica em torno de 10. “Não é que eu fique tanto tempo capinando. Esse é o tempo que tu tem pra te dedicar, pensar no que a tua horta precisa”. Juca planta alfaces, tomates, cebolas, abobrinhas, berinjelas; a lista é grande. “Mais fácil dizer o que não tem”. Tudo sem adição de qualquer produto químico. “É água, sol e adubo orgânico”, resume.

Juca nos leva até o pequeno galpão encoberto por lonas onde ficam seus tonéis com compostagem. Logo na entrada, o primeiro acumula o composto  de alimentos não consumidos na feira da semana anterior. Os últimos e maiores armazenam o biofertilizante em si. Ele abre a caçamba e pega um punhado na mão e abre um sorriso: “Pronto pra jogar no solo”. Há cerca de 15 anos, Juca aderiu à técnica de fertilização 100% vegetal. Antes, 

comprava esterco. “Não tinha motivo. Uma pena ter demorado tanto pra que eu percebesse que o que me ensinaram não era verdade absoluta”.

Vamos para o lado de fora do galpão. “Essa planta aqui tá praticamente em extinção; o tucum”. Em tom preciosista, ele descreve como encontrou a muda por acidente e decidiu plantá-la, sem saber ao certo o que seria. “Demorou 10 anos pra dar fruto”, afirma, orgulhoso. Atrelado ao caule, pode-se ver um cacho verde com espinhos. Nesse estágio, pode ser aberto para o consumo do líquido que se forma no interior – algo parecido com água de coco. No entanto, quando a planta está madura, ocorre uma metamorfose. O fruto espinhento transforma-se em pequenas esferas roxas e doces. “Eu vejo muita gente com pressa, pressa pra que nasça logo, pra que colha logo. Mas a gente tem que respeitar. Respeitar o tempo”, reflete.

Até 1997, Juca conta que era conhecido pela frase “passado não tem futuro”. Naquelee ano, porém, uma pesquisa realizada pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS) em parceria com a Prefeitura de Porto Alegre divulgou resultados que reconheciam a região do Lami, no extremo-sul da capital, como região de grande potencial para a produção de orgânicos. Juca e outros produtores dessa área passaram por consultoria com a Emater e, segundo ele, sua propriedade foi a primeira a aderir à mudança – o que o tornaria o primeiro produtor orgânico de Porto Alegre.

“Naquela época, eu produzia só moranguinho. Só que morango é a fruta que mais precisa e absorve agrotóxicos. Eu fedia. Minha mulher me fazia tirar as roupas antes de entrar em casa, senão ela tinha ataques de asma”, recorda. Foram dois anos de adaptação, com a consultoria de botânicos e engenheiros agrônomos. O chamaram de louco, de idiota; chegaram até a sugerir possível conspiração política por trás da mudança. “Foi a consciência que me fez persistir, saber que é melhor pra mim, pra terra, pra minha família e pra quem vem depois”. Assim, Juca motivou outros produtores – os quais montaram a Associação de Produtores Ecológicos do Lami, para conseguir espaço nas feiras da cidade. “Quando a criança é bonita todo mundo quer saber quem é o pai, né”.

Juca vende sua colheita na banca n˚6 da feira da José Bonifácio, todo sábado. Para ele, é terapêutico; o contraste entre a semana de trabalho solitário e a interação com o consumidor. “É meu descanso e, também, como eu sei se estou fazendo um bom trabalho ou não”. Ao longo desses 20 anos, Juca afirma ter tido direito a diversos selos de produção, mas que recusou todos. “Meu selo é a minha cara”.

O final da plantação de alface é ligado ao resto do pomar por um caminho de terra estreito. Juca pega sua enxada, coloca no ombro e equilibra seu peso de forma que cruza a trilha com uma passo largo. Ele ri. “O camarada que carrega a enxada na mão não sabe o que tá fazendo”. Ele está embaixo de uma tamareira. “Essa meu filho trouxe e não sabíamos o que era. Plantei, esperei, e deu tâmaras”.

Ao redor dela, outras 80 árvores compõem um quebra-cabeças peculiar. São mais de 40 espécies de plantas nativas do Rio Grande do Sul que Juca preserva como peças de um museu. Umbu, capororoca, urucum, pitanga e murtilho estão entre as plantas cuidadosamente mapeadas e catalogadas. Menos o número 44, que classifica as mudas desconhecidas. “Só que sem essa de colocar plaquinha, planta não tem que ter plaquinha”, avisa. Juca começou esse ‘acervo’ após perceber o vazio de árvores frutíferas em Porto Alegre. “Tudo o que eu sei é prático, da vivência, do aprendizado. E eu sei que tem criança que precisa saber de onde vem a pitanguinha antes de comprar no mercado”.

A consciência ecológica é percebida em cada hectare de terra do sítio de Juca. O pequeno galinheiro tem cerca de recipientes de plástico cheios de cimento; o galpão onde organiza visitações tem paredes de garrafas pet; a cozinha semi-industrial onde fazem compotas foi erguida utilizando sobras de construções da cidade (como metais das obras do Túnel da Conceição).

Pergunto se ele não pensa em levar esses projetos para fora de sua propriedade. “A questão é que eu não gosto de projeto”, responde. “Projeto te prende, te limita. Te faz sempre ter que te reportar pra alguém e perguntar se pode ou não. Eu gosto da minha liberdade”.

E, segundo Juca, liberdade é poder acordar de manhã e trabalhar sem sapatos, sem camisa. É ver uma muda desconhecida florescendo e descobrir qual será o fruto. É ficar na roça até as cinco da tarde, quando os gritos da filha o chamam para tomar um café com leite. E poder fazer tudo no dia seguinte. “Se perguntarem pelo Juca, é o primeiro a sair do mato”.

Fonte: Sul21 em 22-10-2017

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