Ao fazer plantio direto me chamaram de louco

plantioO agricultor Franke Dijkstra, 77, um holandês nato, desde pequeno residente no Brasil, tornou-se um ícone da agricultura brasileira a partir de meados dos anos 1970, junto com Herbert Bartz e Nonô Pereira, quando inovaram e revolucionaram ao fazer plantio de soja e milho na palha, sistema conhecido hoje como plantio direto. Nesta entrevista para Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, Dijkstra revela de forma direta os objetivos e as dificuldades enfrentadas naquela época, além de opinar sobre outras questões do agronegócio. Adepto de esportes náuticos, Dijkstra gosta de velejar, aprecia futebol, e torce pela seleção brasileira, mas não tem um time do coração. Foi diretor da Batavo por 12 anos, de 1994 a 2006 com intensa atividade no cooperativismo. Hoje, aposentado, e com os filhos cuidando das atividades a que deu início, Dijkstra tem como paixão da vida, além da família, a agricultura e, em especial, o plantio direto, assuntos sobre os quais ele se dispõe a falar durante horas sem se cansar. Para ele, não se faz nada bem-feito na vida sem conhecimento e paixão.

Agro DBO – São 43 anos de plantio direto. Como foi esse aprendizado? 
Franke Dijkstra – Foi a salvação da minha atividade, senão terminava tudo, era como uma espécie de matar ou morrer, tínhamos de correr o risco, não havia opção. Mas me chamaram de louco. Demorou para acreditarem na palha.

Agro DBO – Por que isso, a erosão era o único problema? 
Franke Dijkstra – Claro, a erosão estava tomando conta da nossa terra. Sabíamos que tínhamos de mudar. A erosão evoluiu em função da desestruturação do solo. O solo estava degradado, em 9 anos de plantio na minha fazenda, na época com 70 hectares, em que a gente tinha terras cada vez mais fracas pela erosão.

Agro DBO – Sua área de plantio, depois disso, cresceu? 
Franke Dijkstra – Hoje estou aposentado, mas entre as terras que meus filhos tocam, mais o genro, temos perto de 2 mil hectares em Carambeí, PR, e na região, tudo em plantio direto, onde plantamos soja, milho, trigo, por vezes cevada, além de várias forrageiras para alimentar o gado leiteiro que a gente cria.

Agro DBO – No início não tinha máquinas para plantar e semear. Como foi isso? 
Franke Dijkstra – Não tínhamos nada, saímos do zero, primeiro criamos e adaptamos máquinas na fazenda, dentro do que a gente precisava, fomos inventando e melhorando. Mas isso foi só no primeiro ano, depois disso, no segundo ano a Semeato se interessou e passou a desenvolver uma semeadeira-plantadeira, e a gente acompanhou tudo. Resultou em uma máquina que tinha os discos ondulados, cortava a palha e colocava as sementes em seguida.

Agro DBO – Como foi essa descoberta da palha para segurar a erosão, o que foi que lhe acendeu essa luz? 
Franke Dijkstra – Foi a necessidade imperiosa de conter a erosão, e esse problema os americanos também tinham, ouvimos falar, fomos lá olhar, e encontramos na palha um paliativo e depois demos soluções definitivas.

Agro DBO – E como o senhor vê o plantio direto hoje no Brasil? 
Franke Dijkstra – Está avançando muito rápido. Acredito que a safrinha é que impulsionou esse avanço, foi uma das razões mais fortes, no meu entendimento. Porque não tinha como a gente preparar a primeira terra para fazer safrinha, e com isso se observou que as plantas continuavam a crescer na palha, e até melhor, o que fez a cabeça de muitos agricultores para adotar o plantio direto. O que facilitou também é que o agricultor brasileiro não tinha uma tradição antiga, como os americanos, de 4 ou 5 gerações, que sempre preparavam o solo com arado e grade. É uma loucura mudar um sistema tradicional arraigado. Para eles, contrariar a lógica assusta, eles fazem o preparo do solo antes do inverno, e depois precisam do calor na terra para haver a germinação. Isso faz com que eles tenham uma necessidade maior de mexer na terra do que aqui no Brasil, onde não temos a necessidade de arar e gradear o solo para quebrar o congelamento do solo que ocorre no inverno. Vi isso agora, recentemente na República Tcheca, onde eles desenvolveram equipamentos para mexer na terra de 5 a 10 cm de profundidade para permitir misturar bem a palha e poder aquecer o solo na primavera para plantar e ter a temperatura ideal para a germinação.

Agro DBO – Como está o plantio direto no Brasil, comparado a americanos e europeus? 
Franke Dijkstra – Quem tem paixão pelo assunto e quer fazer bem- -feito, vai para toda parte para ver, aprender e melhorar o que faz. Vi lá, recentemente, solos com grandes problemas de compactação e eles fazem máquinas com 12 até 36 metros, com terraços permanentes, trabalham sempre nas mesmas linhas, para evitar a compactação. Isso facilitou o uso do GPS.

Agro DBO – Mas nós estamos muito mais avançados do que eles em plantio direto. 
Franke Dijkstra – Concordo, mesmo nos EUA, nós estamos muito mais avançados do que eles. Ouvi em palestras por lá, de gente que conhece o sistema, em que eles dizem que “temos de aprender com o Brasil, porque lá eles sabem fazer plantio direto”, em função das rotações de culturas e também de culturas de inverno. No sul dos EUA, o plantio direto vai bem; no Kentucky também, apesar de o inverno deles ser mais rigoroso do que o nosso aqui no sul do Brasil. Estive lá, com o Nonô e o Bartz, faz uns 3 anos, quando os americanos completaram 50 anos de plantio direto. Fomos oferecer para a Universidade de Lexington um busto do Faulkner, que foi o pioneiro e que nos ensinou o abc do plantio direto. Eles entendem que superamos os mestres, porque o clima aqui nos ajuda muito.

Agro DBO – E o ‘seo’ Nonô já se foi… Já o Bartz é brasileiro, mas tem um sotaque de alemão muito forte, enquanto o senhor é holandês e nem tem sotaque… 
Franke Dijkstra – (risos) É verdade… Bartz não planta mais nada, agora são os filhos. Eu mesmo estou aposentado e meus filhos tocam o negócio. Transformamos a propriedade numa holding, os filhos arrendam uma parte, o genro uma outra parte, um mexe com máquinas o outro com gado, e os netos futuramente podem arrendar uma parte, ou não, aquele que quiser sair da sociedade os outros podem comprar, tudo isso para não dividir a propriedade. A história mostra que nos EUA tem produtor que chega a arrendar 50 pequenas propriedades para poder plantar em área de bom tamanho, porque esses pequenos não viabilizam mais a propriedade como negócio de plantio, eles ganham mais com o arrendamento do que com o plantio, tudo isso em função da dificuldade de adotar tecnologias em áreas pequenas. Por exemplo, fica quase impossível uma propriedade com 50 hectares poder comprar uma colheitadeira. Se não tiver tecnologia é como jogar dinheiro fora.

Agro DBO – O que o brasileiro faz de errado hoje no plantio direto? 
Franke Dijkstra – Falta entrar no sistema de produção, fazendo rotação de cultura. É muita monocultura ainda. Só se faz sucessão, de soja e milho. Mas tem gente que só planta soja, e aí é pior. Tem compactação de solo por baixo da palha, mas esse não é o maior problema, o pior é não ter palha, o que permite a erosão pela água.

Agro DBO – O preço da terra no Brasil hoje está praticamente igual ao do primeiro mundo. 
Franke Dijkstra – É verdade, o preço da terra em Campos Gerais (PR) está igual lá fora no Corn Belt, aqui estão falando em R$ 200 mil por alqueire (= R$ 80 mil por ha). É algo fora de qualquer bom senso.

Agro DBO – O que falta evoluir no plantio direto? 
Franke Dijkstra – A capacidade de evoluir está entre as orelhas… Já temos bastante informação, é lógico que sempre tem como avançar mais, dá para melhorar sempre. A agricultura é uma coisa dinâmica, muda todo ano, nunca é igual. Novas doenças surgem, novos problemas, tem que acompanhar e atualizar ou se fica para trás.

Agro DBO – Qual a sua produtividade média em soja hoje? 
Franke Dijkstra – Em média 4.700 kg por ha (78 sc/ha).

Agro DBO – E no milho? 
Franke Dijkstra – Estamos com 15.300 kg por ha, na safrinha.

Agro DBO – No concurso de produtividade do CESB este ano o ganhador atingiu 120 sc/ha, e ano passado de 149 sc/ha. Mas os 10 primeiros lugares tinham produtividades superiores a 100 sc/ha. É possível chegar nisso? 
Franke Dijkstra – Agricultura é dinâmica. Todo ano é diferente, e é sempre um aprendizado. Este ano, as nossas melhores áreas, as mais planas, tiveram produtividade inferior às das áreas que sempre apresentam baixa produtividade, que é terra arenosa e fraca. Tem a ver com vento, chuvas em demasia, e isso a agricultura de precisão não explica, a gente tem de interpretar as causas. Acho que tivemos excesso de água, e encharcou as raízes. As plantas sabem se defender quando há pouca chuva, elas vão buscar água, mas não sabem se proteger quando há excesso. Eu prefiro menos chuva.

Agro DBO – No início da soja, anos 1970, o produtor plantava em outubro e ia para a praia, voltava em fevereiro para colher, não havia inimigos invasores. Hoje temos de tudo, nematoides, lagartas, insetos de todos os tipos, doenças. O que estamos fazendo de errado? 
Franke Dijkstra – Bom, o nematoide se resolve com rotação de cultura e matéria orgânica, isso acaba com os problemas de solo. Agora, a ferrugem da China está ligada ao clima, tem de monitorar, essa ferramenta é fundamental; a mesma coisa com insetos, monitorar e ser rápido na decisão. Hoje em dia tem de ter conhecimento, usar tecnologia, caso contrário não se faz agricultura.

Agro DBO – Antigamente se dizia “meu filho, vai estudar, senão você tem de ficar na roça”. Hoje se diz “meu filho, estuda pra arrumar trabalho e renda na roça”. Mudou, não é? 
Franke Dijkstra – É verdade. Uma vez um vizinho foi pra praia e deixou o cunhado dele pra cuidar da soja. O cunhado tinha cerveja na geladeira, abusou dela, e esqueceu-se do resto. Um vizinho avisou “as lagartas já estão no vizinho, estão pedindo carona na beira da estrada”, mas ele não deu bola. Perdeu quase tudo. Na época eu tinha um plantio de milho nas bordas, nem pulverizei, tinha rotação de cultura, e as lagartas da soja não se adaptaram ao novo microclima, e não vingou o ataque das lagartas, porque o microclima era outro. Normalmente, quando está seco, o ataque das lagartas é severo. A lagarta avança na pobreza. Quando a planta está sadia ela resiste melhor aos ataques dos inimigos. E planta bem alimentada se defende melhor ainda. Esse equilíbrio é fundamental.

Agro DBO – Tem uma nova linguagem hoje, a agricultura orgânica. Dá para fazer agricultura orgânica em grãos? 
Franke Dijkstra – Dá, não é? Só que vai comprometer o solo. O nosso solo não resiste, é muito frágil. O maior pesticida para as nossas lavouras ainda é o arado, que é um predador do solo. Na economia de escala é impossível. Um ataque de lagartas, num ambiente seco, não se faz controle organicamente disso, só se tiver chuva forte, e tem de ter muito inimigo natural.

Agro DBO – Qual a seria a opção? 
Franke Dijkstra – A sociedade humana no ambiente urbano tem de fazer escolhas, pode escolher morrer intoxicado aos 90 anos, ou morrer de fome aos 40. Não há opção. Vai faltar comida, ninguém faz milagre. Hoje temos pelo mundo afora falta de área para plantar.

Agro DBO – Portanto, temos de melhorar o que se faz na agricultura. Qual o combustível para isso? 
Franke Dijkstra – Ou se faz isso por dinheiro, para ganhar, ou pela paixão pela agricultura. Ainda acho que o melhor insumo é a paixão pela atividade, para fazer a coisa andar tem de gostar. E tem de dividir com os outros, com os vizinhos, os amigos, sozinhos não fazemos nada. O Nonô já se foi, mas ele sempre dizia um ditado holandês: “ninguém é insubstituível. E os cemitérios estão cheios de insubstituíveis”.

*Matéria originalmente publicada na edição 102 da revista Agro DBO. 

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