Paulista quer produto certificado

Estudo realizado pelo Imazon, Imaflora e Amigos da Terra mostra que a maior parte da madeira amazônica que vai para São Paulo é utilizada na estrutura de telhados de casas

Ao contrário do que se imagina, o interesse por produtos florestais certificados da Amazônia não vem apenas do exterior, onde é cada vez maior a pressão de organizações não-governamentais, governos e empresas contra o uso de madeira extraída de forma predatória ou ilegal. O Estado de São Paulo, o maior consumidor mundial da madeira extraída da região amazônica, tem uma demanda potencial para a madeira certificada de 1,2 milhão de metros cúbicos em tora, o que significa em torno de 20% dos 6,1 milhões de metros cúbicos de madeira em tora amazônica que o Estado consumiu ano passado. Esse é um dos principais aspectos mostrados no livro "Acertando o Alvo 2: Consumo de madeira amazônica no Estado de São Paulo e potencial para certificação florestal", que está sendo lançado em parceria pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), pelo Amigos da Terra - Amazônia Brasileira e pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), com apoio da Agência Alemã de Cooperação Técnica (GTZ) e da Embaixada do Reino dos Países Baixos.

O estudo feito pelos pesquisadores Leonardo Sobral, Adalberto Veríssimo, Eirivelthon Lima, Tasso Azevedo e Roberto Smeraldi revela que cerca de 6% dos proprietários das indústrias paulistas de produtos de madeira entrevistados revelaram que já existe pressão de clientes no Brasil por madeira certificada. E que empresas do setor de pisos e esquadrias já estão vendendo produtos certificados. Quatro delas estão associadas ao Grupo de Compradores de Produtos Florestais Certificados. O livro alerta que as crescentes pressões ambientais podem diminuir a oferta da madeira amazônica no mercado paulista. "Diante desse fato, citamos a certificação florestal como uma ferramenta eficaz para garantir o suprimento de madeira a longo prazo", afirmam os pesquisadores.

São Paulo foi escolhido para o levantamento, realizado ano passado, porque é o estado que mais consome madeira tropical - 20% do consumo nacional de madeira amazônica. Os 6,1 milhões de m3 de madeira em tora dos paulistas em 2001 superam o consumo de países europeus como França, Itália, Holanda e Espanha. Ao contrário também do que muita gente pensa, apenas 14% da madeira amazônica é exportada. A grande maioria (86%) é consumida no próprio Brasil.

Os consumidores - Os pesquisadores procuraram caracterizar inicialmente os depósitos de revenda de madeira no Estado, entrevistando 861 dessas revendas em 114 municípios. Depois foram analisadas as indústrias de produtos de madeira, como móveis, pisos, esquadrias e casas pré-fabricadas, com entrevistas em 119 empresas. O estudo foi completado pelo setor de construção civil vertical no município de São Paulo, por concentrar a grande maioria deste tipo de construção, com entrevistas em oito grandes incorporadoras e 15 prestadoras de serviços, que respondem por 25% da área total construída na capital paulista.

Os 2.000 depósitos de madeira existentes em São Paulo respondem por 69% da comercialização da madeira, vindo depois as indústrias de produtos de madeira (21%) e a construção vertical (10%). As estruturas de telhados de casas recebem a maior parte (42%) da madeira amazônica que é destinada ao consumidor final através desses três setores. Depois aparecem andaimes e fôrmas para concreto (28%), móveis populares (15%), os forros, pisos e esquadrias (11%), casas pré-fabricadas de madeira (3%) e móveis finos e peças de decoração (1%). Os depósitos de madeira pesquisados no estudo são estabelecimentos comerciais que vendem madeira serrada no varejo. Em 2001 esses depósitos comercializaram em torno de 1,5 milhão de m3 de madeira serrada. Em geral seus proprietários compram a madeira diretamente nas serrarias localizadas na Amazônia. O principal de seus fornecedores é o Estado de Mato Grosso (60%), seguido pelo Pará (22%) e por Rondônia (15%).

Os donos desses depósitos manifestaram apreensão quanto ao suprimento futuro de madeira amazônica. "Eles acreditam que as pressões ambientais, a escassez de manejo florestal e o caráter ilegal associado à madeira amazônica podem criar sérios obstáculos ao comércio de madeira da região. Para cerca de 64% dos entrevistados, isso pode resultar em um aumento na participação de madeira de reflorestamento. Apenas 36% dos entrevistados indicaram um crescimento na participação da madeira amazônica nesse mercado", afirmam os pesquisadores.

A maioria desses comerciantes acredita que a madeira deverá ser parcialmente substituída por produtos como forros de PVC, esquadrias de alumínio e pisos de cerâmica. Eles acham que isso deverá ocorrer, entre outras coisas, por causa do menor preço desses materiais, rapidez na entrega e dimensões específicas. Mas 46% deles revelaram que a madeira deve permanecer no mercado em função da sua durabilidade, da sua tradição e de seu maior apelo estético.

Outro dado colhido junto aos donos de depósitos: pelo menos 80% deles nunca ouviram falar sobre certificação florestal, confundindo com selos e carimbos emitidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). "Entretanto, após breve explanação sobre o conceito, a maioria (60%) dos entrevistados revelou interesse em conhecer mais sobre certificação e, eventualmente, testar a venda de madeira certificada em seus estabelecimentos, se isso não acarretar um sobrepreço no valor da aquisição da madeira. Por outro lado, cerca de 40% afirmaram não ter nenhum interesse por madeira certificada", diz o livro.

Indústrias - As 600 indústrias de produtos de madeira da Amazônia existentes no Estado de São Paulo consumiram 457 mil m3 de madeira serrada em 2001. Nos últimos cinco anos, 52% dessas indústrias mantiveram constante a proporção de consumo de madeira amazônica, enquanto 36% reduziram o seu uso. E apenas 12% aumentaram o consumo. As indústrias de pisos e esquadrias buscam 99% da madeira que utilizam na região amazônica. Em relação às indústrias de casas pré-fabricadas, esse percentual é de 98%.

A durabilidade, resistência, diversidade de cores e beleza são critérios apontados pelas indústrias que mantiveram ou aumentaram o consumo de madeira amazônica. Já as empresas que reduziram seu consumo apontam três motivos para que isso ocorresse: a dificuldade de obtenção de madeira com qualidade, as pressões ambientais contra a exploração predatória de madeira na Amazônia e o fato das madeiras de reflorestamento apresentarem boa relação custo/benefício quando comparadas às madeiras amazônicas. Quanto à certificação florestal, 58% das indústrias de produtos de madeira garantiram estar interessadas em adquirir madeira certificada, com destaque maior para os segmentos de pisos, esquadrias e móveis de luxo. Muitas foram as razões apontadas para esse interesse, como o fato de que a certificação pode garantir um fornecimento duradouro de madeira, dar a garantia de legalidade da origem da madeira e melhorar a imagem ambiental da empresa, o tal "marketing ecológico", que pode resultar em aumento de vendas, com a conquista de novos mercados.

A falta de informação é apontada pela maioria desses empresários como o principal obstáculo para um maior interesse em adquirir madeira certificada. Os pesquisadores destacam que a maioria deles acredita que o custo para a certificação da cadeia de custódia de uma indústria fica acima de R$ 100 mil, quando na verdade na maioria dos casos o valor fica abaixo de R$ 10 mil. E uma parte (27%) acredita que a madeira certificada é mais cara e que esse poderia ser um fator limitante para o uso de produtos certificados.

Construção - No setor da construção civil vertical paulista a madeira amazônica é largamente utilizada em produtos como formas e andaimes e, em menor proporção, em produtos beneficiados como portas, janelas e pisos. Os pesquisadores levantaram a informação de que a cidade de São Paulo construiu cerca de seis milhões de metros quadrados de edificações verticais em 2000, sendo consumidos nelas cerca de 225 mil m3 de madeira serrada originária da Amazônia. Entre as grandes construtoras entrevistadas, 68% demonstraram interesse na certificação. O marketing ambiental é apontado pela maioria delas como o principal motivo para adquirir madeira certificada, vindo em seguida a garantia de fornecimento, a pressão ambiental e a melhor qualidade no produto.

O trabalho do Imazon, do Imaflora e do Amigos da Terra revela ainda que as incorporadoras e construtoras em operação em São Paulo manifestaram insatisfação com a qualidade da madeira da região amazônica. E citam como exemplo as peças beneficiadas, que apresentam problemas de secagem inadequada e dimensões imprecisas. "Além disso, os fornecedores de madeira amazônica freqüentemente descumprem os prazos de entrega, o que acarreta prejuízos expressivos no cronograma das construtoras", acrescentam os autores da publicação.

Madeira manejada ainda representa pouco A certificação florestal é um processo de auditagem independente que usa critérios e indicadores previamente definidos para verificar se a floresta de determinada empresa está sendo manejada segundo os preceitos básicos do bom manejo. Para ser sustentável, o manejo deve ser economicamente viável, ecologicamente correto e socialmente justo. Os padrões para essa certificação no Brasil são definidos pelo Conselho de Manejo Florestal, o FSC na sigla em inglês, que tem sede no México e que pode credenciar outras ongs para a aplicação de seus padrões.

De acordo com os pesquisadores, os esforços para o desenvolvimento de um setor madeireiro social e ambientalmente responsável são recentes. "Até 1994, o manejo florestal era inexistente na Amazônia. Em 2001, a área manejada já era superior a um milhão de hectares, dos quais um terço correspondia às florestas certificadas de acordo com os padrões do FSC. Um avanço importante, porém ainda insuficiente, considerando que a madeira manejada ainda representa menos de 5% da produção regional".

Três são os motivos apontados pelos autores do trabalho para o aumento da área de manejo florestal na região. Um deles, a existência de uma enorme pressão da opinião pública, campanhas de ongs como o Greenpeace e atuação governamental mais rigorosa de setores como o Ministério Público e o Ibama. Outro motivo são as vantagens técnicas e econômicas do manejo florestal em relação à operação predatória, que estão ficando mais claras. E a existência de um mercado crescente para produtos florestais de origem certificada. E citam como exemplo o fato das madeireiras certificadas estarem obtendo melhores contratos de venda para os mercados da Europa e dos Estados Unidos e mesmo para o mercado interno, representado principalmente por São Paulo.

fonte: Jornal O Paraense – em 08/07/2002

 


Leia Mais:



Rede de Agricultura Sustentável
É um serviço de Cristiano Gomes e L&C Soluções Socioambientais

Siga-nos Twiiter rss Facebook Google+