Pasto ecológico derruba velhos vícios

 

Aumento de biodiversidade e da capacidade de suporte de forrageiras em um novo sistema que põe fim ao uso de queimadas e às periódicas reformas de pasto. A baixa nos custos de produção do gado --que, agora, pode ser produzido organicamente -- pode ser observada em unidade demonstrativa de pastagem ecológica. Desenvolvida na Quinta da Petita (bairro Pascoal Ramos em Cuiabá), em dezembro passado, o projeto está oferecendo uma pequena amostra do potencial de manejo que articula pastagem ecológica e sistema voisin. Usado, também, como estratégia de combate à depredação ambiental, a pastagem já conta com unidades demonstrativas em Guarantã do Norte e Juína.

Os experimentos fazem parte de parceria com a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Centro de Vida (ICV).

Os resultados já animaram o proprietário da unidade demonstrativa de Cuiabá, o advogado Valter Cavallaro, que irá trocar o gado de raça mista por nelore mocho. "Deixei de notar sintomas no gado que necessitassem da aplicação de vermífugos", aponta ele. O gerenciamento da unidade, porém, está nas mãos do engenheiro agrônomo Jurandir Melato, que, munido de planilha, acompanha o desenvolvimento do rebanho e da capacidade de suporte da pastagem.

Ele acrescenta que o novo sistema derruba uma série de vícios que até então mantinham o manejo tradicional: queimadas, reformas de pastagem, aplicação de adubos químicos etc. Além disso, as árvores são incluídas no manejo, o que atrai insetos e pássaros, aumentando a biodiversidade faunística.

"Com a vaca louca o mercado externo está se abrindo à pastagem ecológica que hoje é a única alternativa para se produzir o boi orgânico", explica o engenheiro agrônomo. A ausência de insumos químicos mantém a riqueza de vida do solo, como minhocas, cuja ingestão e excreção deixam o solo 2,5 vez mais rico em cálcio e magnésio. "A adubação, além de matar a vida do solo, acarreta a necessidade de mais adubo", resume Melato. O engenheiro agrônomo Jurandir Melato se incumbe de monitorar a movimentação do gado, catalogada, detalhadamente, em planilha. Até agora, já foram concluídas três delas contendo informações fundamentais sobre o ganho de peso do rebanho e capacidade de suporte da pastagem. Os 8 ha da unidade demonstrativa foram divididos em 38 piquetes.

Por meio da planilha, é possível definir o melhor horário de entrada e saída: o gado é levado à área de lazer, às 10 horas, permanecendo no local até as 14 horas. Ao todo, são 20 horas. A média de permanência nos piquete é de dois a três dias, quando o capim está suficientemente cortado e necessita de descanso para a rebrota. A próxima movimentação se dará, no outro dia, às 10 horas da manhã, novamente. Área de lazer é o local onde o rebanho tem disponível água, sombra e sal mineral.

"A definição do melhor horário de movimentação do gado foi resultado de um afinamento do manejo", observa Jurandir Melato. Apesar de trabalhoso -- já que exige constante atenção --, o manejo é simples e, em duas semanas, o caseiro do chácara já estava "prático". Mesmo em propriedade maiores, divididas em piquetes de 1 ha ou mais, o sistema não se modifica.

Por se tratar do método voisin, foi possível fazer a amostragem de cada piquete -- peso da forrageira e quantidade de suporte por cada hectare. "Isso permite calcular pelo tamanho do piquete a dosagem do lote", esclarece Jurandir Melato. Um boi come de 10 a 12% de seu peso vivo por dia. O sistema permite ao pecuarista definir até a altura do corte da forrageira.

"O gado come até onde você quer", explica Jurandir Melato. A novidade, agora, é o acompanhamento dos índices pluviométricos da região, que consta dos dados da planilha. Atualmente, os lotes contam com cerca 14 unidades animais --quatro bezerros equivalem a uma unidade (cerca de 450 quilos). A expectativa do engenheiro agrônomo é elevar a capacidade de suporte entre 20 e 25 unidades animais.

O município de Guarantã conta com quatro projetos de pastagem ecológica voltados à pequena propriedade. O secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente, Norival Batista dos Santos, pondera que o rodízio é fundamental na região, marcada por solos pobres. Ele estima que, no sistema tradicional, a capacidade de suporte dos pastos era de 1,2 cabeça por hectare; no atual, chega a três animais pela mesma unidade de área. A economia é baseada no extrativismo da madeira (40%), pecuária leiteira (40%) e 20% na agricultura

Grupo Gazeta em 05/06/2002


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