Revolução Orgânica em Uganda

 

Estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostrou que é possível ter até mais 80% de receitas com a agricultura orgânica, reduzindo custos. No Uganda, muitos agricultores já estão no caminho certo.

Se África quiser saciar a fome, os 900 milhões de agricultores no continente terão de aumentar significativamente as colheitas e reduzir drasticamente os custos de produção. A conclusão é do estudo realizado em 2010 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O Uganda é o segundo país no mundo com o maior número de produtores de orgânicos, depois da Índia.

Com a rotação de culturas e uso de fertilizantes naturais, o agricultor Vincent Ssoko obtém bons resultados no cultivo de bananas, ananases e café

O agricultor ugandês Vincent Ssoko, cuja fazenda localizada a três horas de carro da capital, Kampala, utiliza a técnica. Obter bons produtos da terra parece-lhe simples. Cavar um buraco que dê às plantas espaço suficiente para crescer e enchê-lo com estrume.”Mas eles [os vizinhos] não acreditam em mim. Compram adubo caro porque pensam que a colheita será melhor. Mas, no final, acaba por ser pior que a minha,” afirma Ssoko.

Método de cultivo é simples

O agricultor de 46 anos, pai de 13 filhos, sabe que a agricultura orgânica não é nenhuma ciência. Trata-se apenas da rotação de culturas e da utilização de fertilizantes naturais.

O uso de estrume de vacas, em vez de químicos caros, e de urina e cinzas, em vez de pesticidas, contra as pragas provocadas por insetos.

Esta receita já o levou longe. Em 1998, Ssoko começou num terreno do pai, com três hectares. Atualmente, cultiva produtos biológicos em 49 hectares.

Bananas, ananases e café – tudo “cash-crops”, frutos de exportação do Uganda, que se dão bem no clima quente e húmido. Daqui a algumas horas, chegará um caminhão de Kampala para recolher os ananases que serão transportados para a Alemanha. O agricultor recebe 0,20 euros por fruto. No mercado local, Ssoko receberia apenas 0,04 euros.

Oferta variada com distribuição planejada

Enquanto Ssoko embala os ananases para o transporte de avião, em Kampala, Judith Nabatanzi recolhe as ordens dos clientes para o serviço de entregas.

Judith Nabatanzi é a diretora da “Shop Organic” (ou “Compre Orgânico”, na tradução livre). A sua loja de produtos orgânicos é a única em todo o Uganda e oferece de vagens de baunilha a cenouras orgânicas, passando por cremes biológicos de jojoba para as mãos.

Primeiro, os agricultores dizem-lhe que produtos estarão disponíveis. Ela, então, envia a lista para seus clientes que escolhem e fazem os pedidos. A seguir, é feita uma guia de remessa e os produtos são distribuídos em cestos especiais através dum caminhão frigorífico.

“Sexta-feira é o dia mais movimentado da semana. A maioria dos nossos clientes quer cozinhar no fim de semana, assim temos que embalar 40 cestas ou mais. É o nosso dia de mais trabalho e é um grande desafio para nós,” comenta.

Mercadorias tipo exportação

Produtos orgânicos chegam a render aos agricultores entre 30% e 50% a mais que os alimentos convencionais

Da fazenda, localizada a cerca de 32 quilómetros a oeste de Kampala, a entrega é feita uma vez por semana desde 2007.

Para ele, o negócio oferece diversas vantagens. “O preço aqui é bom, melhor do que o dos produtos convencionais. Em relação à fertilidade do solo: produzimos mais e por um período mais longo com investimentos menores. Recebo cerca de 30% a mais, às vezes até mesmo 50%.”

Entre os clientes de Judith Nabatanzi está um grupo de cinco diplomatas sudaneses interessados, sobretudo, nas vagens de baunilha organicamente cultivadas. Descontos por quantidade são negociados.

Além dos “expatriados”, estrangeiros e diplomatas no Uganda, ultimamente cada vez mais membros da classe média em expansão no país se interessam pelo negócio, explica Judith Nabatanzi: “Eles preferem vir pessoalmente. Alguns fazem as encomendas antes, por telefone, e depois buscam pessoalmente as mercadorias. Fico feliz que eles também entrem no negócio. Para mim, a explicação é que eles se preocupam com o que comem,” diz.

Certificação internacional tem alto custo

Mas para Ssozi Muwangwa, no entanto, uma preocupação permanece. O processo de certificação para os agricultores orgânicos é realmente muito caro. Apesar disso, ele conta que teve sorte. “NOGAMU, a associação-mãe dos agricultores biológicos ugandeses, me ajudou a arcar com os custos”, afirma.

O director da NOGAMU, Moses Muwanga, diz que aos cerca de 1,2 milhão de pequenos agricultores que cultivam produtos orgânicos interessam, especialmente, as explicações sobre o processo de licenciamento.

“Nossa preocupação é que mais desses agricultores recebam uma certificação internacional, para que possam vender tanto para o mercado interno, como também exportar,” revela.

O processo de certificação é lento e por isso se torna também muito caro. “Entre quatro e oito mil dólares custam as visitas dos inspectores e 16 mil dólares são gastos na adaptação da agricultura do convencional para a orgânica. Estamos falando de um total de cerca de 24 mil dólares,” contabiliza Muwangwa os custos por fazenda.

Esforços recompensados pelo lucro

O agricultor de tomates Ssozi Muwanga sabe que seu esforço vale a pena. Não só os preços dos produtos sobem, como a produtividade do solo também aumenta. Na África, a agricultura biológica traz, realmente, um significativo aumento de produtividade consigo, como postula o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O diretor da NOGAMU, a associação-mãe dos agricultores biológicos ugandeses, Moses Muwanga, explica que a maioria dos agricultores cultivam produtos biológicos quase automaticamente. Ou seja, não usam substâncias sintéticas. Ao mesmo tempo, não utilizam sistematicamente os métodos da agricultura biológica.

Mas assim que usam adubo natural ou fazem a rotação de culturas, por exemplo, os lucros duplicam. “Porque a terra está praticamente livre de químicos e reage muito depressa, tendo uma produção muito mais elevada. Mas, sem condições políticas que otimizem essas vantagens estratégicas, não podemos alcançar um grande avanço,” afirma Muwanga.

A impiedosa influência climática

Enquanto o agricultor de bananas e ananases Vincent Ssoko retira com a mão as plantas daninhas entre as fileiras de abacaxi – de forma orgânica e portanto sem agrotóxicos – cada um de seus 13 filhos frequenta a escola. Ele pertence à elite em sua cidade, Kayunga. Tudo seria ótimo, se as condições meteorológicas não mudassem.

Apesar dos esforços dos agricultores, as condições climáticas continuam a ser um fator determinante para o sucesso das plantações

“A estação seca é um grande problema para nós. Precisamos de irrigação, mas ela é muito cara e perdemos rendimentos.” Acrescente a isso que as estações mudaram: “Antes havia uma estação chuvosa bem definida, agora de repente falta chuva. Isso torna tudo mais difícil,” pondera.

Quando em 2012 o chefe da NOGAMU, Moses Muwanga, visitou a feira de produtos biológicos “Biofach”, na Alemanha, conseguiu ordens de compra para os agricultores ugandeses na ordem dos 200 milhões de dólares.

Mas, por enquanto, o Uganda só consegue exportar anualmente 40 milhões de dólares em produtos biológicos. Ou seja, a revolução dos produtos orgânicos no Uganda tem muito trabalho pela frente, até que possa ajudar a resolver o problema de alimentação da África por meio de rendimentos significativamente maiores.

Fonte: Deutsche Welle

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