Horta em casa: serviços de entrega de orgânicos estão mais acessíveis e personalizados

Delivery de produtos orgânicos cresce na Capital e região, impulsionado por uma maior oferta de produção, facilidade na distribuição e também demanda

Com um crescimento em torno de 25% ao ano e movimentando cerca de R$ 4 bilhões em 2018, o consumo de alimentos orgânicos está em alta no Brasil. O país está se consolidando como grande produtor, com aproximadamente 17 mil propriedades certificadas, em todas as unidades da federação, sendo a maioria composta por pequenos produtores.

Com crescimento estimado em 25% ao ano, mercado de orgânicos movimentou 4 bilhões de reais em 2018 – Marco Santiago/ND

Quem lidera a produção é a Região Sul, com pouco mais de 6 mil produtores, seguida das Regiões Sudeste e Nordeste com cerca de 4 mil. Segundo pesquisa realizada pelo Sebrae, no ano passado, 63% são produtores exclusivos de orgânicos e os principais produtos são frutas, hortaliças, raízes, tubérculos, grãos e produtos agroindustrializados.

Popularmente conhecido como alimento sem agrotóxicos, o conceito de orgânico é muito mais amplo. Na produção orgânica, além de não se utilizar pesticidas, fertilizantes nem organismos geneticamente modificados, o sistema produtivo deve ser socioeconomicamente sustentável, de modo a maximizar os benefícios sociais, diminuir a dependência de energia não-renovável, proteger o meio ambiente e empregar métodos culturais, biológicos e mecânicos.

De acordo com a pesquisa Organis (2017), os principais fatores apontados para o consumo são a saúde, o sabor, a veiculação na mídia e a preocupação ambiental. Os orgânicos são comprados principalmente nos supermercados (64%) e nas feiras orgânicas ou agroecológicas (26%). Embora 84% dos entrevistados tenham afirmado que gostariam de consumir mais produtos orgânicos, o preço foi apontado como o fator mais limitante (62%).

Na contramão do avanço no uso de agrotóxicos na agricultura convencional brasileira, a procura pelos alimentos orgânicos continua crescendo, especialmente entre aqueles que desejam adotar um estilo de vida mais saudável. E é nesse público que as empresas de delivery têm apostado para impulsionar seus negócios.

Orgânico para todos

A publicitária Aline Borges, 45 anos, veio de São Paulo, onde já possuía um delivery de orgânicos, com a proposta de abrir um negócio semelhante na Ilha de Santa Catarina e levar alimentos orgânicos para todos, a um preço justo. “O orgânico ainda é visto como uma alimento para a classe A e queríamos desconstruir isso. Ele é naturalmente mais caro porque é manual, demanda muito mais do agricultor, mas ainda assim pode ser rentável”, revela.

Aline conta que o primeiro passo foi conhecer vários agricultores, que viraram parceiros, e entender de forma mais ampla que o conceito do orgânico vai além da isenção de agrotóxicos. “A partir do momento em que começamos a entender que esse conceito também envolve um processo socioeconômico sustentável, passamos a valorizá-lo mais ”, explica a empresária.

Então, há cerca de um ano, ela fundou o Sr. Orgânico Delivery, em Canasvieiras, junto com a irmã Andreia e o amigo Carlos Eduardo. “As pessoas estão começando a entender a importância de não consumir agrotóxicos, e embora o mercado aqui seja menor, a clientela é mais consciente e tivemos um bom resultado nesse primeiro ano”, afirma.

Para Aline, o investimento inicial não é alto, mas o negócio exige um cuidado muito grande, especialmente no relacionamento com os clientes. “Demora para ser rentável e lucrativo, é um trabalho de formiguinha, de conscientização, que começa no boca a boca. É preciso conversar com os clientes, ter um contato pessoal para estabelecer uma relação de confiança e ser muito honesto”, analisa. “Também precisa se preparar para o clima, pois no verão o cuidado com as verduras é redobrado, sendo necessário um carro climatizado, por exemplo”.

A empresa de Aline atende clientes em toda a Ilha e no continente. Ela procura ter o mínimo de desperdício, atuando como uma consultora de alimentos. “Quando os clientes não querem escolher, procuro saber quantas pessoas têm na casa, quantos consomem verduras, frutas, etc para enviar a quantia mais adequada, sem desperdícios”, conta.

Em média, a empresa entrega entre 15 e 20 caixotes (retornáveis) por semana. O pedido mínimo é de 50 reais (feira livre), mas também é possível fechar pacotes quinzenais, mensais, bimestrais ou trimestrais, o que garante descontos de até 10% no valor final. A taxa de entrega pode chegar a 15 reais.

Toda semana, a empresa disponibiliza a lista de itens à venda nas redes sociais (Facebook e Instagram), além de divulgar via whatsapp para os clientes fixos. “Os clientes fazem o pedido pelo Whatsapp e a gente entrega. É claro que pode acontecer de pedir uma batata e não ter, no conceito orgânico a gente come o que a natureza produz em determinada época do ano”, explica.

“Nós vendemos comodidade porque as pessoas não querem sair de casa e pegar fila no mercado, elas querem chegar em casa e já ter os produtos à disposição”.

Serviço personalizado

O público que busca essa praticidade também é o foco do casal Thiago Martins, 35, e Cristina Medeiros, 36, que fundaram a Natuorganics, em 2016. O sonho de trabalhar nesse ramo e desenvolver uma horta caseira começou em 2011, quando eles mudaram de Florianópolis para um sítio em São Pedro de Alcântara, a 40 quilômetros da capital. “Ainda tínhamos nossos empregos, eu como publicitário e a Cristina como veterinária, mas começamos a idealizar o negócio, pesquisar o mercado”, conta Thiago.

Thiago Martins, da Natuorganics – Natuorganics/Divulgação

Eles eram clientes de sistemas de compra coletiva e queriam oferecer produtos orgânicos não perecíveis em um serviço semelhante. Visitaram feiras, produtores de orgânicos e entrevistaram consumidores, além de fazer cursos de capacitação e empreendedorismo e idealizar o que eles mesmo poderiam produzir. “A pesquisa nos mostrou que havia uma necessidade de produtos do dia a dia, de feira, que os supermercados não atendiam e quando o faziam o preço era muito caro”, aponta.

Em 2016, Thiago largou o emprego e passou a se dedicar ao negócio, ao mesmo tempo em que mapeava empresas de delivery de orgânicos e continuava a se aprofundar no tema. Resolveu apostar na personalização. A empresa oferece planos mensais que variam entre 90 e 165 reais, onde o cliente recebe cestas personalizadas semanais, com itens dispostos em uma lista semanal.

No sítio, o casal planta temperos, vegetais folhosos e alguns tubérculos. A produção é certificada pela rede de agroecologia Ecovida, que inclui vários produtores da região. Alguns são parceiros e fornecedores da Natuorganics. “É um mercado com boa demanda e a maior parte do nosso público é de gestantes e mães com crianças pequenas, que já têm um entendimento sobre a importância da qualidade do que está consumindo”, diz Thiago.

Os pedidos são feitos via whatsapp, mas a empresa está desenvolvendo um sistema de gestão de pedidos próprio e automatizado para atender a cartela atual de 80 clientes ativos e ampliar o leque para até 100 famílias na região da Grande Florianópolis. “Agora estamos na fase de estruturação do negócio. Os desafios são ajustar a logística, formar equipes de montagem, melhorar a gestão da horta e manter a qualidade”, afirma.

A entrega é feita por duas pessoas, toda quinta-feira. “Recebemos os alimentos dos produtores na terça e montamos as caixas na quarta, quando também colhemos nossa produção que vai complementar as cestas”.

A qualidade do campo, na cidade

Foi pensando em melhorar a qualidade de seus pratos, que a renomada chef de cozinha Sônia Jendiroba, 68 anos, resolveu deixar sua vida no centro da Capital e morar em um sítio no bairro rural de Ratones, no Norte da Ilha. Entre morros e o canto dos passarinhos, ela cultiva 90 mil pés de hortaliças, temperos e legumes orgânicos certificados pela Rede Ecovida.

Com mais de 20 anos de experiência em alta gastronomia e 35 anos atuando no ramo de eventos, a pioneira no restaurante por quilo em Florianópolis começou a plantar há 11 anos. “Eu não me conformava em morar em um sítio e ter que comprar esses alimentos. Então, comecei a produzir, depois parei por um ano por conta da dificuldade em contratar mão de obra”, conta.

Antes de retomar, estudou sobre a produção e aprendeu a fazer biofertilizantes e os próprios repelentes naturais. Hoje, mantém apenas um funcionário que a ajuda na plantação. “Começo às cinco da manhã e saio da horta no mínimo às oito da noite, mas é maravilhoso trabalhar com a terra”, afirma.

A clientela se cadastra pelo Whatsapp e, aos domingos, recebem uma relação de produtos disponíveis na semana. É possível escolher tipos e quantidades, sem obrigação de comprar toda semana. Os pedidos (valor mínimo R$ 22,50 e taxa de entrega de R$ 7,50) são recebidos até as 16h do dia anterior à entrega, com distribuição uma vez na semana (exceto para restaurantes e revendedores), por áreas: Norte da Ilha, Centro e Lagoa/Sul da Ilha.

A colheita é feita na madrugada e a entrega é até o meio-dia, para manter o frescor dos alimentos. “Também faço algumas feiras, inclusive em escolas – o que pretendo ampliar este ano – e o que não é vendido deixo em um asilo”. Atualmente, a empresária conta com uma rede de 20 parceiros e atende cerca de 300 famílias.

Embora o nicho de mercado seja promissor, para Sônia ainda há um longo caminho a percorrer para ampliar o consumo. “O brasileiro ingere, em média, oito quilos de agrotóxico por ano. Precisamos de mais conscientização sobre a excelente qualidade e benefícios da alimentação orgânica”, defende.

Os riscos naturais, como excesso de sol ou chuva, também ameaçam o negócio. “Tivemos um verão extremamente quente e depois muita chuva, o que destruiu boa parte das hortaliças. Jogamos mais de 500 pés de acelga fora, porque estavam apodrecidas por dentro”, conta. Além disso, nem sempre toda a produção é absorvida. As perdas podem chegar a 25% do plantio.

A produção com foco no respeito à natureza e ao ambiente é mais cara, pois demanda mais tempo e um cuidado redobrado com o manejo. “Não utilizamos defensivos artificiais, tudo é feito manualmente e a colheita é feita no dia, o que demanda mais esforço para entregar tudo fresquinho”, aponta Sônia. Ainda há a vantagem da durabilidade, pois os alimentos sem veneno permanecem mais tempo frescos e todas as partes são utilizáveis, como cascas e talos.

Outra coisa que poderia impulsionar o mercado, na opinião da chef, é o estímulo do poder público. “Não precisamos de linhas de financiamento para endividar o produtor, mas poderíamos pensar no uso de algum tipo de maquinário compartilhado por todo o polo produtor”.

Serviço

Sr. Orgânico Delivery: (48) 9937-5167
Natuorganics Delivery de Orgânicos: (48) 9933-3033
Sônia Jendiroba: (48) 9141-9548.

Fonte::NDMais 23-02-2019 por Andrea da Luz

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