Orgânicos mais baratos na periferia. E pelo WhatsApp


Em tempos de ração humana, iniciativas como a do Armazém Organicamente são alternativas para levar alimentos produzidos sem venenos para a população da periferia da zona sul da capital

São Paulo – Parque da Água Branca, em Perdizes, Burle Marx, no Morumbi, do Ibirapuera, no bairro de mesmo nome, Shopping Villa Lobos, no Alto de Pinheiros. Das nove feiras de orgânicos localizadas na capital paulista, segundo a Associação de Agricultura Orgânica, nenhuma está na periferia. A distribuição, em bairros de classe média a alta, é confirmada pelo Mapa das Feiras Orgânicas, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que lista, além dos espaços, diversas receitas e links para cartilhas sobre produção orgânica e agroecológica.

O mesmo vale para serviços de entrega de porta em porta. Os trabalhadores e a população de baixa renda, que moram nos bairros periféricos, não têm onde comprar esses alimentos. E o espaço reservado ao orgânicos nos hortifrútis dos supermercados e hipermercados, que vão aos poucos substituindo as feiras periferia adentro, têm preços quatro vezes maior em média.

O jeito é comprar verduras, frutas, legumes e todo tipo de alimento produzidos na chamada agricultura convencional, na qual, por pressão da indústria, se convencionou produzir alimentos com adubos e agrotóxicos nocivos à saúde e ao meio ambiente. Os agrotóxicos, aliás, são reconhecidamente causadores de vários tipos de câncer, malformações congênitas, abortos espontâneos, infertilidade e tantas outras doenças. E matam.

Essa dificuldade de acesso da população mais pobre a alimentos de verdade, naturais, que fornecem os nutrientes necessários ao bom funcionamento do organismo, define um conceito que vem ganhando força: o deserto alimentar, que as obriga a consumir porcarias industrializadas, que engordam e adoecem o corpo, e de vegetais carregados de venenos. 

Em sua tese de doutoramento pela Faculdade de Saúde Pública (FSP/USP), Ana Clara da Fonseca Duran demonstra, entre outros aspectos, que o acesso a alimentos saudáveis e o consumo alimentar variam conforme o local de residência, podendo contribuir com desigualdades em saúde já existentes em áreas urbanas.

Desova

Até 70 anos atrás, antes de os estoques das armas químicas da Segunda Guerra passarem a ser desovados na agricultura como “defensivos agrícolas”, as lavouras produziam sem venenos e assim alimentaram a população ao longo da história.

Prevaleceu, no entanto, o discurso da indústria, de que seus “defensivos” permitem “aumentar a produção”. Esses produtos foram então ganhando terreno e tomaram conta da agricultura. Terras e águas livres de contaminação por esses venenos tornaram-se praticamente artigo de luxo, para poucos. E a recuperação ambiental, que leva algum tempo, não permite ainda produzir em escalas maiores – daí o preço maior de alimentos produzidos de maneira orgânica.

Foi levando tudo isso em consideração que o Armazém Organicamente levou para a região do Campo Limpo, na periferia da zona sul de São Paulo, a oferta de verduras, legumes, frutas e cereais de qualidade e a preço justo. O armazém, virtual, consiste na entrega, em domicílio, de itens disponíveis em uma lista que pode ser fornecida pelo WhatsApp.

Os pedidos feitos até a terça-feira são entregues na quinta. Metade das verduras vendidas vêm da Roça Abaetetuba. E o conjunto de todos os itens vêm do cinturão orgânico de Ibiúna e de assentamentos do MST. Para pedir, basta entrar em contato pelo (11) 99206-4410.

O selo do marketing, porém, ajuda a elevar os preços, assim como a busca de lucros maiores em muito empreendimentos. “É claro que produzir sem adubo químico, regar com água e nascente, sem cloro, como era antigamente, é hoje mais caro. Mas é possível vender orgânicos a preço mais acessível para a população, e ajudar a diminuir esse deserto ambiental”, diz a gestora ambiental Eneide Gama, que gerencia o Armazém Organicamente e a Roça Abaetetuba.

Eneida esteve entre os 45 participantes do Festival de Gastronomia Orgânica Da Terra ao Prato, encerrada neste domingo (22) no Parque da Água Branca, na capital paulista. Na edição passada, em 2016, foram 35, conforme a organização.

Para a gestora do Armazém Organicamente, o crescimento da feira reflete o aumento do interesse da população em geral pelo tema, que vai além da crise econômica e do desemprego. “A população entende que o alimento ruim que come, cheio de veneno, é responsável pelas doenças. Mas é preciso ter acesso a alimentos saudáveis, ter onde comprar e poder pagar por eles”, diz.

Ração humana

Embaixadora em São Paulo do projeto Food Revolution, do famoso chef britânico Jamie Oliver, que utiliza alimentos naturais e orgânicos e que vem mudando hábitos alimentares em escolas do seu país, a cozinheira Lara Folster também levou seu trabalho para o Festival.

Proprietária da Lanche & Co, que mantém um café em Pinheiros, zona sul da capital, onde é possível saborear, entre outros, o delicioso bolo de abobrinha, Lara se dedica a trabalhos com escolas. São atividades que vão além do fornecimento de lanches saudáveis para a rede particular: ela leva uma cozinha para a sala de aula, fazendo da alimentação um instrumento de aprendizado.

Suas atividades incluem projetos voluntários na rede pública municipal, como o que desenvolve em uma escola de educação infantil no Jardim São Luiz, região do Capão Redondo. Conhecedora de alimentação infantil e da rede municipal de educação, Lara critica a polêmica ração do prefeito João Doria (PSDB), que vai na contramão de todo e qualquer avanço.

“É o processamento do processamento. Com o que grandes indústrias teriam como descarte, grandes produtores de alimentos cheios de agrotóxicos, eles fizeram a liofilização, um processo em que se obtém um crocantezinho. Junta com alimento vivo, cheio de agrotóxico, com o intuito de a indústria economizar e não ter de se preocupar com o descarte e a gente pagar por ele. E ainda não tem ficha técnica, não tem nada do que tem lá dentro. É o cúmulo do absurdo. E você não pode nem usar como suplemento, como diz o prefeito. Não se pode suplementar nada, sem orientação médica. Na verdade, tem de se comer comida fresca, colorida”, alerta.

Buraco quente

O festival de gastronomia orgânica deu espaço também para a oferta de pratos que fazem a festa de todos. É o caso do famoso buraco quente – ou lanche de "carne louca" – com carne desfiada, com muito molho, servida em um pão francês esburacado. O sanduíche que ficou na saudade para aqueles que riscaram as carnes de seu cardápio foi apresentado na versão agroecológica de Rodolfo Gomes Mendonça.

Físico de formação e ex-professor da rede pública, ele deixou de lado as fórmulas e cálculos. A partir dos 22 anos, quando se tornou vegetariano, começou a aprender receitas e tomou gosto pela culinária vegetariana.

"Aceitei o desafio do festival e criei este buraco quente agroecológico", conta Rodolfo. Com mais de 14 vegetais, a massa que fica marinando em temperos de um dia para o outro é preparada na chapa, como um hambúrguer, antes de rechear o pão francês orgânico, produzido sob encomenda em uma padaria dos Jardins, a partir de farinha orgânica.

"Quando a gente deixa de consumir carne, passa a enxergar a comida e sua produção de maneira mais consciente. Não tem como continuar consumindo carne, cuja produção leva ao desmatamento para criação de pastos, quando a agricultura familiar e os pequenos produtores podem colocar comida na mesa. Precisamos fortalecer esse sistema de produção, para que possam cada vez mais produzir alimentos saudáveis para todos".   

Fonte: RBA publicado 22/10/2017 por Cida de Oliveira


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