Novas técnicas de convívio com a seca transformam fazenda em oásis

KARINA ARAÚJO

Situada entre os municípios de Patos e Santa Tere-zinha, no Sertão da Pa-raíba, a Fazenda Tamanduá con-seguiu superar as adversidades climáticas características e hoje tornou-se um oásis em plena região semi-árida, adotando o sistema orgânico no pomar, nas lavouras e na criação, com uma produção de mil litros de leite por dia, 500 quilos de queijo por semana e 45 mil caixas de mangas por ano.

Há cerca de 30 anos, o suíço Pierre Landolt formou-se em Di-reito na França e mudou-se para o Brasil para trabalhar numa multinacional. Ao percorrer vá-rias regiões do País, disse que teve um choque cultural emocionante ao ter contato com a região do Sertão, que, segundo ele, vivia em outro século. Então resolveu tentar uma experiência solitária que acabou se consolidando na Paraíba, que apresentava as melhores condições para o seu plano de plantio de algodão de fibra longa. No começo, ele admite que tentou dominar a seca e demorou a entender que isso era um erro, e teve que aprender a conviver com ela.

Com a chegada do bicudo, que dizimou os plantios de algodão, ele resolveu incrementar o projeto leiteiro, a partir do rebanho pardo suíço, um animal rústico que se adaptou ao clima do Sertão. Neste mesmo período, o cultivo de manga também foi introduzido na fazenda. Sobre a mudança para o sistema orgânico, Pierre Landolt diz que permite um impacto menor, principalmente na região, que já tem o meio ambiente fragilizado.

A principal fonte de renda da fazenda é o pomar de mangas, que também são comercializadas de forma desidratada, sem aditivos e conservantes, conforme certificação do IBD e fiscalizações da Vigilância Sanitária e Sudema.

A irrigação é feita por gotejamento a partir de três açudes que conservam a água das chuvas, as mangueiras frutificam em pleno período seco, possibilitando duas safras anuais: de outubro a janeiro e em julho.

O aproveitamento das frutas chega a 100% porque mesmo as muito maduras ou estragadas, impróprias para a comercialização, vão para a cocheira do gado. A adubação das mangueiras é realizada por um composto feito na própria fazenda à base de esterco de gado e de jurema, misturado a outros produtos naturais, e as abelhas garantem uma polinização perfeita da floração.

Atualmente, são produzidos quatro tipos de queijos, mel orgânico, abacaxi, mamão havaí e jaca convencionais desidratados, leite de cabra convencional e reprodutores de vacas e novilhas da raça pardo.

Preocupação com a preservação ambiental

Novecentos hectares dos quase 3 mil totais da Fazenda Tamanduá são destinados a uma reserva legal e uma Reserva Particular do Patrimônio Nacional, criada em julho de 1998 e reconhecida pelo Ibama como “representativa de ecossistemas da caatinga, fauna e flora típicas da região e relevante beleza cênica”. Por conta da preocupação com a preservação ambiental, com a proibição da caça, é possível verificar o reaparecimento de espécies como o veado, o gato mirim e o gato vermelho. Um levantamento feito em 2000, pelo engenheiro florestal Lúcio Valério Coutinho, identificou na área 16 famílias botânicas e 25 espécies de indivíduos. O local também é utilizado para soltura de animais apreendidos na região e fazem parte da fauna raposas, sagüis, tatus e guaxinins, além de codornas, codornizes, juriti e asa branca, que estiveram ameaçados de extinção.

No aspecto social, a Fazenda Tamanduá gerou postos fixos e temporários de trabalho, fazendo com que diminuísse a migração, principalmente de jovens, para os centros maiores do País. A mão-de-obra feminina, geralmente desvalorizada, é aproveitada no processamento do leite e das frutas, com salários semelhantes aos dos homens. Uma escola, localizada na fazenda, oferece aulas do ensino fundamental a aproximadamente 40 crianças. Além de torneios de futebol nos dois campos existentes, na quadra da escola, também são oferecidas festas, como São João e casamentos, além de missas.

NOME DA FAZENDA

Ao aliar técnicas de convivência com a seca e o sistema orgânico de produção, a fazenda consegue manter a produção durante os seis meses de seca, já que em anos normais, chove de janeiro a junho na região. O nome da fazenda foi inspirado em uma formação rochosa típica do Sertão, denominada de Serrote do Tamanduá. (KA) Alga é produzida como alternativa para animais

Fonte: Agência Brasil

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